Em apenas quatro meses, a Fundação Municipal de Saúde ( FMS ) de Teresina já repassou R$ 4,9 milhões à empresa Nutri Brasil Eireli , contratada sem licitação pela atual gestão municipal, comandada pelo prefeito Sílvio Mendes (União Brasil). Os pagamentos chamam atenção pelo volume acelerado de desembolso e pelo histórico da empresa, que chegou a ser processada pela própria FMS por descumprimento contratual.

O contrato, assinado no dia 30 de abril de 2025, tem valor global de R$ 14.880.262,20 (quatorze milhões, oitocentos e oitenta mil, duzentos e sessenta e dois reais e vinte centavos) e vigência de 12 meses. Em quatro meses, a empresa já recebeu R$ 4.980.817,33 (quatro milhões, novecentos e oitenta mil, oitocentos e dezessete reais e trinta e três centavos), o que representa cerca de 33% do total contratado. Veja o detalhamento de pagamentos à empresa disponível no Portal da Transparência clicando aqui .

Confira:

DATA VALOR DO PAGAMENTO
30/04/2025 R$ 204.938,09
28/05/2025 R$ 674.620,70
05/06/2025 R$ 648.538,40
01/07/2025 R$ 60.763,10
02/07/2025 R$ 80.569,60
04/07/2025 R$ 389.223,88
04/07/2025 R$ 609.533,76
08/07/2025 R$ 144.534,40
10/07/2025 R$ 1.353.818,05
29/07/2025 R$ 22.822,50
05/08/2025 R$ 138.233,60
Junho/2025 R$ 34.765,50
Junho/2025 R$ 114.377,85
Junho/2025 R$ 119.087,95
Junho/2025 R$ 170.519,20
Agosto/2025 R$ 43.363,60
Agosto/2025 R$ 171.107,15
TOTAL R$ 4.980.817,33

Recontratação mesmo após processo judicial

A Nutri Brasil, de propriedade do empresário Rubens da Silva Bezerra, já havia prestado o mesmo serviço na gestão anterior, do ex-prefeito Dr. Pessoa. O contrato anterior foi firmado por pregão eletrônico em julho de 2024, com valor de R$ 4.993.501,45, para o fornecimento de 325.523 refeições às unidades da rede hospitalar municipal.

Foto: GP1
Contrato da FMS na gestão de Dr. Pessoa

Durante a vigência desse contrato, a empresa foi acionada judicialmente pela própria FMS, após interrupção no fornecimento das refeições em duas ocasiões. Em dezembro de 2024, a assessoria jurídica da Fundação ingressou com pedido de liminar para obrigar a empresa a manter o serviço, o que foi acatado pela Justiça. Já em março de 2025, na gestão Sílvio Mendes, a FMS reforçou o pedido na Justiça, exigindo que a empresa se abstivesse de novas paralisações, sob pena de multa diária de R$ 100 mil.

Contrato sem licitação

Mesmo ciente do histórico judicial e com o contrato anterior ainda em vigor, a gestão de Sílvio Mendes, por meio do então presidente da FMS, Charles Silveira, optou por firmar um novo contrato com a mesma empresa, desta vez sem licitação, com valor quase três vezes maior que o anterior. O objeto do novo contrato permaneceu o mesmo: o fornecimento de refeições hospitalares, agora com quantidade ampliada, prevendo 940.248 refeições.

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Foto: Lucas Dias/GP1
Sílvio Mendes, prefeito de Teresina

As unidades atendidas continuaram sendo: Hospital Alberto Neto (Dirceu II), Hospital do Monte Castelo, Hospital e Maternidade do Promorar, UPA do Promorar, UPA do Satélite, UPA do Renascença e o SAMU.

Foto: GP1
Contrato da FMS na gestão de Sílvio Mendes

Questionamentos

A sequência de decisões administrativas – recontratar uma empresa judicializada, sem licitação e por valor três vezes maior – levanta sérios questionamentos sobre os critérios adotados pela FMS, sobretudo diante da rapidez com que os repasses foram efetuados a Nutri Brasil.

Outro lado

O GP1 procurou o prefeito Sílvio Mendes por três vezes para questioná-lo sobre as reportagens envolvendo a contratação, sem licitação, da empresa Nutri Brasil. Ao ser indagado sobre o fato de a empresa ter sido contratada mesmo com um contrato anterior ainda em vigor, o prefeito limitou-se a dizer: “procure a FMS”.

Já nessa quarta-feira (6), o prefeito foi novamente procurado, desta vez para comentar o fato de que a Nutri Brasil foi contratada mesmo após ter sido processada pela própria Fundação Municipal de Saúde (FMS). A resposta foi semelhante à anterior: “pedi que procurasse a FMS”.

Na terceira tentativa, a reportagem reiterou todas as perguntas anteriores e solicitou um posicionamento direto do gestor. A mensagem enviada foi a seguinte:

“Prefeito Sílvio Mendes, desde segunda-feira estamos noticiando o caso da contratação da Nutri Brasil, empresa contratada pela sua gestão por R$ 14,8 milhões, sem licitação. Além disso, essa contratação foi feita mesmo com um contrato anterior ainda em vigor. A situação se agrava pelo fato de que essa mesma empresa já foi processada pela própria Fundação Municipal de Saúde por descumprimento contratual. Até o momento, nenhum desses pontos foi esclarecido pelo senhor, que apenas nos direciona a falar com a FMS, que, por sua vez, deixa importantes lacunas sem resposta. Gostaríamos, portanto, de um posicionamento direto seu, tanto sobre os temas já mencionados quanto sobre a reportagem que será veiculada amanhã, a qual revela que a Nutri Brasil já recebeu mais de R$ 4 milhões em apenas quatro meses de contrato”.

Apesar da insistência, o prefeito ignorou a mensagem e não respondeu.

Já a FMS encaminhou a mesma nota de esclarecimento nas duas primeiras matérias publicadas sobre o caso. Nessa quarta-feira (6), comprometeu-se a enviar uma nova manifestação sobre os pagamentos feitos a empresa, o que não aconteceu até a publicação desta reportagem.