A recente reportagem de Ronaldo Lemos, publicada na Folha de S.Paulo , trouxe à tona um fenômeno que há muito se espalha pelas redes sociais, mas que poucos admitem em voz alta: a compra de seguidores falsos, vendida a preços irrisórios por pacotes que imitam engajamento, relevância e influência. A matéria mostra como, por poucos reais, é possível adquirir curtidas, comentários e sensação de reconhecimento instantâneo, tudo sem lastro humano.

O ponto central não está apenas nos valores financeiros revelados por Lemos. O problema é o impacto simbólico, estrutural e político desse mercado. Ao transformar influência em mercadoria barata, cria-se uma lógica de autoengano coletivo, especialmente quando esse artifício é usado por atores políticos, cuja credibilidade deveria ser o principal patrimônio.

O autoengano começa na tela, mas termina no debate público. Perfis impulsionados por robôs não representam pessoas, não expressam demandas sociais e não constroem comunidade. Funcionam, na prática, como uma máscara digital. E o político que se esconde por trás de números comprados não está apenas enganando os outros, está enganando a si mesmo. Acredita que a aparência de popularidade substitui a legitimidade da conexão real.

Essa ilusão cobra seu preço. Conforme descreve Lemos, a compra de seguidores alimenta uma cadeia de falsificação que desorganiza o algoritmo das plataformas. A inteligência artificial passa a receber sinais distorcidos, interpreta conteúdo ruim como relevante e entrega ao topo aquilo que não nasce de interesse orgânico, mas de manipulação. A consequência é a contaminação do ambiente digital, que se torna menos confiável, menos meritocrático e mais vulnerável a fraudes.

Para o debate político, isso é devastador. Quando métricas deixam de refletir pessoas reais, perde-se o barômetro social. Curtidas falsas não pressionam governos, não apoiam propostas e não mobilizam decisões. E, sobretudo, não votam. O político que recorre a essas práticas vive dentro de uma bolha narcísica, cercado por uma plateia imaginária que o aplaude sem respirar, sem existir e sem discordar. É popularidade sem povo.

A democracia não se sustenta em aplauso fictício. O uso de seguidores comprados corrói a confiança nas redes, mina a credibilidade de quem se comunica de forma honesta e cria um círculo vicioso em que o falso passa a competir com o verdadeiro. Quanto mais números artificiais circulam, mais desvalorizada se torna a presença autêntica. Isso afeta jornalistas, criadores, instituições, campanhas e o próprio eleitor, que passa a desconfiar de tudo, inclusive de movimentos reais.

Sem anúncio no momento

No fim das contas, o autoengano é sempre um salto no vazio. Pode inflar o ego, mas não sustenta reputação. Pode impressionar no curto prazo, mas implode no longo. A política brasileira vive um momento em que autenticidade é um diferencial raro. E quem escolhe substituir verdade por vaidade digital acaba não apenas enganando o eleitor, mas se afastando da única métrica que realmente importa: a confiança das pessoas.

Seguidores comprados não votam, não debatem e não sustentam nenhum projeto de país. E é justamente por isso que muitos candidatos que vivem de números artificiais experimentam a mesma cena, eleição após eleição: a multidão que existia na tela desaparece no dia da votação. A urna devolve a realidade que os algoritmos fingiram esconder.

A decepção é inevitável porque a política real não acontece no mundo dos perfis falsos. Acontece onde sempre aconteceu: no encontro com pessoas de verdade.

José Trabulo Júnior é consultor de marketing político, jornalista, cientista político, publicitário.

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1