O evento de comemoração dos 50 anos do curso de Serviço Social da Universidade Federal do Piauí (UFPI) foi precedido por uma confusão entre estudantes e o músico Reginaldo de Freitas Martins, que foi chamado para fazer uma apresentação durante a solenidade realizada nessa terça-feira (16). Ao GP1 , as alunas afirmaram que foram agredidas verbalmente pelo homem e procuraram a Casa da Mulher Brasileira em Teresina nesta quarta-feira (18) para denunciar o ocorrido. A identidade das vítimas será preservada.

Uma das alunas afirmou que a confusão teve início quando Reginaldo de Freitas se preparava para iniciar uma apresentação e ficou insatisfeito em dividir o espaço com as estudantes, que também iriam fazer uma performance. O homem, que também é assistente social, começou a reclamar no local, e uma das vítimas resolveu com uma das mulheres, momento em que uma das alunas resolveu intervir.

Foto: Reprodução/Instagram
Reginaldo de Freitas Martins

“Nós iríamos prestar uma homenagem aos professores, e ele também queria cantar uma música, mas desde o momento que ele chegou, ele foi super arrogante, começou a gritar com uma das nossas colegas. Enquanto ele gritava, tocava nela e falava que ‘era artista há mais de 40 anos e era um absurdo ele estar ali dividindo o espaço com a gente’. Quando eu cheguei, fu perguntar o que estava acontecendo, e nesse momento ele botou a mão no meu pescoço e fez gesto para me dar um abraço, e eu recusei, falei: ‘não toque em mim, eu não lhe conheço e não lhe dou permissão para tocar em mim’”, relatou a vítima.

Em vídeo encaminhado à reportagem, é possível ver que o homem aparece exaltado e direciona ofensas à jovem. “Não pode tocar na belezura, sai para lá. Eu detesto gente intransigente [...], como você vai conversar com a pessoa e não pode tocar na pessoa? Isso é uma loucura [...]. Eu tiro meus dois olhos com uma faca de mesa se alguém disser que eu estou errado, não é possível [...]. É uma vergonha, era para estar em um hospício”, esbravejou Reginaldo de Freitas.

Outra estudante do 3º período do curso de Serviço Social afirmou que as alunas se retiraram do auditório onde iria ocorrer a apresentação e se direcionaram à direção do Centro de Ciências Humanas e Letras (CCHL) da instituição. Ela afirmou que, ao chegar lá, o músico também passou a ofender uma funcionária terceirizada, e que ninguém da universidade o conteve durante as agressões.

Sem anúncio no momento

“Ele estava na secretaria gritando com a funcionária e depois nos corredores do CCHL que ‘gostaria de conversar alguém que trabalhasse de verdade, que fosse competente de verdade’. Ao ser confrontado pela vice-diretora do CCHL, ele ainda levantou a voz para ela, mas quando ela se apresentou como vice-diretora, ele abaixou o tom de voz. Nós, estudantes, nos sentimos desvalorizadas, nem conseguimos nos apresentar. Enquanto ele foi, se apresentou e foi aplaudido por todo mundo. A principal revolta é que, mesmo após tudo isso, ele continuou lá, ninguém pediu desculpas pelo que aconteceu com a gente. Como um ser humano desse se sente confortável em entrar na UFPI e gritar, intimidar e tocar mulheres, e os seguranças ficam parados?”, indagou a moça.

O caso foi registrado junto à Polícia Civil do Piauí no âmbito do § 1º do Art. 121-A (art. 140 c/c art. 141, § 3º do CPB, que trata do crime de injuriar mulher por razões da condição do sexo feminino, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro.

Outro lado

Procurada pelo GP1 , a assessoria da Universidade Federal do Piauí (UFPI) encaminhou nota assinada pela Direção do Centro de Ciências Humanas e Letras (CCHL/UFPI), pelo Departamento de Serviço Social (DSS/UFPI) e Coordenação do Curso de Serviço Social (CCSS/UFPI) em apoio às estudantes, docentes e outros servidores vítimas de desrespeito, de assédio e de violência por parte do músico, a quem a instituição definiu como “estranho”.

Foto: Lucas Dias/GP1
Universidade Federal do Piauí, UFPI

Na nota, é pontuado que foram adotadas medidas para acolhimento das vítimas, responsabilização do acusado e prevenção de novas situações semelhantes. Por fim, também é comunicado que a Administração Superior da UFPI acompanha o caso.

Confira a nota na íntegra

NOTA DE SOLIDARIEDADE E PROVIDÊNCIAS INSTITUCIONAIS

O Centro de Ciências Humanas e Letras (CCHL), o Departamento de Serviço Social (DSS) e a Coordenação do Curso de Serviço Social (CCSS) da Universidade Federal do Piauí (UFPI) manifestam sua solidariedade as estudantes, às docentes, à técnico-administrativa e à trabalhadora terceirizada que foram vítimas de desrespeito, de assédio, de violência, por parte de indivíduo estranho à UFPI e ao CCHL, em ocorrência registrada no dia 17 de março de 2026.

A Direção do CCHL, o DSS e a CCSS repudiam, de forma veemente, quaisquer formas de desrespeito, violência ou assédio e reafirmam seu compromisso institucional com a promoção de um ambiente acadêmico seguro, pautado na dignidade da pessoa humana, na equidade de gênero e no respeito à comunidade universitária.

Desde a ciência dos fatos, foram adotadas medidas institucionais articuladas entre o Departamento de Serviço Social (DSS), a Coordenação do Curso de Serviço Social (CCSS) e a Administração Superior da UFPI, com foco no acolhimento das vítimas, na responsabilização e na prevenção de novas ocorrências.

No âmbito das ações realizadas, destacam-se:

* O acionamento da Sala Lilás, para fins de acolhimento especializado e orientação quanto aos encaminhamentos legais e institucionais cabíveis;

* O direcionamento das vítimas à Casa da Mulher Brasileira, para fins de acolhimento, registro de Boletim de Ocorrência e adoção de outras medidas cabíveis

* A comunicação formal à empresa terceirizada responsável, com a finalidade de assegurar o suporte e acompanhamento psicológico à trabalhadora terceirizada envolvida;

* O reforço das ações institucionais relacionadas à segurança no âmbito do CCHL, em articulação com os setores competentes da UFPI;

* A promoção de diálogo com a comunidade acadêmica (inclusive na data de hoje no CCHL - 18 de março), com vistas ao enfrentamento das violências de gênero no ambiente universitário, fortalecendo estratégias de prevenção, conscientização e proteção.

A Administração Superior da UFPI foi devidamente cientificada e acompanha o caso, garantindo o suporte institucional necessário e a adoção das providências cabíveis.

0 CCHL, o DSS e a CCSS reafirmam sua solidariedade e apoio às vítimas e reiteram seu compromisso com a construção de um ambiente universitário livre de violências, no qual todas as pessoas possam exercer plenamente seus direitos com segurança e respeito.

Teresina, 18 de março de 2026.

Direção do Centro de Ciências Humanas e Letras (CCHL/UFPI)

Departamento de Serviço Social (DSS/UFPI)

Coordenação do Curso de Serviço Social (CCSS/UFPI)

Músico foi indiciado por homicídio

O músico Reginaldo de Freitas Martins foi indiciado pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) pelo sequestro e assassinato do adolescente Carlos Alexandre Pereira de Sousa, de 14 anos, ocorrido em Teresina. O jovem desapareceu em 26 de maio de 2025 na Vila da Guia, e segundo testemunhas, foi abordado por criminosos em via pública, e em seguida foi colocado dentro do carro.

Cerca de dez dias depois, o corpo dele foi encontrado em avançado estado de decomposição no povoado Torrões, zona sul da capital. Ele foi morto com um disparo de arma de fogo na cabeça.

Foto: GP1
Trecho do relatório de missão policial indicou envolvimento de Reginaldo de Freitas

Usuário de drogas, Reginaldo de Freitas tinha o costume de deixar o próprio carro “penhorado” na boca de fumo para pagamento de dívidas ou para comprar mais entorpecentes. Ele tinha ciência de que o veículo era utilizado em práticas criminosas, inclusive no sequestro e assassinato de Carlos Alexandre.