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Política

Pós-Lula aflige velha guarda do PT e projeta risco do fim do partido

Esse receio começou a ser verbalizada publicamente por meio do ex-presidente do PT, José Dirceu.

O receio que afligia a velha guarda do Partido dos Trabalhadores quanto a perspectiva de que o partido não conseguirá sobreviver após a saída do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) do cenário eleitoral, começou a ser verbalizada publicamente por meio do ex-presidente do PT, José Dirceu, que já foi o mais poderoso ministro dos governos petistas. Conforme a Gazeta do Povo, em recente debate em São Paulo, Dirceu verbalizou: “não quero nem pensar no pós-Lula”.

A fala dele foi em virtude do sério problema de renovação de lideranças do PT. José Dirceu recordou sua geração, na qual se encontra Lula e outros como o deputado Rui Falcão e o ex-governador Tarso Genro (RS), já está na casa dos 80 anos ou próxima de entrar nela. “Temos um sério problema de relevo, como diriam os cubanos”, afirmou o ex-presidente do PT.

Ele destacou que os correligionários precisam ter consciência dessa realidade, começando pelo próprio presidente da República que, conforme Dirceu, “deve ser o primeiro a se preocupar com isso”. Ao longo das sete campanhas presidenciais das quais participou, vencendo três, e de outras três que foi o maior cabo eleitoral de outros candidatos do PT, conquistando duas, o presidente Lula cometeu o erro central de não organizar adequadamente a sua própria fila sucessória. Além disso, outros fatores também interferiram nesse processo de preparação de novas gerações, começando pelo excesso de centralismo na figura do próprio presidente.

Foto: Marcelo Cardoso/GP1Lula
Lula

Figuras com potencial como o próprio José Dirceu, que se encontrou no maior impacto do escândalo do ensalão, e o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, que tropeçou em seu próprio escândalo após sua bem-sucedida passagem pela pasta da Fazenda, frustraram sucessores com os quais Lula se revezaria.


Outros escândalos minaram vários nomes o que acabou deixando Lula protegido em seu potencial de voto. Luiz Inácio Lula da Silva preferiu fabricar candidaturas tuteladas, como foi o caso da ex-presidente Dilma Rousseff. No entanto, foi frustrado pelos erros inesperados e catastróficos da mandatária na gestão da economia, sem mencionar a inabilidade política que marcou o mandato de sua escolhida.

Com esse emaranhado de resultados indesejados, restou a figura próxima: Fernando Haddad, ex-ministro da Educação e atual ministro da Fazenda, que se revela uma opção muito moderada para novas investidas. Ainda hoje, ele é o nome disponível para a tarefa de disputar a Presidência numa indisponibilidade de Lula.

Lulismo superior a petismo, consagra dependência a Lula

Desde que foi fundado em 1980, o Partido dos Trabalhadores sempre viu Lula como figura central. Quarenta anos depois, o PT segue dependente do líder, agora com 78 anos. Esta dependência levou ao não desenvolvimento de outros candidatos petistas “naturais” no plano nacional, que vão fazer falta para a sigla, sobretudo quando o presidente estiver fora do jogo eleitoral.

O apoio à figura de Lula superou a adesão ao PT junto ao eleitorado, consagrando um lulismo mais forte que o petismo e fomentando crescente sentimento antipetista, intensificado por eventos como o escândalo do mensalão, as manifestações de rua em 2013, o impeachment de Dilma Rousseff e a Operação Lava Jato. Todo isso favorece uma tensão interna, expressada na briga pela sucessão da deputada Gleisi Hoffmann (PR) na presidência da legenda em 2025, com a velha guarda apoiando o prefeito de Araraquara (SP), Edinho Silva, e os grupos mais à esquerda preferindo José Guimarães (CE), líder da bancada na Câmara.

Paulo Kramer, cientista político e consultor eleitoral, disse que o PT preferiu não se converter à social-democracia, seguindo modelo no qual a cúpula partidária define quem entra ou fica de fora do poder, a exemplo dos regimes de partido único, como Cuba, China e a antiga União Soviética.

De acordo com ele, também há semelhança com a hegemonia do Partido Revolucionário Institucional (PRI), que governou o México de 1929 a 2000. “Os mexicanos, ao menos, institucionalizaram sua ditadura perfeita, evitando crises sucessórias. Nela, o presidente apontava o sucessor para o mandato de seis anos, após o qual o ex-presidente se retirava da vida pública”, disse. Para o cientista político Antônio Flávio Testa, o fato de Lula ter se lançado como candidato à reeleição mostra que o presidente sabe que não tem um sucessor de peso no PT.

“Seu narcisismo o impediu de deixar um legado respeitável. A cada dia, ele desconstrói sua imagem e credibilidade, continuando no poder porque cooptou o Judiciário e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), a um preço alto. Não sei se sobreviverá politicamente competitivo após as eleições municipais”, apostou Testa.

Envelhecimento da bancada do PT na Câmara contrasta com a juventude do PL

O PT vê sua representação na Câmara Federal envelhecer paulatinamente após 40 anos de atividade. Com 68 deputados, a bancada do partido tem idade média de 56 anos, perdendo só para o PCdoB, com média de 59,5. Esse perfil etário pode ser observado no comparativo desta legislatura, a 57ª, com as duas anteriores.

O Partido dos Trabalhadores saltou de 52 anos médios para 56. Na outra ponta, o rival Partido Liberal, do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, registrou rejuvenescimento, saindo de uma média de 51 anos para os atuais 49 anos, isso devido não apenas à eleição da maior bancada da Casa, mas ao grande número de estreantes no Congresso Nacional.

A situação do PT vai na contramão do que foi registrado em 1983, ano em que a sigla elegeu suas principais lideranças na época, como Lula, que tinha 37 anos; Eduardo Suplicy, 41; e José Genoíno, 36 anos. Apesar de pequeno, o partido era visto como a principal aposta da esquerda no processo de redemocratização.

Em 2001, o PT atraía jovens em início de carreira política, como ocorreu com o deputado federal Lindberg Farias (PT-RJ). Protagonista do movimento Caras-Pintadas, que contribuiu para o impeachment do ex-presidente da República Fernando Collor (1992), o jovem deputado federal saiu do PSTU e passou a integrar a sigla petista.

Desconexão do PT com os jovens impede renovação dos parlamentares

O envelhecimento de um partido que foi referência para os jovens na década de 1980 desperta curiosidade. Hoje, o PT tem quase 20 mil filiados jovens, de 16 a 24 anos. Para analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, o centralismo petista na figura de Lula pode ser uma das principais causas da difícil renovação da legenda.

“Partidos de esquerda, de modo geral, costumam adotar organização interna muito centrada em um líder carismático. Essa dinâmica dificulta o surgimento de novas lideranças”, explicou o cientista político Elton Gomes, professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Ao analisar a idade média das bancadas na Câmara, Elton também disse que o PSOL destoa do campo progressista ao adotar estratégia que corresponde mais às demandas da sociedade atual, como a participação massiva nas redes sociais e uma comunicação de apelo jovem.

“O PSOL aparece justamente como a esquerda que se modernizou. Do ponto de vista das pautas defendidas, não é mais aquela esquerda trabalhista. É uma esquerda identitária, que leva em consideração fatores de raça e gênero, elementos mais socioculturais. Além disso, o partido abraçou a tecnologia”, comentou.

Escândalos de corrupção e recessão dos anos Dilma afetaram a renovação

O protagonismo do PT nos escândalos do Mensalão e no Petrolão também pode explicar os motivos pelos quais o partido deixou de renovar seus quadros. Em ambos os escândalos de corrupção e lavagem de dinheiro, Lula, a ex-presidente Dilma Rousseff e demais nomes importantes da legenda foram alvo das denúncias. O “Quadrilhão do PT” foi outro exemplo.

Conforme apontado pela Operação Lava Jato, em 2017, Antonio Palocci Filho, Guido Mantega, Edinho Silva, Paulo Bernardo, Gleisi Hoffmann, e João Vaccari Neto teriam arrecadado R$ 1,5 bilhão em propina por meio de contratos de entes públicos como Petrobras e BNDES. Mesmo absolvidos pela Justiça no ano de 2019, o desgaste foi invitável.

Na avaliação do cientista político Antônio Henrique Lucena, professor da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), os escândalos acabaram afastando a juventude do partido. “Desde a exposição da corrupção, a nova geração da época, que hoje deve ter por volta dos 30 anos, passou a não se identificar com petista. Existem os jovens que se identificam com a esquerda, mas que não são aliados propriamente do PT e aí tivemos uma migração para outros partidos mais tradicionais”, observou Lucena.

PT registra queda no crescimento em meio à perda de popularidade de Lula

O envelhecimento do PT também aparenta ter reflexos no número de filiações nos últimos meses. Em maio de 2023, o partido tinha 1.623.546 registrados no sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Já em maio deste ano, o número subiu para 1.652.014 - um crescimento de 1,75%.

Por outro lado, o PL viu o número de filiados subir 16,2% no mesmo período, de 770.288 para 895.794 filiados. Segundo analistas, o baixo crescimento petista pode ser reflexo da queda de popularidade de Lula nos últimos meses.

PoderData

De acordo com levantamento publicado pelo PoderData em 29 de maio, o presidente Lula é desaprovado por 47% e aprovado por 45% dos eleitores. Desde a posse, o petista viu sua aprovação cair sete pontos percentuais, de 52% para 45%; e a desaprovação subir 8 pontos percentuais, saindo de 39% para 47%.

Metodologia: Os dados foram coletados de 25 a 27 de maio de 2024, por meio de ligações para celulares e telefones fixos. Foram realizadas 2.500 entrevistas em 211 municípios nas 27 unidades da Federação. A margem de erro é de 2 pontos percentuais. O intervalo de confiança é de 95%.

A atual queda de popularidade de Lula em si não significa necessariamente o fim da carreira do líder maior do petismo. Mas quando ele abandonar a vida pública, provavelmente o "reinado" que construiu também vai virar somente história.

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