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Presidente do Peru se isola e país tem ameaça de nova crise política

Uma semana após sua posse, o Peru já discute o risco de impeachment do presidente Pedro Castillo.
Por Estadão Conteúdo

O novo presidente do Peru está tendo um começo de governo atribulado, escolhendo ministros controversos, indispondo-se com aliados e criando o cenário para um confronto brutal com o Congresso, tudo isso poucos dias após assumir o cargo.

Professor de escola rural e ativista sindical, Pedro Castillo venceu as eleições após assegurar ser independente e não comprometido com a ideologia marxista de seu partido e de seu líder.

Mas ao formar seu Gabinete — que inclui um premiê sob investigação por supostamente defender terroristas — analistas, oposicionistas e até pessoas que o apoiaram estão alarmadas, tanto que a palavra “impeachment” já está sendo ouvida de novo em Lima. “Seu capital político virou fumaça em 24 horas”, diz Rodolfo Rojas, sócio do grupo de consultoria política Sequoia, de Lima. “Se não mudar de rumo, não haverá futuro para ele.”

O impeachment não é iminente, diz Rojas, mas um choque com o Congresso parece provável. Embora o Peru tenha o hábito de depor presidentes, é raro uma discussão dessas ocorrer dias depois a posse.

Os investidores também estão alarmados. A moeda peruana, o sol, caiu na terça-feira, 10, a nova mínima recorde de 4,11 por dólar, enquanto que a bolsa local recuou 1,01%, trazendo a queda acumulado no mês a 8,6%. O Barclays estima a saída de capital em torno de US$ 3 bilhões por mês desde as eleições de abril.

A comunidade empresarial do Peru, concentrada em Lima, está preocupada, embora poucos desse grupo estejam dispostos a falar publicamente sobre o momento. “Ninguém quer se expor”, disse um experiente líder empresarial ao jornal “Financial Times”.

O presidente de uma companhia peruana disse ter três preocupações: a fraqueza do sol, a ameaça de Castillo de renegociar os acordos de livre comércio do Peru e o possível impacto da política do governo sobre o setor minerador, que responde por mais da metade da receita exportadora do país.

“Exportamos principalmente aos EUA. Você pode imaginar o impacto negativo se o governo começar a se intrometer no acordo de livre comércio”, disse o empresário.

Vários apoiadores romperam com Castillo, incluindo o Partido Morado, de centro, o jornal “La Republica”, o maior do país, e também o sindicato dos professores. O processo de impeachment de um presidente no Peru é mais fácil do que em quase qualquer lugar do mundo. Os adversários de Castillo só precisam de 87 de 130 votos no Congresso unicameral e ele poderia ser deposto sob a cláusula vagamente definida de “incapacidade moral”.

O ex-presidente Martín Vizcarra foi deposto no ano passado sob essa alegação e quase todos os presidentes peruanos eleitos desde 1985 sofreram impeachment, foram presos ou sofreram investigações criminais.

O Peru Livre, partido de Castillo, possui 37 cadeiras no Congresso. Somando os aliados, não chega a 50. Em outras palavras, seus adversários dominam o Congresso.

Há quem suspeite que Castillo tenha nomeado Guido Bellido como premiê para criar um confronto com o Congresso. Sob a constituição do país, se o Congresso rejeitar duas vezes seu Gabinete, o presidente pode dissolver o legislativo e convocar novas eleições.

“Se eles não gostarem do Gabinete de Bellido, eles lhe darão um voto de não confiança e imediatamente apresentaremos outro Gabinete”, disse Guillermo Bermejo, congressista do Peru Livre. “E se eles não gostarem desse outro, adeus Congresso!”

Isso poderá preparar o cenário para que Castillo convoque uma Assembleia Constituinte para refazer a constituição, algo já feito por outros radicais da América Latina como Hugo Chávez na Venezuela.

Castillo era desconhecido antes da campanha presidencial, quando passou para o segundo turno contra Keiko Fujimori, do mais poderoso clã político do país. Ele venceu a disputa por 40 mil votos e enfrentou semanas de recontagens e contestações legais, antes de ser declarado vitorioso.

Bellido é um marxista que nunca ocupou altos cargos públicos e considera o governo comunista de Cuba uma democracia. Outras escolhas controvertidas para o Gabinete incluem o ministro do Exterior, Hector Bejar, que foi líder guerrilheiro na década de 60.

Muitos dos novos ministros carecem de experiência e qualificações para suas novas responsabilidades, que incluirão devolver à normalidade ao país após ser um dos mais atingidos pela pandemia de covid-19 no mundo. Até mesmo membros do novo governo parecem ter reservas em relação a alguns de seus colegas.

Horas antes do Gabinete prestar juramento em 30 de julho, os nomeados por Castillo para os ministérios da Economia e da Justiça ameaçaram desistir, prestando juramento só no dia seguinte, aparentemente após receberem algumas garantias de Castillo.

Embora Castillo tenha dado “um tiro no pé” em seus primeiros dias no poder, seu governo não está à beira de um colapso, avalia Jo-Marie Burt, especialista em Peru do Washington Office on Latin America, que promove os direitos humanos e a Democracia.

Uma tentativa de impeachment provavelmente provocaria uma reação furiosa dos apoiadores de Castillo, muitos dos quais são de áreas rurais pobres e veem sua ascensão ao poder como uma chance de serem ouvidos. Para Pablo Secada, economista e político peruano, o impeachment é uma opção “bomba nuclear”.

Outros adversários do governo propõem uma estratégia menos incendiária. Eles afirmam que o Congresso deve aprovar o Gabinete de Castillo — que ele precisa submeter a um voto de confiança neste mês — e tentar bloquear algumas de suas propostas mais polêmicas, como a tentativa de reescrever a constituição. “Esse, acredito, é o caminho mais prudente a ser seguido”, diz um experiente líder empresarial. “Podemos não gostar do que está acontecendo, mas não se pode fazer o impeachment de um presidente depois de uma semana! Castillo ficará conosco por um tempo e teremos de aceitar que enquanto ele estiver, a economia vai sofrer.”

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