O aumento tarifário de 50% imposto pelos Estados Unidos, com início previsto para 1º de agosto, poderá gerar efeitos além da balança comercial. Estudos da Confederação Nacional da Indústria (CNI), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da XP Investimentos apontam que a medida poderá causar perdas significativas para empresas brasileiras e afetar o nível de emprego em setores estratégicos da economia.

A nova tarifa foi comunicada pelo presidente Donald Trump ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva . A justificativa da medida envolve divergências políticas, entre elas o tratamento dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro e temas como regulação de redes sociais. Especialistas também mencionam a possibilidade de novas medidas comerciais em meio a investigações em andamento envolvendo o Brasil.

A CNI, a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) e outros representantes do setor produtivo avaliam que a tarifa poderá ter impactos expressivos em setores industriais e no agronegócio. De acordo com a UFMG, a medida pode provocar uma redução de 0,16 ponto percentual no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2025, o que representa cerca de R$ 19,2 bilhões.

Estados mais impactados

A projeção da UFMG indica que os estados mais afetados seriam:

São Paulo: queda estimada de R$ 4,46 bilhões no PIB estadual

Rio Grande do Sul: redução de R$ 1,92 bilhão

Sem anúncio no momento

Paraná: perda de R$ 1,91 bilhão

Santa Catarina: impacto negativo de R$ 1,73 bilhão

Minas Gerais: recuo de R$ 1,66 bilhão

Esses estados concentram cadeias produtivas exportadoras nos setores mais atingidos pela nova tarifação.

Impacto no emprego

Estima-se a eliminação de aproximadamente 110 mil empregos no país, com maior impacto na agropecuária (41 mil), seguida pelo comércio (31 mil) e pela indústria de transformação (26 mil).

Indústria de transformação e comércio exterior

Entre as empresas com grande exposição ao mercado norte-americano está a Embraer , fabricante de aviões comerciais, que obtém cerca de 23,8% da receita com exportações para os EUA. A XP Investimentos estima um impacto de 5 a 6 pontos percentuais na margem operacional da empresa caso se confirme o cenário mais adverso.

Segmentos como siderurgia, máquinas agrícolas, artigos têxteis, madeira, calçados e artigos de couro também estão entre os mais afetados. A XP destaca impactos potenciais em empresas como WEG, Randoncorp, Frasle, Gerdau, CSN, CBA, Tupy e Alpargatas.

A WEG, por exemplo, pode adotar estratégias como reajuste de preços ou realocação da produção para países com tarifas menores, como o México.

Exportações do agronegócio

A UFMG projeta que a agropecuária será o setor com maior redução de postos de trabalho. Produtos como carnes, café, açúcar e suco de laranja estão entre os principais afetados.

Carnes: exportações de carne suína e de aves devem cair mais de 11%, com retração de até 4% na produção, segundo o Itaú. A carne bovina deve registrar queda de 4,1% nas exportações.

Café: O café em grão lidera as exportações do setor para os EUA. O BTG Pactual projeta redução de 6% nas vendas do produto ao país.

Açúcar: estimativas da UFMG apontam queda de 5% nas exportações e 2,7% na produção. A Jalles Machado, que exporta açúcar orgânico, pode ter impacto direto.

Suco de laranja: as exportações no primeiro semestre somaram US$ 655 milhões. A CitrusBR aponta risco de perdas, com dificuldade de redirecionamento para outros mercados e possibilidade de queda nos preços.

Relacionamento bilateral

O Brasil mantém um histórico de parceria econômica com os Estados Unidos. Em 2023, a tarifa média aplicada pelo Brasil sobre importações americanas foi de 2,7%.

Entidades do setor produtivo afirmam que buscam manter o diálogo com representantes do setor privado e autoridades dos EUA. Há preocupação com os impactos econômicos da medida e o risco de ampliação do desemprego em ambos os países, dado o nível de integração das cadeias produtivas.

A CNA afirma que o país deve priorizar sua posição estratégica no comércio internacional e alerta para o risco de decisões comerciais baseadas em fatores políticos.