A decisão de levar integrantes do governo para o centro do espetáculo da Sapucaí, com destaque para Janja Lula da Silva em carro alegórico da Acadêmicos de Niterói, vai muito além de uma escolha cultural. Trata-se de um movimento político calculado, que expõe um erro clássico de comunicação institucional: confundir visibilidade com aprovação.

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Carnaval não é palanque

Afirmo com convicção. Nem todo palco deve virar palanque.

O Carnaval é um território simbólico do povo. É identidade, encontro e catarse coletiva. É quando milhões de brasileiros extravasam tensões acumuladas, aliviam o peso da rotina e vivem, ainda que por alguns dias, uma sensação de liberdade. Esse é o verdadeiro papel da festa: permitir que o povo respire.

Quando o governo decide ocupar esse ambiente com figuras oficiais e narrativas de poder, rompe um pacto silencioso com a sociedade e transforma celebração em propaganda.

Do ponto de vista estratégico, isso produz efeitos previsíveis.

Primeiro, polariza um espaço que deveria ser plural. Uma parte da população passa a enxergar a festa como extensão do projeto político do governo, não mais como manifestação cultural livre.

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Segundo, reforça a percepção de personalismo. A gestão deixa de parecer institucional e passa a soar promocional, alimentando a crítica de que tudo gira em torno de imagem e não de resultados.

Terceiro, cria desgaste desnecessário. Mesmo apoiadores questionam prioridades simbólicas, enquanto opositores ganham combustível narrativo. É ruído gratuito em um cenário já marcado por dificuldades econômicas e sociais.

Em comunicação pública existe uma regra básica. Espaços de afeto coletivo não devem ser instrumentalizados. Eles servem para unir, não para marcar posição.

Quando o governo entra no desfile como protagonista, troca empatia por exposição, espontaneidade por cálculo político e cultura por marketing. É uma aposta de curto prazo que cobra um preço alto na percepção pública.

Governos maduros sabem respeitar fronteiras entre Estado, cultura e campanha. Quando essa linha é borrada, o resultado raramente é ganho de popularidade. Quase sempre é rejeição silenciosa, crítica crescente e desgaste acumulado.

Carnaval é do povo. Governo é governo. Misturar os dois é erro estratégico.

José Trabulo Júnior é consultor de marketing político, jornalista, cientista político, publicitário.

E-mail: t.j@uol.com.br

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1