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Boris Johnson é acusado de assédio em pleno congresso sobre o Brexit

Editora de jornal britânico relatou caso ocorrido há 20 anos, que tomou os holofotes de evento do Partido Conservador, em busca de apoio para a saída da União Europeia.

Por  Estadão Conteúdo

O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, foi acusado de assédio sexual durante o fim de semana, por um caso ocorrido há 20 anos.

O toque indevido em uma jovem jornalista, episódio que ele nega que tenha ocorrido, ameaçavam ofuscar um congresso do Partido Conservador nesta segunda-feira, 30, do qual Johnson participa, para incentivo à realização do Brexit no mês que vem.

Charlotte Edwardes, editora do jornal The Sunday Times, contou em um artigo publicado no domingo que o incidente ocorreu durante um almoço no escritório da revista conservadora The Spectator, em Londres, logo após Johnson ter se tornado editor em 1999.

"Por baixo da mesa, sinto a mão de Johnson na minha coxa. Ele a está apertando. Sua mão está no topo da minha perna e ele tem carne suficiente sob os dedos para que eu me levante de repente", relata no artigo escrito por ocasião dos dois anos do movimento "Me Too" (eu também, em tradução livre do inglês), que libertou a palavra de mulheres vítimas de assédio ou de agressão sexual.

Na época uma jovem jornalista, Charlotte explica que falou com uma jovem que também estava sentada ao lado de Boris Johnson durante o almoço e que lhe disse: "Oh meu Deus, ele fez o mesmo comigo!".

Em um sinal de que a acusação é mais séria do que as fofocas habituais sobre os casos extraconjugais do primeiro-ministro, seu gabinete divulgou uma breve declaração, na qual afirmou que "a acusação é falsa".

E o próprio Johnson, que está em Manchester, no norte da Inglaterra, para o congresso anual do Partido Conservador, negou o incidente em uma entrevista ao canal de televisão Sky News.

"Se o primeiro-ministro não se lembra do incidente, então tenho claramente uma memória melhor do que ele", respondeu Charlotte Edwardes no Twitter.

Ela recebeu apoio do ministro da Saúde, Matt Hancock, que disputou contra Boris Johnson a liderança do Partido Conservador em julho. "Eu a conheço bem e sei que ela é digna de confiança", declarou Hancock ao canal Channel 4.

"Concordo totalmente com o @MattHancock", acrescentou no Twitter Amber Rudd, que renunciou no mês passado como ministra do Trabalho.

Outros políticos, porém, expressaram apoio a Johnson.

"É uma pessoa decente. Acredito que se importa muito com as mulheres e meninas", disse Penny Mordaunt, ex-ministra da Defesa, enquanto a deputada Rachel Maclean destacou sua campanha contra a mutilação genital feminina.

Impactos políticos

Boris Johnson também corre o risco de ser investigado por causa de seu relacionamento com uma empresária americana, Jennifer Arcuri, que recebeu financiamento público quando ele era prefeito de Londres.

O The Sunday Times afirma que eles tiveram um caso e não declararam nenhum potencial conflito de interesses. "Tudo foi feito como deveria", replicou Johnson.

Em um momento delicado, seguido da sentença da Corte Suprema na semana passada que declarou como "ilegal" a decisão de Johnson de suspender o parlamento, e os sucessivos reveses que isso inflingiu na tentativa de evitar um Brexit sem acordo em 31 de outubro, prazo estabelecido para a saída do Reino Unido da União Europeia, Johnson deveria aproveitar os quatro dias do congresso para unir seus aliados.

Porém, nesta segunda, a maioria dos políticos parecia falar mais dos supostos toques indevidos do que da iminente saída da U.E.

Separado desde o ano passado de sua esposa Marina Wheeler, Johnson está namorando Carrie Symonds, uma especialista em comunicação 24 anos mais nova, que o acompanha à convenção anual do Partido Conservador, que acontece até quarta-feira.

Existe preocupação com o impacto que essas acusações podem ter sobre a popularidade do polêmico primeiro-ministro entre as eleitoras, dada a perspectiva de eleições antecipadas nos próximos meses.

"Ainda existem alguns membros do Partido Conservador que não tratam as mulheres como deveriam", disse à agência France Press uma delegada que pediu anonimato.

Para muitos em Manchester, porém, o principal problema ainda é o Brexit. E eles acreditam que Johnson é a pessoa que pode fazê-lo acontecer, mesmo ao custo de uma saída brutal da União Europeia, se não conseguir um acordo com Bruxelas sobre a fronteira entre Irlanda e Irlanda do Norte.

Questionado pela BBC sobre o impacto desse cenário, calculado em até 30 bilhões de libras por ano para os cofres públicos, o ministro das Finanças, Sajid Javid, disse que ninguém sabe realmente quanto isso poderia custar.

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