As notícias que vazam do Afeganistão sob a censura do regime do Talibã permanecem alarmantes. Nas primeiras semanas de junho, pelo menos 30 mulheres foram detidas na cidade de Herat, no oeste do país, por supostas violações das regras de vestimenta, segundo a Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão (Unama).
Desde que retomou o poder em agosto de 2021, após a retirada das tropas dos Estados Unidos, o Talibã implementou um sistema descrito por organizações internacionais como um “apartheid de gênero”. O grupo extremista islâmico, que já havia governado o país entre 1996 e 2001, voltou a controlar Cabul depois de duas décadas da intervenção militar norte-americana iniciada após os ataques de 11 de setembro .
Desde então, mais de 230 decretos restringiram direitos básicos de mulheres e meninas. Entre as medidas estão a proibição do ensino secundário, o fechamento das universidades para mulheres, restrições à maioria dos empregos e a proibição de frequentar parques, academias e outros espaços públicos. Antes do retorno do Talibã, as mulheres ocupavam mais de 25% das cadeiras do Parlamento afegão; hoje não possuem representação no governo de fato.
Casamento Infantil
Uma das decisões mais criticadas foi a oficialização do casamento infantil. O documento “Princípios de Separação Entre Cônjuges” reduziu a idade mínima para o casamento, permitindo, na prática, matrimônios forçados de meninas de até 9 anos. O texto também estabelece que o silêncio de uma “menina virgem” pode ser interpretado como consentimento, medida apontada por especialistas como uma institucionalização da violência sexual contra crianças.
Crise humanitária agrava a situação
A crise humanitária agrava ainda mais a situação. A ONU estima que 21,9 milhões de pessoas precisarão de assistência no Afeganistão em 2026. Entre os grupos mais afetados estão mulheres e crianças, com cerca de 3,8 milhões de meninas entre 7 e 18 anos fora da escola. Grande parte das mulheres que ainda trabalha foi empurrada para empregos precários e mal remunerados na economia informal.
Elas desapareceram da vida pública
Com a sucessão de restrições, o Talibã se aproxima do objetivo de criar uma sociedade em que as mulheres sejam praticamente invisíveis na esfera pública. Hoje, elas estão excluídas das decisões políticas, das instituições de governo e de grande parte dos espaços sociais do país.
O que a comunidade internacional pede
A ONU Mulheres defende que os países mantenham apoio financeiro e político às mulheres afegãs e recomenda:
financiamento flexível e de longo prazo para organizações lideradas por mulheres;
destinação de pelo menos 30% dos recursos internacionais para ações de igualdade de gênero;
não normalizar políticas discriminatórias do Talibã;
incluir os direitos das mulheres em todas as ações humanitárias e de desenvolvimento.
Às vésperas de completar cinco anos desde o retorno ao poder, o Talibã governa um Afeganistão marcado por pobreza, dependência de ajuda humanitária e pela retirada sistemática dos direitos das mulheres. Enquanto milhões de afegãos enfrentam dificuldades para sobreviver, meninas e mulheres seguem privadas de educação, trabalho, participação política e liberdade de escolha, uma situação que organismos internacionais consideram uma das mais graves crises de direitos humanos da atualidade.