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A imprensa livre


Por Arthur Teixeira Júnior*

Muitas vezes, quando comentamos comportamentos inadequados de políticos ou servidores públicos, seja desvio de verbas, maracutaias ou tráfico de influências (quando o ente público usa de sua posição para auferir vantagens), alguns interlocutores saudosos estufam o peito e dizem: “...no meu tempo não existia isto...”.

Referem-se, quase sempre, aos tempos sombrios da ditadura militar, que destruiu a alta estima e a coragem deste país. Mas enganam-se. Naquela época existia muito mais corrupção, roubalheira, nepotismo e todas as falcatruas do ramo. O que não existia era uma imprensa livre. Naqueles anos de chumbo, havia um sensor do governo em cada redação, nos estúdios de rádio e TV, nas coxias dos teatros, sem disfarces nas platéias dos auditórios. Com sua tesoura ideológica, estes castradores da sociedade eliminavam tudo aquilo que julgavam imoral ou inadequado para a ideologia dominante. Quantas obras não foram perdidas para sempre. Quantos artistas tiveram que fugir deste país e muitos nunca mais voltaram. Quanta criatividade foi perdida.

Enquanto os políticos, a burguesia, os militares e todos os demais bandidos que dominavam na época, roubavam esta nação, os jornais somente podiam noticiar as conquistas de nossa seleção de futebol ou as obras do milagre brasileiro. Quando não, como fazia o extinto Jornal da Tarde, do grupo “O Estado de São Paulo”, publicavam receitinhas de bolo onde deveriam haver denúncias. Era a forma que tinham para dizer que estavam sendo censurados.

Imagem: ReproduçãoArthur Teixeira Junior(Imagem:Reprodução)Arthur Teixeira Junior

A criação intelectual tem que ser manifestada sempre de forma livre, com responsabilidade. Não cabe a nós determinarmos o que nossos vizinhos vão ler, ouvir ou cantar. Toda criação tem o seu valor artístico e intelectual, que pertence ao autor, seja um Rapp, um Cordel ou uma escultura clássica. Se eu não apreciar a obra, simplesmente a desprezo.

O que não podemos, jamais, é adequar a obra de terceiros ao nosso gosto. Seria como um diretor retirar a sensualidade e malícia de uma peça de Nelson Rodrigues, e depois apresentá-la, desfigurada, como original.

O meio de comunicação, seja um jornal, um site, uma gravadora ou uma editora, tem o direito inalienável de escolher aquilo que vai divulgar. Se é uma gravadora de música Gospel, por exemplo, ela certamente recusará gravar e distribuir um CD de suingueira. Está em seu direito. O autor da suingueira que procure uma gravadora apropriada. Mas ela não pode nunca aceitar a criação artística e depois adaptá-la, sem conhecimento ou autorização do autor, ao seu estilo de pensar.

Quem se sentir ofendido, é para isto que existe a Justiça e todo o aparato da Lei de Imprensa. Mas não podemos retroagir aos anos mais sombrios de nossa cultura ou aos tempos da Inquisição.

Entretanto, embora de acordo com a posição acima, deixo de publicar um magnífico cordel de autoria de meu colega Diomilton. Nesta obra artística, de forma clara e precisa, com uma leveza sem parâmetros e com muita criatividade, Diomilton descreve, com muita poesia, a situação desesperadora de uma hipotética consumidora que procura um serviço público. Mas, infelizmente, o autor cita especificamente nosso local de trabalho. Eu poderia suprimir estes versos, mas não posso alterar uma obra sem o consentimento do autor. Deixo, pois, de divulgá-la para proteger meu colega de eventuais represálias administrativas. Eu sei o quanto isto abala a moral um servidor público.

*Arthur Teixeira Junior é funcionário público

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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