A Transparência Internacional , ONG que atua no combate à corrupção, criticou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva por minimizar a dimensão do escândalo envolvendo o Banco Master e a participação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes .
A manifestação da ONG faz referência à entrevista recente concedida por Lula ao portal ICL Notícias, na qual afirmou ter orientado o “companheiro Moraes” a se declarar impedido de atuar no julgamento do caso, como forma de preservar sua trajetória. “Eu disse para o companheiro Alexandre de Moraes e vou dizer para vocês exatamente o que eu disse para ele. É o seguinte: você construiu uma biografia histórica neste país com o julgamento do 8 de janeiro. Não permita que esse caso do Vorcaro jogue fora a sua biografia”, declarou Lula.
Na avaliação da organização, mais adequado do que aconselhar o ministro seria o presidente ter orientado o procurador-geral da República, Paulo Gonet , a não se omitir e conduzir uma apuração sobre o caso.
Em publicação na rede social X, a Transparência Internacional afirmou que o escândalo não se resolve com um eventual impedimento de Moraes e, por isso, considerou “extremamente prejudicial ao país a forma como o presidente minimizou o caso”. “Em um contexto de normalização do absurdo, pode até ser positivo que Lula tenha aconselhado o óbvio ao ministro Moraes, que ele deve se declarar impedido de julgar causas do escritório da esposa. Mas é extremamente prejudicial ao país a forma como o presidente minimizou o caso, como se fosse meramente uma questão de impedimento”, afirmou a ONG.
Ainda segundo a entidade, “o conflito de interesses, já evidente, é o menor dos problemas neste caso gravíssimo, e a declaração de impedimento por parte de Moraes estaria longe de solucioná-lo”. Em outro trecho, a organização foi direta: “Com sua fala, o presidente Lula confirma que é um péssimo conselheiro quando o tema é prioridade”. E acrescentou: “Ao minimizar um caso de tamanha gravidade, demonstra que sua preocupação central é apenas se distanciar politicamente do escândalo e de seu impacto eleitoral.”
Na sequência, a ONG detalha pontos que, segundo ela, foram ignorados por Lula durante a entrevista. Entre eles, está o contrato de R$ 129 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia ligado à esposa de Moraes, valor considerado “completamente fora de parâmetros” de mercado. Também são mencionadas interações do ministro com o empresário Daniel Vorcaro, dono do banco, e com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, o que, segundo a ONG, pode indicar possível tráfico de influência.
A entidade também sustenta que o escritório da esposa de Moraes desconsiderou o fato de que o Banco Master e Vorcaro “já tinham histórico de investigações e sobre eles pairavam suspeitas generalizadas no mercado, fortíssimos indícios de que o valor tão incompatível poderia ter origem criminosa”.
Outro aspecto destacado é que familiares de Moraes são classificados como pessoas expostas politicamente (PEPs), por conta da ligação direta com uma autoridade de alto escalão do Judiciário. No cenário internacional, esse grupo é considerado de alto risco para práticas como corrupção e lavagem de dinheiro, exigindo controles mais rigorosos em relações comerciais e financeiras.
Esses procedimentos incluem medidas de “know your client” (KYC), com análise detalhada da identidade, histórico e reputação dos clientes, além da verificação da origem dos recursos envolvidos nas operações.
Apesar disso, segundo a ONG, “o escritório Viana de Moraes não adotou os mais elementares mecanismos de compliance ao aceitar (ou possivelmente propor) um contrato de valor extraordinariamente acima de mercado, com alto risco de origem ilícita, para realizar atividade de lobby exatamente na esfera de influência do marido/ pai ministro Alexandre de Moraes”.
Para a Transparência Internacional, “diante de circunstâncias tão graves, o escritório jamais poderia ter assinado o contrato ou deveria ter reportado o caso imediatamente aos órgãos de controle”.
A organização também ressaltou que, entre os serviços declarados pelo próprio escritório ao Banco Master, estaria a consultoria em compliance, justamente em um contexto em que falhas nesse tipo de controle são apontadas como centrais no caso.
Por fim, a ONG voltou a criticar a postura do presidente e afirmou que Lula teria agido de maneira “institucionalmente mais apropriada” se tivesse incentivado o procurador-geral a agir com independência. “Se estivesse verdadeiramente preocupado com a corrosão da credibilidade das instituições democráticas pela corrupção, é isso que faria como autoridade máxima eleita do país”, concluiu a Transparência Internacional.