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Colunista José Trabulo Júnior
José Trabulo Júnior.
GP1

O silêncio que grita

A pior resposta diante de uma crise é a ausência de resposta. Porque o silêncio não protege. Ele acusa.

Já vi esse filme muitas vezes. Denúncia de corrupção, superfaturamento, gasto milionário sem transparência, contrato suspeito com empresa recém-criada — e o governo simplesmente finge que nada aconteceu. Nem uma nota oficial, nem uma explicação, nem um dado. Apenas silêncio. Como se ignorar a realidade fosse um antídoto contra a crise.

Acredite, eu já trabalhei em campanhas e vi de dentro o medo que muitos gestores têm da comunicação em tempos difíceis. “Se a gente comentar, vai dar mais repercussão.” “É melhor deixar a poeira baixar.” “Vamos seguir postando coisas positivas.”

Só que isso não é estratégia — é covardia institucional.

Como analista de marketing político, posso afirmar com clareza: a pior resposta diante de uma crise é a ausência de resposta. Porque o silêncio não protege. Ele acusa.

Em 2020, acompanhei um caso clássico: um governo estadual foi denunciado por contratos milionários sem licitação com empresas ligadas a aliados políticos. A imprensa local repercutiu. O Tribunal de Contas pediu explicações. A oposição gritou. E o que fez o governo? Nada. Fingiu que era invenção da oposição. Passou dias em silêncio, esperando o assunto “morrer”.

Morreu? Não. Viralizou. Se espalhou nos grupos de WhatsApp. Virou meme. Virou desconfiança. E meses depois, virou desgaste eleitoral.

O silêncio, nesse caso, custou caro — porque onde falta narrativa oficial, nasce a narrativa adversária.

Já vi também um prefeito do interior que teve a chance de se explicar publicamente sobre o atraso de salários de servidores. Ele tinha argumentos técnicos, jurídicos, até boa justificativa. Mas preferiu ignorar a imprensa e continuar postando selfie de obra. A resposta? Protesto na porta da prefeitura e a hashtag #PagueMeuSalário estampada nos comentários das redes sociais dele.

Não adiantou esconder: as redes sociais não respeitam o silêncio. Elas amplificam o que está mal explicado.

No fundo, o problema está na forma como muitos governos veem a comunicação institucional: como propaganda, e não como serviço público. Só querem falar quando têm o que vender — e se calam quando têm o que explicar.

Só que em tempos de transparência, a sociedade não quer mais só propaganda. Quer prestação de contas.

O silêncio, nesse contexto, é um erro de marketing, um erro de gestão e, acima de tudo, um erro moral.

Por isso, quando vejo governos ignorando questionamentos legítimos sobre gastos suspeitos, diárias internacionais, aditivos milionários, superfaturamento de obras mal explicadas, eu me pergunto: Será que eles acham mesmo que o povo esquece? Será que acreditam que basta continuar sorrindo na propaganda pra ninguém perceber o cheiro de coisa errada?

A verdade é que a reputação de um governo não se mede apenas pelas obras que entrega, mas também pelas crises que enfrenta — e pela forma como responde a elas.

Quem se esconde da verdade, perde autoridade.

E quem cala diante da denúncia, grita culpa em silêncio.

José Trabulo Júnior é consultor de marketing político, jornalista, cientista político, publicitário, escritor e palestrante, abordando atualmente o tema: “Narciso, a cultura do espelho”, título de seu novo livro, com lançamento previsto para outubro de 2025. Possui MBA em Gestão, Empreendedorismo e Marketing; pós-graduação em Gestão, Governança e Setor Público; pós-graduação em Novas Tecnologias, Transformação Digital e Agilidade; pós-graduação em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia; e pós-graduação em Comunicação Eleitoral e Marketing Político. Escreve  às segundas-feiras no Portal GP1.

E-mail: [email protected].

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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