Por mais que os tempos mudem e as ferramentas da política evoluam, certas figuras permanecem como manuais vivos de como o poder funciona de verdade. Antônio Carlos Magalhães, o velho ACM, é uma dessas figuras. Concordar com ele nunca foi obrigação — ele mesmo preferia o embate. Mas ignorar sua inteligência política seria um erro grotesco.

Ele não apenas lia o jogo: ele o antecipava, o redesenhava e, muitas vezes, decidia quem jogaria. Tinha voz de trovão, olhar de comando e uma habilidade rara: sabia ser temido e respeitado na mesma medida. Não por acaso, mesmo quando estava “longe” do governo, mandava mais que muitos ministros.

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ACM o mestre dos bastidores

ACM era o tipo de político que mandava recado sem precisar usar o WhatsApp — bastava um gesto, uma frase, uma ameaça sutil. Uma vez, ao ser provocado por um adversário que questionava sua influência em Brasília, respondeu seco: “Eu nomeio ministro com um telefonema e derrubo ministro com dois.” Exagero? Talvez. Mas ninguém duvidava que ele podia cumprir.

Outro causo que ficou célebre foi quando Fernando Henrique Cardoso, então presidente, tentava conter o ímpeto autoritário do baiano. ACM, com ironia, retrucou: “Presidente, a Bahia me conhece. E o senhor me conhece. Quem tem medo de mim é porque deve.”

Mas ele não era só frases de efeito. Era ação. Quando percebeu que sua reeleição ao Senado estava ameaçada em 2002, devido à crise do painel eletrônico — em que admitiu ter tido acesso ilegal à votação secreta que cassou Luiz Estevão —, renunciou ao mandato. Uma jogada arriscada. Mas voltou em 2003, com mais votos do que antes. E disse, com a língua afiada de sempre: “Renunciei porque sou homem. Voltei porque o povo quis. E ninguém me derruba duas vezes.”

O estilo era duro, muitas vezes truculento. ACM fazia política como um general de voz forte e mão firme. Mandava na Bahia como se fosse um senhor feudal, mas sabia, como poucos, construir alianças nacionais. Tinha trânsito com militares, com civis, com direita e com centro. E, mesmo brigando com Lula, conseguia dialogar quando era necessário.

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Certa vez, ao ser criticado por manter amizades com adversários ideológicos, disparou: “Eu não sou ideológico. Eu sou prático. Quem manda na política é quem tem voto. Quem não tem, bate palma.”

Sei que vivemos outros tempos. A internet derrubou bastidores, a transparência se impôs (ou deveria) e as novas gerações exigem novas formas de liderar. Mas há uma lição de ACM que resiste ao tempo: política se faz com coragem, com cálculo e com gente. Saber ouvir, saber bater, saber recuar e, acima de tudo, saber mandar.

Antônio Carlos Magalhães pode ter sido temido, mas nunca foi irrelevante. E numa era em que tantos querem palco, mas poucos entendem o peso de uma decisão, lembrar da sabedoria política de ACM é quase um ato de lucidez.

Ele era do tempo em que liderança se media por respeito, não por curtida. Do tempo em que bastava um telefonema para mudar os rumos de uma eleição. E talvez, num país que vive perdido entre demagogos e tecnocratas, não faça mal nenhum lembrar como agia um verdadeiro operador do poder.

José Trabulo Júnior é consultor de marketing político, jornalista, cientista político, publicitário, escritor e palestrante, abordando atualmente o tema: “Narciso, a cultura do espelho”, título de seu novo livro, com lançamento previsto para outubro de 2025. Possui MBA em Gestão, Empreendedorismo e Marketing; pós-graduação em Gestão, Governança e Setor Público; pós-graduação em Novas Tecnologias, Transformação Digital e Agilidade; pós-graduação em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia; e pós-graduação em Comunicação Eleitoral e Marketing Político. Escreve  às segundas-feiras no Portal GP1.

CEO da X Conexões Consultoria - Transformando Ideias em Resultados -  E-mail: consultor@xconexoes.com.br.

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1