A recente inquietação do MDB na base aliada de Rafael Fonteles revela algo mais profundo do que simples ciúmes partidários: é o prenúncio de que o centro de gravidade do governo começa a se deslocar. O líder João Mádison vocalizou o que muitos cochicham nos corredores da Alepi, o PT estaria crescendo demais, com apetite de quem não se contenta em ser o comando do governo, mas quer também dominar a tropa.
Mádison fala em “equilíbrio na aliança”, mas o termo, no dicionário político piauiense, costuma significar “não nos deixem sem mandato”. O MDB, acostumado a ser o fiador das coalizões, agora se vê espremido entre um PT em expansão e um PSD que joga com cálculo de engenheiro: quer dividir o poder sem se desgastar. Por trás da aparência de harmonia, há uma disputa por território e o território, neste caso, são as chapas proporcionais de 2026.
A fala de Marcelo Castro , sempre ponderada, soa como um pedido de moderação aos parceiros, mas também como um aviso velado ao Palácio de Karnak: o MDB é aliado, não satélite. Castro sabe que o PT aprendeu a fazer política com hegemonia e disciplina, mas o MDB ainda prefere a velha arte do equilíbrio, aquela que garante espaço em qualquer governo, de qualquer cor. O problema é que o equilíbrio nem sempre resiste à força gravitacional do poder.
Júlio César , com a serenidade de quem conhece os bastidores do governo desde tempos de Wellington Dias, também prega o mesmo equilíbrio. Mas o PSD, pragmaticamente, só quer manter seu quinhão sob o guarda-chuva do governador. Fala em união, mas age com instinto de sobrevivência. No fundo, todos querem o mesmo: sair grandes de 2026, de preferência com o PT puxando votos, mas sem deixar que o PT leve o prêmio sozinho.
No Piauí, alianças governistas sempre foram construídas sobre fios finos: de um lado, a necessidade de coesão; de outro, o temor da absorção. Rafael Fonteles, ainda em fase de consolidação de liderança, vai precisar aprender rápido a lição que Marcelo Castro já domina de sobra a de que, em política, aliados satisfeitos valem mais do que aliados controlados. O problema é que, entre o desejo de hegemonia do PT e o instinto de sobrevivência do MDB e do PSD, o equilíbrio pode ser só uma palavra bonita para um acordo que já começa a ranger.
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1