A manutenção do veto do presidente Lula ao projeto que criava novas vagas na Câmara dos Deputados produziu um efeito imediato no tabuleiro piauiense. Com a certeza de que o Piauí continuará limitado a oito cadeiras federais e 24 na Assembleia Legislativa, os partidos já se movimentam em torno de uma equação delicada: como disputar espaço num quadro em que cada voto pesa mais e o risco de dispersão pode custar caro à base aliada do Palácio de Karnak.
Nos bastidores, cresce a percepção de que 2026 será um teste de sobrevivência para as pequenas legendas. A lógica das “sobras” eleitorais, que tende a favorecer quem alcançar melhor desempenho, pode empurrar candidaturas isoladas para chapas menos robustas, abrindo a possibilidade de que votos preciosos sejam desperdiçados. É justamente esse cenário que preocupa o núcleo duro do governador Rafael Fonteles (PT).
A estratégia esboçada por Fonteles ecoa a fórmula que Wellington Dias, em 2022, aplicou com êxito: concentrar forças em poucas siglas de peso, evitando aventuras eleitorais. O cálculo é pragmático. Se, em 2022, o quociente para uma vaga federal girou em torno de 195 mil votos, só PT, PSD e Progressistas mostraram musculatura suficiente para atingir a meta. A leitura, portanto, é clara: pulverizar candidaturas em partidos menores é abrir flanco para que a oposição cresça ou, no mínimo, reduza a margem de hegemonia governista.
Nesse tabuleiro, a meta é ousada, mas não escondida. O PT projeta ocupar cinco das oito cadeiras federais, o PSD mira quatro, e juntos buscam garantir 15 assentos na Assembleia. O MDB, por sua vez, negocia o papel de protagonista nas candidaturas estaduais, reforçando sua presença na Alepi sem, necessariamente, entrar em rota de colisão com os dois gigantes da base.
Há, contudo, uma linha tênue entre a disciplina partidária e o ressentimento das siglas menores. Ao limitar o jogo a PT, PSD e MDB, o governo corre o risco de gerar insatisfações em aliados que, embora fragilizados eleitoralmente, ainda detêm certo valor político regional. É nessa costura fina, típica da política piauiense, que Rafael Fonteles terá de demonstrar habilidade: manter a coesão sem sufocar as pretensões locais.
A lição, no fim das contas, é que eleições não se ganham apenas no voto, mas na matemática da articulação. Se o projeto for seguido à risca, a base governista tende a maximizar resultados e reduzir perdas. Mas, como todo cálculo político, há sempre a variável imponderável: a resistência dos que não se veem contemplados e podem, por conveniência ou ressentimento, decidir abrir caminhos alternativos.
Em política, como se sabe, o que parece arrumado hoje pode desmanchar-se no compasso das negociações de amanhã.
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1