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Maia e Damião, os econômicos


*Arthur Teixeira Junior

Imagem: DivulgaçãoClique para ampliarArthur Teixeira Junior(Imagem:Divulgação)Arthur Teixeira Junior
Nunca fui uma pessoa econômica. Sempre acreditei que o dinheiro foi criado para ser gasto. Adepto ao ditado “mais vale um gosto do que um tostão no bolso”, sou um consumista inveterado. Admiro muito quem reserva uma parte de seus ganhos para poupar para um futuro (que talvez nunca chegue) ou para uma emergência qualquer (que talvez nunca aconteça). Mas nunca consegui entender a sovinice desmedida, aquele que chupa o bombom sem desembrulhá-lo para que dure mais.

Conheço duas figuras folclóricas que orgulham-se de serem econômicos ao extremo, beirando a paranóia.

O “seu” Maia mora em nossa cidade. Seu nome verdadeiro é Miguel Carlos, mas adotou a alcunha de Maia para economizar tinta de caneta toda vez que tivesse que escrever o nome. Dizem que separou-se da primeira mulher porque esta comeu uma lata de sardinha sem autorização. É comum o vermos logo nas primeiras horas da manhã, escuro ainda, despejando um líquido de garrafas Pet na sarjeta defronte sua residência. São frutos das necessidades fisiológicas da noite anterior, que ele descarta na rua para economizar a água da descarga.

A noite fica sentadinho defronte sua casa, tomando água sem gelo, espreitando o movimento, aguardando chegar um conhecido no restaurante ao lado para, sob qualquer pretexto de conversa, filar a bóia do jantar ou mesmo um copo de refrigerante. Está construindo uma casa, vizinha a que eu moro, e conseguiu fazer todo o alicerce com meio saco de cimento. Sempre freqüenta todos os sepultamentos da cidade, aguarda pacientemente o enterro e o choramingo dos familiares e amigos, para depois, quando todos forem embora, recolher as velas deixadas para o defunto e levá-las para casa, economizando luz elétrica.

Mas ninguém se compara a Damião, meu estimado colega de trabalho. Conta ele, com orgulho, que quando solteiro ainda, reciclava as camisinhas usadas em seu namoro, reutilizando-as diversas vezes. Nunca comeu carne de primeira, alegando que boi é boi do rabo ao chifre e que tudo tem o mesmo gosto. Recolhe restos de madeira de construção para substituir o gás de cozinha. Sobre a pia do banheiro, conserva uma garrafinha plástica com água, colhida da chuva, para lavar as mãos e escovar os dentes.

No final do expediente, sempre o vemos vasculhando o lixo da repartição em busca de copos descartáveis utilizados, que cuidadosamente lava para reutilizá-los, ou folhas de papel utilizadas só de um lado e descartadas, que dizem (não sei, pode ser só intriga) que ele desamassa com ferro de passar roupa e as grampeia em bloco, fazendo cadernos para estudar. Seu telefone celular, que carinhosamente chama de “pai de santo”, pois é preto, velho e só recebe, somente é recarregado no serviço, para economia de energia elétrica. No mês passado fez uma exorbitância: levou a família para passar um fim de semana em Parnaíba e gastou R$ 181,50, incluindo hospedagem, comida e gasolina. Dizem que para comemorar, comprou um único picolé de frutas, democraticamente dividido (e lambido) por toda a prole.

Imagino Maia e Damião encontrando-se para um almoço de negócios. Haja água natural, direto da Agespisa. Nenhum tomaria a iniciativa de pedir um prato qualquer, com medo de ser responsabilizado pela conta. Esvaziariam sim o saleiro, cujo conteúdo despejariam na mão em forma de concha e depois lambida. Sairiam, para desespero do garçom, sem nada mais consumirem, depois de esvaziarem o paliteiro e guardarem os guardanapos de papel nos bolsos. Iriam a pé para casa, não importa a distância que ficasse. Um pensando ter economizado mais que o outro.

*Arthur Teixeira Junior é articulista e escreve para o GP1

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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