A Operação Zona Cinzenta, deflagrada pela Polícia Federal nesta sexta-feira (6), colocou no foco das investigações o diretor-presidente da Amapá Previdência (Amprev), Jocildo Silva Lemos, indicado ao cargo pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Antes de assumir a presidência da autarquia, Lemos já havia atuado como tesoureiro em ao menos duas campanhas do senador amapaense.
A investigação apura aplicações realizadas em 2024 pelo fundo de previdência dos servidores do Amapá, que somam cerca de R$ 400 milhões em letras financeiras do Banco Master. Segundo fontes ligadas ao caso, as operações foram aprovadas em menos de 20 dias, mesmo após alertas de risco emitidos pelo Ministério Público Federal (MPF) e pelo Tribunal de Contas da União (TCU).
Atas de reuniões do conselho de investimentos da Amprev indicam que dois de seus integrantes se posicionaram contra a aplicação dos recursos e recomendaram uma nova consulta ao TCU antes da decisão final.
Davi Alcolumbre não é alvo da investigação e, até o momento, não figura formalmente no inquérito. Procurado, o senador afirmou, por meio de sua assessoria, que confia nas instituições e defende a apuração dos fatos com transparência e respeito ao devido processo legal, ressaltando que espera a punição dos responsáveis, caso as irregularidades sejam confirmadas.
O senador não respondeu a questionamentos sobre sua relação pessoal com Jocildo Lemos. Em manifestação anterior, sua assessoria afirmou que ele não teve participação direta na indicação nem nas decisões de investimento do fundo, classificando como infundadas tentativas de associá-lo às escolhas administrativas da Amprev.
A autarquia estadual declarou que se considera prejudicada pelas irregularidades atribuídas ao Banco Master e informou que busca o ressarcimento integral dos valores aplicados. Jocildo Lemos foi procurado, mas não se manifestou até o momento.
Embora Alcolumbre não esteja entre os investigados, o avanço das apurações aumenta a pressão política para a instalação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre o caso no Congresso Nacional. Cabe ao presidente do Senado convocar a sessão necessária para a leitura do requerimento que viabiliza a comissão. Até agora, não houve manifestação pública dele sobre o tema.
Parlamentares da oposição afirmam que o processo enfrenta resistência para avançar. Um requerimento com mais de 280 assinaturas já foi protocolado, mas depende de leitura em sessão conjunta do Congresso para que a CPMI seja oficialmente instalada.
Após a operação no Amapá, o senador Eduardo Girão (Novo-CE) criticou a demora na abertura da investigação parlamentar e defendeu a criação imediata de uma CPI ou CPMI para apurar o que classifica como um dos maiores escândalos recentes do sistema financeiro, ressaltando que os pedidos já contam com apoio suficiente para avançar.