Quase quatro décadas após o nascimento da Dolly, primeiro mamífero clonado do mundo, cientistas brasileiros anunciaram um avanço inédito: o nascimento de um porco clonado no país. O feito representa um passo importante em um projeto que busca viabilizar, no futuro, o transplante de órgãos de animais para humanos.
O leitão nasceu em 24 de março e, segundo o pesquisador Ernesto Goulart, está saudável e sob cuidados em uma fazenda em Piracicaba, no interior de São Paulo. O trabalho foi conduzido por uma equipe do Centro de Estudos do Genoma Humano e de Células-Tronco, ligado ao Instituto de Biociências da USP.
De acordo com os responsáveis, este é o primeiro caso de clonagem de suínos na América Latina. A técnica é considerada desafiadora, especialmente nessa espécie. “São pouquíssimos grupos no mundo que conseguiram a clonagem animal e, entre os animais, o porco é o mais difícil de ser clonado”, afirmou Goulart.
Apesar do avanço, o animal ainda não possui modificações genéticas que permitam a utilização de seus órgãos em humanos. A expectativa da equipe é que as próximas etapas incluam a implantação de embriões geneticamente editados, com foco no chamado xenotransplante.
Um dos principais obstáculos históricos desse tipo de procedimento é a rejeição imediata dos órgãos. Isso ocorre porque o organismo humano possui anticorpos que reagem contra tecidos suínos. Esse cenário começou a mudar com o avanço de tecnologias como o CRISPR-Cas9, técnica de edição genética desenvolvida pelas cientistas Emmanuelle Charpentier e Jennifer Doudna, laureadas com o Prêmio Nobel de Química em 2020.
Até o momento, quatro xenotransplantes foram realizados no mundo, todos nos Estados Unidos. O primeiro paciente, David Bennett, recebeu um coração suíno em 2022, mas morreu dois meses depois devido a complicações. No ano seguinte, Lawrence Faucette também passou por um transplante semelhante e faleceu semanas depois, sem que a causa da morte fosse diretamente atribuída ao procedimento.
Outros dois pacientes receberam rins de porcos geneticamente modificados. Em um dos casos mais recentes, o órgão foi retirado após o rim original do paciente voltar a funcionar.
Além dos Estados Unidos, países como a China também investem em pesquisas na área. No Brasil, a iniciativa ganhou força a partir de uma provocação do médico Silvano Raia, pioneiro em transplantes hepáticos no país. Ele propôs que o Brasil desenvolvesse tecnologia própria para não depender de órgãos vindos do exterior.
A proposta deu origem ao Centro de Ciência para Desenvolvimento em Xenotransplante, que reúne especialistas como o imunologista Jorge Kalil e a geneticista Mayana Zatz, atual líder do projeto.
“Nós estamos desenvolvendo uma tecnologia 100% brasileira para levar ao SUS e não depender de órgãos do exterior”, afirmou Zatz. Aos 96 anos, Raia segue acompanhando as pesquisas, embora tenha deixado a coordenação geral recentemente por questões de saúde.