A Polícia Civil do Piauí solicitou à Justiça a prisão temporária de todos os investigados na Operação Carbono Oculto 86 , deflagrada para apurar um suposto esquema de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio ligado ao Primeiro Comando da Capital ( PCC ). No entanto, o pedido foi negado pelo Judiciário, que considerou suficientes medidas cautelares diversas da prisão para dar continuidade ao andamento das investigações.
Segundo a Polícia Civil, o inquérito policial instaurado em 2025 aponta a existência de uma estrutura empresarial complexa e estável, voltada à lavagem de capitais e à blindagem patrimonial, utilizando uma rede de postos de combustíveis nos estados do Piauí e Maranhão e Tocantins.
Entre os investigados, alvos de pedido de prisão temporária estão Haran Santhiago Girão Sampaio , Danillo Coelho de Sousa , Moisés Eduardo Soares Pereira , Salatiel Soido de Araújo , Denis Alexandre Jotesso Villani e João Revoredo Mendes Cabral Filho , apontados como responsáveis por diferentes núcleos de atuação no esquema.
Segundo o relatório policial, ao qual o GP1 obteve acesso, Haran e Danillo exerceriam papel central na estrutura criminosa, comandando a expansão e o gerenciamento econômico da rede de postos originalmente conhecida como Postos HD. Mesmo após modificações contratuais que indicaram a saída formal dos dois empresários do grupo, a polícia afirma que eles mantiveram o controle efetivo das empresas.
“A investigação revelou a permanência de familiares próximos e de prepostos nos quadros societários, além da continuidade de decisões comerciais e demonstrações públicas de posse incompatíveis com as transferências declaradas”, aponta a investigação.
O documento ao qual o GP1 obteve acesso também cita que, a partir de 2023, houve uma transferência sistemática da titularidade de 32 empresas para a Pima Energia Participações Ltda., cujo sócio formal, Moisés Eduardo Soares Pereira, seria apenas um interposto “laranja”, sem capacidade financeira para justificar o controle do conglomerado.
Outro investigado, Salatiel Soido de Araújo, aparece como único sócio da Mind Energy Participações Ltda., empresa que teria recebido 14 companhias ligadas à rede de combustíveis. Segundo a investigação, Salatiel também não possui lastro econômico compatível com o porte do grupo e teria sido usado para “pulverizar artificialmente” a propriedade das empresas.
Já Denis Alexandre Jotesso Villani seria responsável pela rede Postos Diamante, composta por pelo menos 40 empresas, incluindo unidades registradas no Piauí e Maranhão. A Polícia Civil aponta que Denis movimentou mais de R$ 700 mil em transações suspeitas e mantinha comunicação direta com Haran Sampaio, operando como articulador financeiro da estrutura de lavagem de capitais.
O inquérito ainda traz João Revoredo Mendes Cabral Filho, identificado como controlador da Moura & Moura Serviços Ltda. (TT Serviços Ltda.), empresa que teria realizado remessas vultosas para a Pima Energia Participações Ltda. e para a HD Petróleo Ltda., reforçando sua ligação com o núcleo central do esquema.
A Polícia Civil sustenta que a estrutura investigada mantém vínculos operacionais e financeiros com o PCC, integrando uma rede de negócios usada para reintroduzir valores ilícitos no sistema formal. A lavagem de dinheiro ocorreria por meio de postos de combustíveis, setor que permite grande volume de transações em espécie e manipulação contábil.
Justiça negou prisão temporária
Apesar das evidências apresentadas, a Justiça indeferiu o pedido de prisão temporária feito pela Polícia Civil. A decisão baseou-se em recente entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF), que endureceu os requisitos para a decretação desse tipo de prisão, conforme as Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs) 3360 e 4109.
Segundo o magistrado responsável pelo caso, as prisões não são imprescindíveis neste momento, e medidas cautelares alternativas, como restrições financeiras e monitoramento patrimonial, são suficientes para garantir o andamento das investigações.
“A decretação da prisão temporária dos investigados revela-se, neste momento, prescindível. As demais medidas pleiteadas são suficientes para assegurar a preservação das provas e impedir manobras de ocultação patrimonial”, destacou o magistrado.
Ministério Público diz que vai recorrer
O Ministério Público informou que pretende pedir reconsideração da decisão judicial, alegando que a liberdade dos investigados pode prejudicar a coleta de novas provas e permitir manobras de dissimulação patrimonial.
A Operação Carbono Oculto 86 é uma das maiores ações recentes de combate à lavagem de dinheiro e ao braço financeiro do PCC no Nordeste, com bloqueio judicial de mais de R$ 348 milhões em contas e bens de pessoas e empresas ligadas ao esquema.