A Justiça do Maranhão decidiu revogar a prisão preventiva do prefeito de Turilândia, José Paulo Dantas Silva Neto , conhecido como Paulo Curió, além de outros 14 investigados apontados como integrantes de um suposto esquema de corrupção responsável por desviar cerca de R$ 56 milhões dos cofres públicos do município. A decisão foi assinada na tarde de segunda-feira (11) pela desembargadora Maria da Graça Peres Soares Amorim , relatora do caso na Terceira Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ-MA). O processo investiga crimes como organização criminosa, fraude em licitações, lavagem de dinheiro e desvio de recursos públicos. Conforme a magistrada, a intervenção estadual realizada em Turilândia e a conclusão da fase de investigações diminuíram os riscos que sustentavam a necessidade das prisões preventivas.
Com a nova decisão, nenhum dos 18 investigados citados no processo permanece em unidade prisional. Todos já foram denunciados pelo Ministério Público do Maranhão (MP-MA). Dos envolvidos, 15 tiveram a prisão preventiva revogada e substituída por medidas cautelares, entre elas recolhimento domiciliar com uso de tornozeleira eletrônica. Foram beneficiados José Paulo Dantas Silva Neto, Wandson Jonath Barros, Hyan Alfredo Araújo Mendonça Silva, Janaína Soares Lima, Marlon de Jesus Arouche Serrão, Gerusa de Fátima Nogueira Lopes, Eustáquio Diego Fabiano Campos, além dos vereadores Mizael Brito Soares, José Ribamar Sampaio, Nadianne Judith Vieira Reis, Sávio Araújo e Araújo, Gilmar Carlos Gomes Araújo, Josias Fróes, Carla Regina Pereira Chagas e Inailce Nogueira Lopes. A Justiça determinou a expedição imediata dos alvarás de soltura, mas estabeleceu uma série de restrições aos investigados.
Entre as medidas impostas estão recolhimento domiciliar integral com monitoração eletrônica, exceto em casos autorizados pela Justiça ou situações médicas urgentes, proibição de contato com outros denunciados e testemunhas, impedimento de frequentar órgãos públicos de Turilândia, incluindo prefeitura, secretarias e Câmara Municipal, além da proibição de acessar sistemas da administração municipal, contratar com o poder público e participar de atividades político-partidárias, inclusive pelas redes sociais. Mesmo com a revogação das prisões de parte dos investigados, duas denunciadas seguem em prisão domiciliar. A vice-prefeita Tânya Karla Cardoso Mendes Mendonça continuará cumprindo prisão domiciliar, enquanto Eva Maria Oliveira Cutrim Dantas teve negado o pedido para frequentar aulas presenciais de medicina e permanecerá em casa, sob justificativa de cuidados com os filhos menores.
A decisão também manteve o afastamento de cargos públicos do prefeito Paulo Curió, da vice-prefeita Tânya Karla, de Clementina de Jesus Pinheiro Oliveira e de outros servidores investigados. Segundo o documento judicial, Clementina já estava submetida anteriormente a medidas cautelares, que foram mantidas neste novo julgamento, incluindo o afastamento das funções públicas. Os oito vereadores beneficiados pela soltura também seguem afastados das atividades legislativas na Câmara Municipal de Turilândia. Já Wandson Jonath Barros permanece proibido de exercer atividades profissionais como contador. A Justiça alertou que qualquer descumprimento das medidas poderá resultar no restabelecimento das prisões preventivas.
Em meio à crise administrativa no município, o defensor público Thiago Josino Carrilho de Arruda Macêdo teve o nome aprovado para atuar como interventor de Turilândia. A indicação foi enviada à Assembleia Legislativa do Maranhão (Alema), e, segundo o governador, a escolha ocorreu por conta do perfil técnico e da experiência do defensor para lidar com a situação administrativa da cidade. A intervenção terá duração inicial de 180 dias, podendo ser prorrogada caso não haja normalização institucional. O objetivo, segundo o TJ-MA, é restabelecer a normalidade constitucional, assegurar a continuidade dos serviços públicos essenciais e garantir o cumprimento das decisões judiciais.
A intervenção em Turilândia foi aprovada pelo Tribunal de Justiça em 26 de janeiro, após pedido do Ministério Público do Maranhão. O órgão argumentou que o então presidente da Câmara Municipal, José Luís Araújo Diniz, conhecido como “Pelego” (União Brasil), assumiu a administração da cidade, mesmo sendo um dos investigados no esquema de desvio de recursos públicos. Apesar de aceitar o pedido, o TJ-MA definiu que a intervenção ficaria restrita ao Poder Executivo, mantendo as funções legislativas sob responsabilidade da Câmara Municipal. O interventor também terá de apresentar, em até 90 dias, um relatório detalhado com diagnóstico da situação administrativa e as medidas adotadas.
Após assumir a função, Thiago Josino afirmou que a prioridade será elaborar um levantamento completo sobre a situação financeira, administrativa e orçamentária de Turilândia. De acordo com a representação apresentada pelo Ministério Público, práticas ilegais teriam comprometido serviços essenciais como saúde, educação, transporte e segurança pública, deixando a população em situação de vulnerabilidade. Entre as irregularidades apontadas estão desvio de recursos públicos, fraudes em contratos, descumprimento de decisões judiciais e atuação de uma organização criminosa dentro da estrutura administrativa do município.
O MP-MA sustentou ainda que medidas tradicionais, como recomendações, multas, prisões e afastamentos de agentes públicos, não foram suficientes para interromper as ilegalidades. Segundo o órgão, o grupo investigado teria continuado atuando mesmo após operações policiais e decisões judiciais, inclusive com tentativas de obstrução da Justiça. Durante a sessão que analisou a intervenção, o procurador-geral de Justiça do Maranhão, Danilo José de Castro Ferreira, afirmou que o pedido do Ministério Público não se baseava em falhas administrativas comuns, mas em um cenário de “ruptura institucional”. Segundo ele, Executivo e Legislativo de Turilândia teriam sido capturados por uma organização criminosa que atua na cidade desde 2021.
“Infelizmente, estamos diante de um quadro de anomalia institucional que já é de conhecimento nacional. A administração pública municipal de Turilândia foi tomada por uma organização criminosa, cujos atos são objeto de denúncia que tramita neste tribunal”, afirmou.
Thiago Josino Carrilho de Arruda Macêdo atua como coordenador da Central de Relacionamento com o Cidadão da Defensoria Pública do Estado do Maranhão (DPE/MA) e também ocupa a presidência do Conselho Penitenciário do Maranhão (Copen) no biênio 2024–2026. Ele possui pós-graduação em Direito Público e Educação em Direitos Humanos, com atuação voltada às áreas institucional, administrativa e de defesa de direitos fundamentais.
O Ministério Público denunciou, em 19 de janeiro, o prefeito Paulo Curió, filiado ao União Brasil, a vice-prefeita, a ex-vice-prefeita e sete familiares por suspeita de participação no esquema de desvio de R$ 56 milhões investigado pela Operação Tântalo II. A denúncia foi encaminhada ao gabinete da desembargadora Maria da Graça Peres Soares Amorim, responsável pela relatoria do caso na 3ª Câmara Criminal do TJ-MA, que decidirá se a ação penal será aceita. O MP-MA também denunciou vereadores e servidores suspeitos de integrar o esquema criminoso. Ao todo, 18 dos 21 investigados foram denunciados. Caso a denúncia seja aceita pela Justiça, os envolvidos passarão à condição de réus.
Segundo o Ministério Público, Paulo Curió teria promovido, organizado e liderado a organização criminosa, utilizando o cargo de prefeito para manter o funcionamento do esquema. O órgão acusa o gestor de desviar recursos públicos por meio de contratos fraudulentos, fraudar licitações, receber vantagens indevidas e ocultar patrimônio ilícito usando empresas, pessoas e bens. Ele foi denunciado pelos crimes de organização criminosa, desvio de rendas públicas, fraude em licitações, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
Além do prefeito, familiares e integrantes do núcleo político de Turilândia também aparecem entre os denunciados. Eva Dantas, esposa do prefeito, é acusada de participar da organização criminosa e auxiliar na ocultação de valores ilícitos. A vice-prefeita Tânya Karla teria utilizado o cargo para facilitar os desvios e ocultar recursos obtidos ilegalmente. Já Janaína Soares, ex-vice-prefeita, foi denunciada por suposta participação no esquema, incluindo fraudes em licitações e recebimento de vantagens indevidas. Outros familiares do prefeito também foram citados pelo MP-MA por suspeita de envolvimento na movimentação financeira e ocultação de recursos desviados.
A Operação Tântalo II, deflagrada em 22 de dezembro, apura o desvio de aproximadamente R$ 56,3 milhões dos cofres públicos por meio de empresas de fachada ligadas ao prefeito Paulo Curió e aliados políticos. Segundo as investigações, os desvios ocorreram principalmente nas áreas da Saúde e Assistência Social. Além de gestores públicos, empresários, servidores, 11 vereadores e um ex-vereador, atualmente secretário municipal de Agricultura, também são investigados. As irregularidades teriam ocorrido entre 2021 e 2025, envolvendo crimes como organização criminosa, fraude em licitações, corrupção ativa e passiva, peculato e lavagem de dinheiro.