Quando aceitei o desafio de assumir a comunicação da Prefeitura de São Paulo, ficou claro para mim que não seria possível comunicar a cidade com responsabilidade olhando tudo à distância. Comunicação pública exige verdade, e verdade não nasce em gabinete. Ela nasce do contato direto com a realidade.
Foi por isso que passei 30 dias vivendo na região conhecida como Cracolândia , no centro de São Paulo. Não como visitante ocasional, mas como alguém disposto a conviver, ouvir e compreender o que existe por trás da cena aberta de uso de drogas que por décadas marcou aquele território. A Cracolândia nunca foi apenas um problema de segurança. Sempre foi o resultado de falhas acumuladas em saúde mental, assistência social, moradia e políticas de inclusão.
Durante esse período, conversei diariamente com pessoas em situação de rua, dependentes químicos, profissionais da saúde, assistentes sociais, agentes públicos e moradores do entorno. O que encontrei foi uma realidade dura, complexa e profundamente humana. Histórias de ruptura familiar, desemprego, sofrimento psíquico e abandono do poder público ao longo do tempo. Ali, nenhuma solução simplista se sustenta. A repressão isolada apenas muda o problema de lugar. A omissão o torna permanente.
Ao mesmo tempo, acompanhei de perto o trabalho articulado entre a Prefeitura de São Paulo e o Governo do Estado de São Paulo para enfrentar essa realidade de forma diferente do passado. Pela primeira vez em muitos anos, vi uma atuação coordenada entre saúde, assistência social, segurança pública, habitação e requalificação urbana, com presença contínua do Estado no território.
Equipes de saúde mental passaram a atuar diretamente na região, ações de acolhimento foram intensificadas e políticas de cuidado continuado começaram a substituir a lógica puramente emergencial. Não se tratava de maquiar a cidade ou empurrar pessoas para longe do olhar público, mas de enfrentar o problema com método, planejamento e responsabilidade institucional.
Essa vivência também reforçou uma convicção pessoal. Comunicação pública não pode ser propaganda. Não pode negar a dor nem vender soluções mágicas. Comunicar, nesse contexto, era explicar à população o que estava sendo feito, reconhecer limites, apresentar avanços reais e deixar claro que problemas estruturais não se resolvem do dia para a noite.
Os resultados desse trabalho hoje são visíveis. A cena aberta que por anos simbolizou o abandono foi desarticulada. Houve redução expressiva da concentração de usuários no território, ampliação do acolhimento em serviços de saúde e assistência, oferta de tratamento, encaminhamento para abrigamento e políticas de reinserção social. A atuação integrada do poder público impediu a simples migração do problema para outros pontos da cidade e devolveu dignidade a uma área que por décadas foi tratada como insolúvel.
Acabar com a Cracolândia não foi um ato isolado, nem fruto de espetáculo. Foi consequência de planejamento, presença permanente do Estado e decisões difíceis tomadas com responsabilidade. Minha experiência vivendo 30 dias ali mostrou que, quando o poder público age com seriedade, coordenação e humanidade, até os problemas mais complexos podem começar a ser superados.
Comunicar essas vitórias com verdade é essencial. Porque enfrentar a realidade sempre foi mais eficaz do que fingir que ela não existe.
José Trabulo Júnior é consultor de marketing político, jornalista, cientista político, publicitário.
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