A posse de Rodrigo Paz marcou a primeira grande ruptura política da Bolívia em quase vinte anos. Eleito fora do eixo do Movimento ao Socialismo (MAS), o novo presidente colocou em prática um pacote de reformas voltado a desmontar estruturas herdadas de gestões anteriores e a recuperar a economia nacional. As ações iniciais incluem eliminação de impostos criados pelo MAS, redução planejada de 30% do gasto público até 2026 e revisão integral do orçamento em análise no Parlamento.
A agenda econômica veio acompanhada de mudanças administrativas. Paz extinguiu o Ministério da Justiça, acusando os governos de Evo Morales e Luis Arce de utilizarem a pasta para perseguir opositores. Auditorias determinadas pelo novo governo também apontaram desvios que, segundo o presidente, somam mais de 15 bilhões de dólares em vinte anos, incluindo contratos na área de defesa e irregularidades na estatal YPFB e na Agência Nacional de Hidrocarbonetos. O diagnóstico oficial é de que o país enfrenta a pior crise econômica em quatro décadas, com reservas em níveis críticos e quadro de desabastecimento de combustíveis.
Para reestruturar o Estado, o governo anunciou uma revisão completa do sistema judicial, defendendo independência institucional e digitalização de todos os processos para reduzir interferências políticas. No campo externo, a gestão Paz promoveu o maior realinhamento diplomático desde 2006. O chanceler Fernando Aramayo informou o afastamento das alianças políticas com Cuba, Venezuela e Nicarágua e o restabelecimento pleno das relações com os Estados Unidos, além da eliminação de visto para americanos e da retomada de negociações sobre a cooperação antidrogas.
As medidas representam a guinada mais profunda desde a ascensão do MAS ao poder. Com cortes de gastos, revisão administrativa e aproximação com potências ocidentais, o governo de centro-direita tenta reposicionar a Bolívia e reverter os efeitos acumulados de quase duas décadas de políticas estatizantes, enquanto negocia mais de 9 bilhões de dólares em financiamentos externos para estabilizar a economia.