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Peça teatral traz Jean Genet como poeta das sombras; confira

Sérgio Ferrara dirige o espetáculo que aborda a vida do escritor francês.

Imagem: Vivian Fernandes/DivulgaçãoClique para ampliarObra mira anos em que Genet viveu nas ruas(Imagem:Vivian Fernandes/Divulgação)Obra mira anos em que Genet viveu nas ruas
Para criar Genet: O Poeta Ladrão, o dramaturgo Zen Salles e o diretor Sérgio Ferrara não edulcoraram a história do controverso escritor francês. Ao lado dos lampejos de genialidade de Jean Genet, o espetáculo também convoca todo o submundo que o rodeava.

Em cartaz no Sesc Consolação, a montagem encara Genet como um mistério a ser desvendado. “É um universo impactante e que não permite perfumaria. É preciso mergulhar sem pudor para entendê-lo. Genet habitava as sombras”, comenta Ferrara, reconhecido por obras como Pobre Super-Homem, que recebeu o prêmio de melhor direção em 2000, pela APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte.

Nesse mergulho, o encenador retoma a trajetória do artista “maldito” em um ambiente que mescla delírio e memória. A cena inicial da peça se dá em 1969, momento em que o francês realmente esteve no Brasil para acompanhar a estreia de seu texto teatral O Balcão. Ousada, a montagem de Victor García impactou Genet, que chegou a considerá-la a melhor versão desse seu título. Mas a dramaturgia de Zen Salles recorre ao episódio histórico apenas como pretexto para o percurso em direção ao passado do autor de O Diário de um Ladrão.

A passagem do poeta por São Paulo se deu durante o auge do endurecimento do regime militar, logo após a outorga do AI-5. Àquele momento, intelectuais e artistas eram presos e torturados. E essa é a imagem que servirá como centelha para que o poeta retorne à solidão da prisão e passe a rememorar sua vida marginal.

Nascido em Paris, em 1910, Jean Genet foi abandonado pela mãe – uma prostituta – e criado por uma família que recebia dinheiro do governo para acolhê-lo. Desde muito cedo, começou a cometer crimes e seria preso incontáveis vezes. Fatos que podem parecer inconciliáveis com a alta criação literária, mas que alimentaram a poesia de Genet. “O caos e a confusão surgem para ele como algo produtivo. É um mundo escuro, perverso”, observa o diretor. “O perigo o excitava muito.”

Para fazer o público entrar em contato com a obra desse escritor, a peça propõe um traçado fragmentário. Traz cenas curtas, condensa acontecimentos e busca aproximar-se de quem assiste mais pelas sensações que inspira do que pela narrativa. “Mais importante do que fazer a plateia entender racionalmente aquilo, era mergulhá-la naquele mundo”, diz Ferrara. “Ainda que eu não estivesse montando um dos textos do Genet, era preciso que eu resgatasse a estética dele. Sua obra é muito imagética. E isso me ajudou muito.”

Na encenação, o diretor abre algumas cenas convocando os intérpretes a compor quadros vivos. Reveste de véus, rendas e luzes os corpos nus, como se os envolvesse com o aspecto da sacralidade. Mas todas essas imagens de beleza e equilíbrio serão invariavelmente rompidas por situações de caos e desregramento.

A peça opta por examinar detidamente um momento específico da vida de Jean Genet: a juventude nas ruas. O tempo passado na prisão. A rotina de roubos e prostituição. A experimentação da liberdade, do excesso, da ruína.

Foi durante esse período, antes de ser incensado como gênio por Jean Paul-Sarte e Jean Cocteau, que o escritor entrou em contato com os homens e mulheres que se tornariam seus personagens. A profusão de cafetinas, travestis, michês e bandidos que desfilam por obras, como O Milagre da Rosa (1946) e Nossa Senhora das Flores (1944). “Não existe diferença entre Genet e sua obra”, aponta Ferrara, que leva todas essas criaturas para habitar o palco e se relacionar com o protagonista.

Outro aspecto essencial na ficção de Genet que o espetáculo ressalta é sua homossexualidade. “Estamos falando de uma época em que ser gay era uma doença, um crime, em que esses homens só eram aceitos nos guetos. É gente sobrevivendo à margem da vida”, argumenta o diretor.

QUEM É

JEAN GENET

DRAMATURGO, POETA E ROMANCISTA

Filho de uma prostituta e de pai desconhecido, foi nome proeminente na literatura francesa. Preso diversas vezes na juventude, tornou-se famoso por influência de Sartre. Dedicou-se a causas políticas e foi amigo de personalidades como Michel Foucault, Igor Stravinski e François Mitterrand.

GENET: O POETA LADRÃO

Sesc Consolação. Espaço Beta. Rua Dr. Vila Nova, 245, 3234-3000. 5ª e 6ª, 20 h. R$ 2/R$ 10. Até 6/12.

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