Protestos recentes em todo o território do Irã intensificaram a pressão sobre um governo disfuncional que tenta administrar uma crescente crise econômica. Uma recente medida militar estadunidense na Venezuela gerou preocupação na República Islâmica. O Irã assistiu, no último fim de semana, a cenas dramáticas das forças americanas desembarcando em Caracas, capital da Venezuela, para capturar o ditador Nicolás Maduro, aliado de Teerã, e transferi-lo para os EUA, em uma ousada operação noturna que resultou na captura dele e da esposa.
Na segunda-feira (5), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump , ameaçou o Irã pela segunda vez em menos de uma semana, alertando novamente que, caso as autoridades ataquem algum protestante novamente, Washington responderá.
O governo iraniano, já abalado pela agitação interna e por múltiplas crises, agora enfrenta a perspectiva de uma possível nova ação militar americana, após suas instalações nucleares terem sido alvejadas em junho de 2025, em uma escalada impulsionada por um presidente americano fortalecido, que também ameaçou outros adversários após o ataque à Venezuela. “Se eles começarem a matar pessoas como fizeram no passado, acho que serão duramente atingidos pelos Estados Unidos”, afirmou Donald Trump a bordo do avião Air Force One, nesta segunda-feira (5).
Protestos no Irã e reações dos EUA
Os protestos no Irã começaram no fim do mês de dezembro, quando comerciantes descontentes foram às ruas para protestar contra a queda acentuada da moeda do país.
A princípio, eram manifestações pacíficas e localizadas, mas rapidamente se espalharam por todo o país. Com a adesão de outros segmentos da população, os protestos chegaram a 88 cidades de 27 das 31 províncias iranianas, segundo a agência de notícias HRANA (Human Rights Activists News Agency), um grupo ativista com sede nos Estados Unidos.
A liderança iraniana acabou mobilizando a força paramilitar Basij para reprimir centenas de manifestantes. Após nove dias de protestos, pelo menos 29 manifestantes foram mortos e quase 1.200 presos, segundo a HRANA. As forças de segurança do Irã reprimiram os protestos, chegando a invadir um hospital no domingo (4), onde prenderam manifestantes feridos, uma tática comum do aparato de segurança local.
As declarações e ameaças de Trump enfureceram os líderes do país, que, desde então, intensificaram a repressão aos protestos. A liderança da República Islâmica já alerta há muito tempo sobre uma possível mudança de regime instigada pelos EUA, alegando tanto a seus apoiadores quanto à oposição que o objetivo final das potências ocidentais é derrubá-la.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, declarou apoio aos manifestantes iranianos, o que intensificou a pressão americana e a apreensão em Teerã. Desde então, autoridades iranianas classificaram alguns manifestantes como “vândalos”, “mercenários” e “agitadores ligados a estrangeiros”.
Por meio de uma publicação na rede social X nesta semana, o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, afirmou que o diálogo não é proveitoso e não surte efeito com manifestantes que ele classificou como “arruaceiros”. “Protestar é legítimo, mas protestar é diferente de promover tumultos. Conversamos com os manifestantes. As autoridades devem conversar com os manifestantes. Mas não adianta conversar com um arruaceiro. Os arruaceiros devem ser colocados em seus devidos lugares”, disse Ali Khamenei.
Quando Israel atacou de surpresa o Irã, em junho, a profundidade de sua infiltração tornou-se evidente ao se revelar que agentes da inteligência israelense contrabandearam armas para o país e as usaram para atacar alvos de alto valor a partir de território iraniano.
As autoridades iranianas prenderam dezenas de pessoas e executaram pelo menos dez após o conflito. Na segunda-feira (5), a mídia estatal iraniana informou que um homem foi preso em Teerã sob suspeita de colaborar com a agência de espionagem israelense Mossad. Vali Nasr, professor da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, afirmou que o Irã agora considera as intenções dos EUA como “maximalistas”.
Relação entre Irã e Venezuela
Durante a liderança do falecido presidente Hugo Chávez e, posteriormente, de Nicolás Maduro, a Venezuela tornou-se o aliado mais próximo do Irã no hemisfério ocidental. Os países estabeleceram laços econômicos profundos, e a ampla cooperação militar uniu as duas nações, adversárias fortemente sancionadas por Washington.
À medida que a Venezuela sentia o impacto das sanções, Teerã, mais acostumado a lidar com a “pressão máxima” americana, enviou petroleiros com bandeira iraniana para ajudar no transporte de petróleo venezuelano. Os dois países assinaram dezenas de acordos bilaterais, incluindo um acordo de cooperação de 20 anos para reparar e modernizar refinarias venezuelanas e fortalecer as relações militares.
Mais recentemente, a IRGC (Guarda Revolucionária Islâmica) planejou construir uma linha de trem para o metrô de Caracas, mas desistiu do projeto. As relações entre os dois regimes levaram muitos observadores a voltar sua atenção para o Irã e a questionar se Khamenei poderia enfrentar um destino semelhante ao de Maduro.
Os dois países possuem grandes reservas de petróleo e extensa riqueza mineral, posicionando-se há muito tempo como adversários anti-imperialistas dos EUA. Tanto o Irã quanto a Venezuela sofreram sanções americanas que antecederam colapsos econômicos. Trump ameaçou diretamente os dois regimes, intensificando a pressão tanto sobre Teerã quanto sobre Caracas.
Os dois países também possuem diferenças importantes. O Irã é uma república teocrática, enraizada ideologicamente no islamismo xiita, enquanto a Venezuela é um regime socialista e laico. O Irã pode estar mais preparado para qualquer tentativa de mudança de regime vinda do exterior do que a Venezuela estava.
A República Islâmica tem se antecipado a um suposto complô americano para derrubá-la e construiu uma rede de grupos armados aliados para projetar poder no Oriente Médio, além de desenvolver suas capacidades militares, incluindo drones sofisticados e mísseis balísticos como armas formidáveis no campo de batalha.
No Irã, tanto os partidários quanto a oposição são extremamente avessos à intervenção estrangeira. Apesar da guerra de 12 dias travada por Israel contra o Irã no verão passado, figuras de todos os lados do espectro político se uniram em uma rara demonstração de unidade, denunciando Israel por atacar o país.
Mesmo que uma mudança de regime seja tentada, não há garantia de que ela produza os resultados desejados pelos adversários do Irã. Para os líderes iranianos, o conflito com Israel foi mais uma prova do que vem sendo argumentado há décadas: que as negociações com os Estados Unidos são uma farsa para, eventualmente, derrubar a República Islâmica. O confronto, de acordo com Khamenei, é inevitável.
“Aqueles que argumentavam que a solução para os problemas do país estava em negociar com os EUA viram o que aconteceu. Enquanto o Irã negociava com os EUA, o governo americano estava ocupado nos bastidores preparando planos para a guerra”, escreveu ele na rede social X no sábado (3). “Não cederemos ao inimigo.”