No cargo há pouco mais de três meses, a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT), ainda não conseguiu consolidar sua liderança na articulação política do Governo Lula. Substituta de Alexandre Padilha , que foi deslocado para o Ministério da Saúde após desgaste com o Congresso, Gleisi assumiu com a missão de reconstruir pontes com o Legislativo, mas tem enfrentado dificuldades para conter derrotas e descontentamentos dentro da própria base aliada.
O revés mais simbólico até aqui ocorreu na votação da urgência para derrubar o aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). Apesar do apoio do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a base governista foi fragorosamente derrotada: 346 votos favoráveis à urgência e, em seguida, 383 votos contra o mérito da proposta. A leitura entre líderes partidários foi clara: a liberação lenta de emendas e a falta de coordenação nos bastidores fragilizaram a condução da pauta econômica.
CPMI do INSS e fissura na base
Outro ponto de desgaste político foi a instalação da CPMI do INSS, que apura denúncias de descontos indevidos nas aposentadorias. A orientação inicial do Planalto era barrar a comissão, mas a pressão popular e a repercussão midiática tornaram o tema incontornável. Mesmo dentro do PT, nomes como o senador Fabiano Contarato (ES) romperam com a linha oficial e aderiram ao requerimento, o que evidenciou falta de controle até mesmo entre parlamentares governistas.
A criação oficial da CPMI, no dia 17 de junho, lida como uma derrota silenciosa da articulação, provocou desdobramentos imediatos. O PDT, partido até então integrante da base, anunciou seu afastamento após a demissão do então ministro da Previdência, Carlos Lupi, episódio que também fragilizou ainda mais a coalizão governista no Congresso.
Cenário político e risco de isolamento
A permanência de Gleisi à frente da articulação está sendo observada com cautela por integrantes do próprio PT, especialmente porque a ministra também ocupa a presidência nacional do partido. O acúmulo de funções, somado à condução considerada centralizadora e pouco dialogada, tem provocado desconforto entre lideranças da Câmara e do Senado-onde o governo ainda encontra dificuldades para formar maioria sólida.
A avaliação, nos bastidores, é de que o Planalto ainda não encontrou o tom certo para construir uma base de apoio estável e ativa, num cenário fragmentado, com lideranças regionais pressionando por entregas e agendas locais.
Caso não haja reequilíbrio na articulação até o segundo semestre, cresce o risco de o governo enfrentar novas derrotas estratégicas em temas de impacto fiscal e institucional.