A família da pequena Alice Brasil , de 4 anos, que morreu em um trágico acidente no Colégio CEV , concedeu coletiva à imprensa na manhã desta segunda-feira (13) para se pronunciar oficialmente sobre a conclusão do inquérito do caso sem indiciamentos. Durante a entrevista, Cláudio Sousa e Dayana Brasil, pais da criança, classificaram como “vergonhoso” o trabalho da Polícia Civil na apuração. Eles relataram falhas graves na investigação, questionaram a atuação do delegado responsável e apontaram negligência na condução do inquérito, que, segundo eles, não buscou esclarecer adequadamente os fatos.

O pai de Alice, Cláudio Sousa, relatou que o inquérito levou mais de dois meses para ser finalizado e terminou com a sugestão de arquivamento, sem indiciar ninguém. “Para nossa família, e acredito que para a sociedade como um todo, é vergonhoso um trabalho levar mais de dois meses e meio para chegar a essa conclusão, diante de tantos fatos que foram mostrados para o Brasil inteiro”, disse ele.

Foto: Pedro Henrique/GP1
Dayana Brasil e Cláudio Sousa

Cláudio destacou a rapidez com que o delegado aparentemente quis encerrar o caso nos primeiros dias após o acidente. “48 horas depois, ele já indicava que quatro depoimentos eram suficientes para encerrar o inquérito. Nem a nossa família, que estava presente no momento do acidente, foi ouvida, nem outros envolvidos. Sendo que nas imagens todos puderam ver a quantidade de pessoas envolvidas, tanto durante quanto após o ocorrido. Isso é apenas o primeiro fato que trago aqui”, afirmou.

O pai de Alice Brasil relatou ainda que, após recorrer ao Ministério Público, foi possível garantir a oitiva de depoimentos essenciais. “É vergonhoso termos que dizer, como leigos, o que precisa ser feito. Ainda bem que o Ministério Público, juntamente com nossa equipe de advogados, conseguiu que essas pessoas fossem ouvidas, na tentativa de elucidar o caso, coisa que o inquérito não fez ao longo de dois meses”, disse. Entre os depoimentos colhidos estavam médicos legistas, enfermeiros, a equipe de limpeza que alterou o local antes da perícia, dirigentes da escola e profissionais do SAMU.

A mãe de Alice, Dayana Brasil, também criticou a falta de apoio da instituição e a condução da investigação. Ela destacou o sofrimento do irmão da menina, Arthur, que presenciou o acidente. “Ele ficou quatro horas na escola após o ocorrido, sem nenhum cuidado ou orientação. Nós estávamos no IML acompanhando nossa filha, e só quando nossos familiares chegaram é que pedimos para que alguém fosse buscar o Arthur. A escola nos entregou apenas seis minutos de imagens de um intervalo de quatro horas. Se eles têm seis minutos, têm todas as quatro horas e estão escondendo algo. Isso é inaceitável”, afirmou.

Críticas ao Colégio CEV

Os pais também questionaram a postura da escola e da Polícia Civil diante das normas de segurança. Segundo o laudo pericial, o móvel que tombou tinha dimensões incompatíveis com as normas de segurança de brinquedos em ambientes infantis. Mesmo assim, o delegado responsável não indiciou nenhum responsável. “Como o delegado coloca no relatório que o móvel não poderia estar ali e, ao mesmo tempo, não indicia ninguém? É uma coisa óbvia. O móvel não caiu do céu, alguém o colocou. E ninguém responde por isso”, disse o pai.

Sem anúncio no momento

Cláudio também criticou a postura da escola, que, segundo ele, tentou minimizar a situação. “O presidente do CEV afirmou que havia três cuidadoras no momento do acidente. Mas todos que assistiram às imagens, seja nas redes sociais ou na TV aberta, viram que havia apenas uma. Mesmo diante disso, o delegado não contestou a informação. É inacreditável”, disse.

Foto: Reprodução/Instagram
Alice, de 4 anos

Além disso, os pais relataram a ausência de apoio da escola à família. “Em nenhum momento nos foi oferecido algum apoio, sequer um copo d’água. Passamos por sepultamento, velório, missas, consultas e tratamentos psiquiátricos, do pai, da mãe e do Arthur, que presenciou a morte da irmã a apenas 40 centímetros do impacto do móvel. Não tivemos nenhum suporte da instituição, e tudo está sendo conduzido pela nossa família”, afirmou a mãe.

Por fim, Cláudio e Dayana reforçaram que continuarão cobrando transparência e rigor nas investigações. “Estamos tendo que tirar forças de onde não temos para que a memória da nossa filha não seja maculada. Não queremos que o caso seja tratado como mera estatística, como algo atípico. Queremos justiça, queremos que a verdade seja esclarecida e que outros pais não passem por isso”, concluiu o pai de Alice Brasil.

Entenda o caso

No dia 05 de agosto, a cidade de Teresina se comoveu após um acidente no Colégio CEV, que resultou na morte da pequena Alice Brasil, de apenas quatro anos. Ela foi atingida por uma penteadeira na brinquedoteca da instituição, e faleceu em decorrência de um traumatismo craniano.

Em nota, o Colégio CEV afirmou que uma criança estava sob o móvel, e ao se levantar, o mesmo acabou tombando e atingindo a menina. Alice tinha um irmão gêmeo, Artur Brasil, que presenciou a cena. Os dois comemoravam o aniversário de quatro anos na escola, quando aconteceu a tragédia.