Um dos momentos mais dolorosos que vivemos em nossas vidas é a perda de um ente querido. Nunca estamos preparados para receber uma ligação nos informando sobre isso ou até mesmo presenciar a morte daquela pessoa tão amada e tão importante nos nossos dias. Quem nunca passou por um momento desse, sabe, mesmo que inconscientemente, que passará ou que quando morrer, alguém vai sofrer por você.
Entretanto, diante da dor, da saudade e do luto, é possível ter a certeza que aquela pessoa querida, que foi embora, continua viva. Viva não apenas nas lembranças, mas também em outra pessoa, que pela tristeza da morte do seu ente querido, teve a alegria de continuar vivo, e isso mesmo parecendo ser paradoxo, é possível, através da doação de órgãos. Prova disso é a senhora, dona de casa, de 53 anos de idade, Solange Lira Caland, que há 15 recebeu um novo rim doado por uma pessoa que havia falecido. Ela nos relatou um pouco sua história, como também falou sobre os sonhos e o desejo de incentivar outras pessoas a permitirem a doação de órgãos de um familiar, quando são surpreendidos pela triste notícia da morte.
“Eu 'tava' na fila de espera, pois estava fazendo hemodiálise [procedimento através do qual uma máquina limpa e filtra o sangue, ou seja, faz parte do trabalho que o rim doente não pode fazer], 'aí' essa pessoa faleceu e tinha eu e mais duas pessoas, que eram compatíveis, então eu fiz os exames e deu tudo certo”, iniciou.
Quanto a patologia que sofria naquele tempo, dona Solange comentou: “eu fiquei doente porque tinha rins policístico [doença caracterizada pelo crescimento de múltiplos cistos nos rins ao longo da vida adulta], 'aí' eu comecei a apresentar os sintomas e perdi a função dos rins, então fui para a hemodiálise e vi que estava precisando de um transplante. Tive que esperar quatro anos pela doação de um novo rim”.
- Foto: Lucas Dias/GP1
Solange Lira Caland
“Eu fiquei preocupada, pensando que ficaria naquele tratamento. Eu fazia aquele tratamento três vezes na semana, e ficava quatro horas na máquina. Quando apareceu, eu fiquei muito feliz, 'né'? Eu não tive medo. Fui para fazer o transplante e eu sabia que daria certo. Hoje vivo normalmente, não sinto nada, faço tudo em casa, sou dona de casa mesmo, fazendo tudo, não sinto nada não”, afirmou a senhora Solange, dizendo que teve uma irmã que também precisou receber a doação de um rim.
“Hoje meus planos é cuidar da minha família, cuidar dos meus netos, pois eu não podia fazer nada disso. Se aparecer alguma viagem, agora eu posso viajar. Antes eu não podia, pois dependia do tratamento”, complementou.
“Quero pedir que as pessoas doem, que falem para as famílias que querem doar, pois é muito importante. Tem gente que não consegue receber uma doação e morre logo. Quando eu fazia hemodiálise, muitas pessoas morreram, pois não tiveram condições de receber um transplante, então peço que as pessoas doem. Salvem vidas, pois uma só doação, pode salvar muitas vidas”, pediu Solange Lira Caland. Ela também relatou que ainda não pediu para a família, para ser doadora de órgão, “mas se der certo, se for de uma morte que possa doar, eu quero doar”.
Francisco das Chagas Nunes revive através do olhar de uma pessoa
Foi por volta das 20 horas do dia 6 de fevereiro de 2015, que o policial militar Francisco das Chagas Nunes foi vítima da violência que assola Teresina, que é comum no Piauí e constante em todo país. Porém o agente de segurança pública, que morreu durante o exercício do trabalho, hoje revive, hoje uma pessoa enxerga, pois ganhou as córneas daquele PM, e isso foi possível porque o filho, Lucas Brenno Costa da Cruz, foi sensível e consciente e permitiu a doação, mesmo em meio a surpresa da morte do pai, que aconteceu de forma repentina.
“Até o momento, eu não sabia que tinha esse acompanhamento no IML [Instituto Médico Legal], aí chegou uma mulher - esqueci até o nome dela - mas ela conversou comigo e falou da importância de doar os órgãos. Disse que os únicos órgãos que dava para doar do pai eram as córneas porque ainda estava em tempo. Ainda tinha seis horas para essa doação, aí eu peguei e concordei. Liguei para a mãe e a mãe concordou também, então eu autorizei, mas se pudesse doar os outros órgãos, eu tinha autorizado também”, relembrou Lucas Brenno.
- Foto: Priscila Caldas/GP1
Lucas Brenno Costa da Cruz
O filho de Francisco das Chagas comentou que não lembra do pai dele ter falado se tinha o desejo de doar, mas acredita que ele ficaria feliz em saber dessa doação. “Ele nunca falou não, mas é mais por questão que não é muito divulgado, não existe campanha de conscientizar as pessoas sobre as doações dos órgãos. Como eu li nessa semana um artigo na internet sobre doação de órgãos, eu vi que é muito importante. Muitas pessoas deixam de viver porque quando outras pessoas morrem, as famílias não autorizam a doação de órgãos que poderia ser doado”.
Sobre a confiança que o pai ficaria feliz, Lucas Brenno disse: “acredito que sim porquê de certa forma, ajudou outra pessoa a enxergar”.
- Foto: Arquivo Pessoal
Lucas Brenno permitiu a doação das córneas do pai
Doação de órgãos
O GP1 conversou com a coordenadora da Central de Transplantes do Piauí, Lourdes Veras, e ela esclareceu alguns pontos importantes sobre toda complexidade que envolve a doação de órgãos, seja do doador vivo, como também do doador após a morte.
“Existem as duas modalidades de doações de órgãos. A doação inter vivo acontece principalmente nos transplantes de rins, já que é um órgão duplo, e geralmente, quando existe uma pessoa necessitando, um próprio familiar faz a doação. A família se solidariza com esse ente que está doente e isso é muito frequente.
Doações de outros órgãos, feitas por doador vivo, só acontecem em casos muito excepcionais. No caso do transplante do fígado, pode haver a doação em vida, mas é uma cirurgia muito complexa, uma cirurgia grande, e que na realidade não se aconselha porque o risco para o doador, para fazer uma hepatectomia, é uma coisa mais grave, mas em condições, onde a mãe tem um filho com uma doença grave no fígado, e que não existe há a possibilidade imediata de ter uma doação de um doador falecido, a própria família tenta salvar a vida do seu ente querido, isso também pode acontecer. O transplante do pulmão, onde pode-se tirar um pedaço do pulmão e fazer a doação, é algo mais restrito, mas também existe.
Cirurgias grandes são consideradas assim pela complexidade. Geralmente para fazer uma cirurgia dessa é quase nove horas, então você expor uma pessoa que está bem, para fazer uma cirurgia complexa, com risco, para salvar outra, seria muito melhor se esse órgão já viesse do doador falecido. Que você não colocasse em risco uma pessoa que está bem, então geralmente não se aconselha muito, só nesses casos de excepcionalidade.
- Foto: Priscila Caldas/GP1
Lourdes Veras
No transplante de doação em vida, o que é mais comum é o transplante de rim, pelo fato de ser um órgão duplo. Todos os outros órgãos e tecidos só poderão vim de um doador falecido, que é no caso do coração, das córneas, do tecido, do osso, então a doação de transplante do doador falecido é extremamente importante e o transplante é a única modalidade da medicina que só pode ser realizado se houver a participação da população. Um transplante é uma cirurgia extremamente complexa. ‘Tá’ no topo da alta complexidade, mas só poderá acontecer se houver participação da nossa população.
O coração só pode vim de um doador falecido. Geralmente a distribuição da doação de coração tem alguns critérios. A Central de Transplante obedece critérios internacionais. No caso do coração, o primeiro critério é a urgência, então a família doou o órgão hoje, mas tem que ver a compatibilidade anatômica. Por exemplo, se o doador é um homem de 80 quilos, esse coração não vai servir para uma pessoa de 30/40 quilos. Tem que ter a compatibilidade anatômica, além da compatibilidade de tecido. Todos os órgãos, quando são distribuídos, são distribuídos de acordo com o grupo sanguíneo e cada órgão tem os seus critérios de distribuição. O coração é a urgência, a compatibilidade sanguínea e a compatibilidade anatômica (que depende da estrutura física da pessoa, onde é medido o diâmetro corporal, a altura, o peso). O próprio sistema calcula se aquele órgão é compatível com aquela outra estrutura”.
Conscientização
“A doação de órgãos precisa melhorar, principalmente no Nordeste. Precisa ter mais conscientização, mais divulgação da importância de doação de órgãos porque o momento que a família perde um ente querido é um momento muito difícil. Na doação de órgãos nós encontramos uma família psicologicamente arrasada, que perdeu um parente de uma maneira súbita (não estava sendo esperado). Os doadores de órgãos geralmente são pessoas jovens, vítimas de acidentes, mortes violentas ou de hemorragias cerebrais, que não têm a destruição de órgãos. Você chegar para uma família nesse momento é muito difícil, por isso que é importante conscientizar previamente, para que as pessoas em vida possam ter a oportunidade de se manifestar, para que nessa hora a família atenda esse pedido. A família tem que ter essa sinalização.
Só que no Brasil, aqui no Ocidente todo, nós não temos essa cultura de pensar na morte. Não falamos em morte. É a coisa mais certa que vai acontecer conosco. Nós não temos o costume de discutir isso, diferentemente do Oriente, que já tem uma certa preparação para isso.
É um momento muito difícil. Pegamos famílias arrasadas. É muito difícil ter que explicar esses parâmetros científicos. A família precisa de um tempo, ver essa realidade, pensar, e esse tempo é o que nós não temos. Temos observado que no Piauí quem doa são pessoas conscientes. A maioria dos doares do Piauí manifestaram em vida que queriam ser doadores”, disse Lourdes Veras.
Poder da família
“A família hoje é soberana. Nenhum documento tem validade perante a lei. Hoje você não tem esse direito. O direito é da sua família. Se você é doador e sua família é contra, a sua família é quem vai prevalecer. Ela é soberana sobre isso. A família decide e é ela quem vai assinar na hora. E família até o segundo grau (irmãos e pais – cônjugue e filhos)”, alertou a coordenadora da Central de Transplantes do Piauí.
Kátia Kalume
Em junho de 2001, aconteceu a primeira doação de órgãos no Piauí. Foi uma senhora, identificada por Kátia Kalume, que viu uma notícia em um telejornal, onde falava sobre a morte de um cantor no Rio de Janeiro, e após a morte, os órgãos dele foram doados. Ela disse que também queria fazer a mesma coisa. Um mês depois ela teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC), morreu e a família realizou o desejo dela.
Salve vidas, após não ter mais a sua!
- Foto: Divulgação
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