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Colunista Marcelle Furtado
Fisioterapeuta. Sua coluna tem foco na “Saúde em Movimento” e aborda cuidados, prevenção e bem-estar físico.
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Dormiu mal? A ciência mostra o que fazer antes de cancelar o treino

Na fisioterapia baseada em evidência, evitamos recomendações absolutas como nunca treine sem dormir bem.

Um estudo com mais de 90 mil pessoas, publicado na revista científica europeia de cardiologia, investigou como a atividade física se relaciona com o sono ruim e o risco de morte precoce. O resultado traz alívio para quem teve uma noite difícil e ainda assim pensa em se exercitar.

Você dormiu mal. A cabeça está pesada, o corpo está cansado e a primeira vontade é cancelar o treino do dia. Essa é uma reação comum, e durante muito tempo a orientação popular reforçou essa ideia: dormiu mal, não treina. Só que pesquisas recentes em fisiologia do exercício e saúde do sono mostram que essa regra é mais simples do que a realidade do nosso corpo.

Um estudo publicado em 2023 no European Journal of Preventive Cardiology, ligado à European Society of Cardiology, acompanhou mais de 90 mil adultos usando acelerômetro, um aparelho que registra o movimento do corpo ao longo do dia de forma objetiva, sem depender da memória ou do relato da própria pessoa. Essa metodologia é importante porque estudos antigos, baseados em questionários, tendem a ser menos precisos: as pessoas costumam errar a quantidade de horas que dormiram e o quanto realmente se exercitaram.

O que a pesquisa encontrou

Dormir pouco ou dormir além do recomendado já é associado, em diversos estudos, a maior risco de morte por qualquer causa. Esse dado em si não é novo. O que esse estudo trouxe de relevante foi outra pergunta: será que manter um nível maior de atividade física consegue reduzir parte desse risco, mesmo quando o sono não está adequado?

A resposta encontrada pelos pesquisadores foi sim. Pessoas que mantinham níveis mais altos de atividade física apresentaram uma atenuação dos riscos de mortalidade associados ao sono curto ou ao sono muito longo. Em outras palavras: o exercício não substitui o sono, mas funciona como uma camada extra de proteção para o corpo nos dias em que a noite não foi boa.

Por que isso faz sentido na prática clínica

Na fisioterapia baseada em evidência, evitamos recomendações absolutas como “nunca treine sem dormir bem” ou “sempre treine, independente de como você está”. O corpo humano responde a contextos, e a literatura científica reforça justamente isso: a relação entre sono, exercício e saúde é dinâmica, não uma regra fixa.

Isso não quer dizer que o sono perdeu importância. Pelo contrário: dormir bem continua sendo um dos pilares mais relevantes da saúde, ao lado da alimentação e da atividade física. O que a evidência mostra é que, quando a noite já foi ruim e não pode ser recuperada, o movimento não deixa de fazer bem ao corpo. Cancelar o treino por puro hábito, sem necessidade real, pode significar abrir mão de um benefício que ainda está disponível para você naquele dia.

O que fazer no dia a dia

A partir dessas evidências, algumas mudanças práticas de hábito fazem sentido:

● Priorize o sono sempre que possível. Nenhuma quantidade de exercício substitui uma noite de sono adequada. O primeiro passo é organizar a rotina para dormir o suficiente.

● Se a noite já foi ruim e está feita, não cancele o movimento por padrão. Avalie como o corpo está e ajuste a intensidade, mas evite eliminar a atividade física por hábito ou crença.

● Reduza a carga, não o movimento. Em dias de sono ruim, optar por uma caminhada, um treino mais leve ou uma sessão mais curta já é suficiente para manter o corpo ativo sem exigir além da conta.

● Construa consistência ao longo da semana. O benefício mostrado pela pesquisa está ligado ao nível geral de atividade física, e não a um treino isolado. O que importa é manter o corpo em movimento com regularidade, mesmo que a intensidade varie de um dia para o outro.

O essencial para guardar

Dormir mal não deveria ser motivo automático para parar de se mover. A ciência mostra que o exercício físico pode reduzir parte dos efeitos negativos de uma noite ruim sobre a saúde a longo prazo. O ideal continua sendo dormir bem e se exercitar com regularidade, mas, quando o sono falha, o movimento permanece como aliado do corpo, e não como um peso extra a ser evitado.

Referência científica

Liang YY, Feng H, Chen Y, et al. Joint association of physical activity and sleep duration with risk of all-cause and cause-specific mortality: a population-based cohort study using accelerometry.

European Journal of Preventive Cardiology, 2023. European Society of Cardiology. Exercise may reduce negative effects of unhealthy sleep duration on longevity. Press release, 30 de março de 2023.

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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