Instalada em um prédio de arquitetura modernista no centro de Brasília, a Faculdade Republicana oferece cursos de bacharelado em Direito e Ciência Política, além de 12 programas de pós-graduação na modalidade de ensino a distância (EAD), com foco em áreas como gestão pública, segurança e política criminal. A instituição também mantém um MBA em Gestão da Tecnologia da Informação.
À primeira vista, poderia ser apenas mais uma faculdade privada do país. O diferencial, no entanto, é que a Republicana é a primeira — e até hoje única — instituição de ensino superior credenciada pelo Ministério da Educação (MEC) criada e mantida por uma fundação vinculada a um partido político. A mantenedora é a Fundação Republicana, ligada ao partido Republicanos, sigla que reúne nomes como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta.
Atualmente, a Faculdade Republicana tem 253 alunos matriculados nos cursos de graduação e cerca de 140 nos programas de pós-graduação. Desde o início das atividades, em 2019, aproximadamente 700 estudantes já passaram pela instituição.
Em sua apresentação institucional, a faculdade afirma defender valores “centrados em manter e aprimorar o desenvolvimento da democracia brasileira”. Segundo o texto, o objetivo é contribuir para “uma ordem política ética, liberal, pluralista e conectada às prioridades das pessoas”, garantindo que elas vivam de forma “digna e livre”.
A missão declarada da instituição é promover um alto padrão de formação para atuação tanto na administração pública quanto na iniciativa privada, em áreas como funções públicas, assessorias, processos eleitorais, movimentos sociais e comunicação.
Na avaliação mais recente do MEC, realizada em 2022, a Faculdade Republicana recebeu nota 3 no Conceito Institucional, em uma escala que vai de 1 a 5. O curso de Direito obteve nota 4, enquanto o de Ciência Política recebeu conceito 3 no formato presencial e 4 no EAD. Já o curso tecnólogo de Gestão Pública alcançou nota máxima: 5.
Financiamento e Fundo Partidário
A legislação brasileira permite que partidos políticos mantenham instituições de ensino superior. A Lei nº 9.096, de 1995, que regula o Fundo Especial de Assistência Financeira aos Partidos Políticos — o Fundo Partidário —, autoriza a destinação de recursos para despesas administrativas e para atividades educacionais.
Pela norma, ao menos 20% do fundo deve ser repassado a uma fundação criada e administrada pelo partido, com aplicação obrigatória em educação política e formação de quadros. Em 2025, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 19 partidos receberam mais de R$ 1 bilhão em recursos públicos. O Republicanos foi a quarta legenda mais contemplada, com R$ 87,7 milhões.
Para o cientista político Leonardo Paz, professor de Relações Internacionais do Ibmec-RJ, o modelo brasileiro segue experiências internacionais. “Na Alemanha, por exemplo, partidos mantêm fundações muito ativas, inclusive com atuação fora do país. Quase todos os grandes partidos alemães têm fundações com escritórios no Brasil”, afirma.
Segundo ele, a atuação educacional dos partidos faz sentido do ponto de vista democrático. “O partido não deveria se ocupar apenas da vida eleitoral, mas também difundir cultura democrática. As fundações costumam oferecer cursos para jovens interessados em política, algo que não é ensinado no ensino básico”, diz.
Paz pondera, no entanto, que a criação de faculdades formais por fundações partidárias é incomum, inclusive no exterior. “Uma faculdade é um mecanismo mais pesado de educação. Naturalmente, sofre influência do partido, ainda que isso se reflita apenas na definição das linhas de estudo. Por outro lado, uma instituição ligada a um partido, oferecendo cursos como Direito, é uma ferramenta relevante de formação de quadros políticos.”
Origem e proposta acadêmica
O processo de credenciamento da Faculdade Republicana começou em 2013 e foi concluído em 2018. As aulas tiveram início no ano seguinte, com a abertura do curso de Ciência Política.
Diretor-geral da instituição desde 2020, Valdir Pucci afirma que a faculdade surgiu a partir da experiência prévia da Fundação Republicana na oferta de cursos de formação. “Já havíamos capacitado milhares de pessoas. A faculdade foi criada para dar mais relevância acadêmica aos diplomas e contribuir para a qualificação do serviço público, que sofre com a falta de profissionais bem formados”, diz.
Segundo Pucci, a proposta pedagógica busca equilibrar teoria e prática. “Quando entregamos um diploma de graduação ou pós-graduação, não fazemos formação política. Qualificamos a pessoa para o mercado de trabalho. Por isso, os cursos são muito práticos e conectados à realidade profissional”, afirma.
Questionado sobre a influência do partido na instituição, Pucci nega qualquer viés doutrinário. “Não queremos e não podemos ser uma faculdade de nicho. Incentivamos o pensamento crítico e a produção de conhecimento. O perfil de alunos e docentes é amplo, e o objetivo não é doutrinar, mas buscar conhecimento”, afirma.
Graduado em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB) e em Direito pelo Centro Universitário Euro-Americano (Unieuro), Pucci é mestre em Ciência Política pela UnB e doutor em Direito Constitucional pelo Centro Universitário de Brasília (CEUB).
De acordo com ele, o corpo docente reúne juízes, procuradores e cientistas políticos. “São profissionais que unem a academia à prática”, diz. Não há restrições a filiados de outros partidos nem preferência para membros do Republicanos. “É natural que integrantes da sigla procurem nossos cursos, mas olhamos muito além disso. Crescemos de forma orgânica, com foco na qualidade e no acesso financeiro, já que somos uma instituição sem fins lucrativos.”