Ciência e Tecnologia

Cientistas revelam descoberta de câncer em fóssil de dinossauro

Marcas deixadas por doenças e ferimentos podem elucidar questões sobre a vida destes animais.

Por  Estadão Conteúdo

O paciente jamais soube qual era a origem de sua dor no quadril, nem o porquê de sua perna esquerda ter parado de funcionar. O diagnóstico chegou com atraso de 240 milhões de anos, quando um fêmur foi encontrado no antigo leito de um lago na Alemanha, com um dos lados afetado por um tumor ósseo maligno.

O câncer raramente é visto em registros fossilizados, e sua história entre os vertebrados é pouco compreendida. Uma equipe de pesquisadores, escrevendo par a publicação JAMA Oncology, descreveu o fêmur como o mais antigo caso de câncer num amniota, grupo que inclui répteis, pássaros e mamíferos.

  • Foto: Brian EnghTumor em fóssil de dinossauroTumor em fóssil de dinossauro

O câncer moderno é frequentemente diagnosticado por meio de exames de tecido mole e biópsias, mas isso é difícil com os fósseis petrificados. “Em se tratando do nosso entendimento do câncer no passado, estamos apenas começando", disse a bioarqueóloga Michaela Binder, do Instituto Arqueológico Austríaco.

Encontrado originalmente por Rainer Schoch, do Museu Estatal de História Natural de Stuttgart, na Alemanha, o fêmur pertencia a um animal de corpo largo e rabo longo chamado Pappochelys, um parente sem casco das tartarugas modernas. O crescimento irregular do fêmur chamou a atenção de Yara Haridy, paleontóloga do Museu de História Natural de Berlim. Yara disse que as marcas deixadas por doenças e ferimentos podem elucidar um pouco da vida dos animais antigos. O estudo desses fósseis é chamado de paleopatologia, combinando aspectos da investigação forense com técnicas da medicina.

Graças a exames de microtomografia do fêmur, Yara e seus colegas identificaram o inchaço como um osteosarcoma, tipo de câncer ósseo também encontrado nos humanos. A descoberta é importante em se tratando de aprender mais a respeito do câncer nos vertebrados, disse Binder. A ausência de evidências de câncer na pré-história levou os pesquisadores a especularem se a doença não seria um fenômeno moderno ligado a um estilo de vida pouco saudável, à poluição e ao grande aumento na expectativa de vida das pessoas.

Outros especialistas indicaram a possível presença de um gene supressor de tumores nos vertebrados, cujas mutações levariam tumores benignos à metástase. Mas, na ausência de evidências nos fósseis, não havia nada para comprovar tais hipóteses. A incerteza era ampliada pelo fato de algumas linhagens de animais parecerem menos suscetíveis ao câncer do que outras, enquanto os tumores dos invertebrados pouco se assemelham aos dos vertebrados.

Ainda assim, outras descobertas recentes indicam que o câncer pode ser muito antigo. Em 2001, paleontólogos russos identificaram um possível osteosarcoma cranial num anfíbio do Triássico Inferior, enquanto um tumor na mandíbula de um ancestral dos mamíferos de 255 milhões de anos atrás foi apontado em 2016.

“O que faz disso interessante é que agora entendemos que o câncer é, basicamente, um interruptor de raízes profundas que pode ser ligado ou desligado", disse Yara. “Não é algo que aconteceu recentemente na nossa evolução. Não é algo que surgiu no início da história humana, ou mesmo da história dos mamíferos.”

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