Uma força-tarefa composta por auditores fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego , procuradores do Ministério Público do Trabalho e agentes da Polícia Federal resgatou 40 pessoas em situação análoga à escravidão em uma propriedade vinculada à Shekinah House Church , localizada em Paço do Lumiar, na região metropolitana de São Luís. As vítimas desempenhavam funções como cuidados com cavalos, limpeza da propriedade, preparo de alimentos e serviços na construção civil. Conforme os relatos colhidos durante a fiscalização, os trabalhadores não recebiam remuneração e tinham acesso apenas a alimentação, abrigo e roupas.
O imóvel acabou interditado pela Vigilância Sanitária. Segundo os depoimentos reunidos pela equipe de fiscalização, o local apresentava água imprópria para consumo, dormitórios lotados, alojamentos sem ventilação adequada e banheiros sem divisórias. Parte das pessoas resgatadas foi encaminhada, na última quinta-feira (07), para um abrigo estruturado pelo governo do Maranhão. Ainda assim, alguns trabalhadores afirmaram que pretendem retornar ao imóvel onde viviam.
De acordo com o secretário adjunto de Direitos Humanos do Maranhão, Eudes Bezerra, os resgatados receberam orientações sobre acolhimento e direitos assegurados pelo Estado. O líder da igreja, o pastor David Gonçalves Silva, foi preso no dia 17 de abril durante a operação Operação Falso Profeta, conduzida pela Polícia Civil maranhense.
Ele é investigado por crimes como estelionato, estupro de vulnerável, posse sexual mediante fraude e associação criminosa. As investigações começaram há cerca de dois anos, após um ex-integrante da igreja denunciar o pastor às autoridades. Segundo a Polícia Civil, os fiéis viviam sob monitoramento constante, enfrentavam restrições de contato com pessoas de fora da comunidade e eram submetidos a punições físicas e psicológicas.
As apurações indicam que os castigos eram chamados de “readas”, expressão usada para descrever chicotadas e agressões físicas aplicadas contra membros da igreja. Mensagens obtidas pelos investigadores mostram ordens com a quantidade de golpes que deveriam ser aplicados a determinados fiéis. A polícia também apreendeu folhas contendo a frase “Eu preciso aprender a respeitar a minha líder” escrita repetidas vezes à mão. Conforme os investigadores, a prática fazia parte das punições impostas dentro da comunidade religiosa.
Ainda segundo depoimentos reunidos pela polícia, homens e adolescentes seriam os principais alvos de abusos sexuais no grupo. Uma das vítimas relatou: “Ele dizia que, por fora, podia ser homem, mas que, entre quatro paredes, tinha que ser mulher”.
As investigações apontam que entre 100 e 150 pessoas viviam no imóvel ligado à igreja. A Polícia Civil informou que o caso segue em apuração para identificar novas possíveis vítimas e reunir mais provas sobre os crimes investigados.