Nesta quinta-feira (12), foi deflagrada pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios a Operação Blackboard, que investiga um suposto esquema de desvio de recursos públicos na Secretaria de Educação do Distrito Federal. De acordo com a apuração, mais de R$ 46 milhões podem ter sido desviados. Entre os alvos das buscas está o deputado distrital Hermeto (MDB), líder do governo na Câmara Legislativa do Distrito Federal. Mandados foram cumpridos na secretaria, na sede da CLDF e em endereços ligados ao parlamentar.

A investigação teve origem na locação de um imóvel para funcionamento de uma escola pública no Setor de Motéis. Conforme apontou o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o contrato teria sido firmado por meio de dispensa irregular de licitação e com valores superfaturados. O espaço foi alugado para abrigar o Centro de Ensino Fundamental 01 da Candangolândia e a sede da Coordenação Regional de Ensino do Núcleo Bandeirante, após o fechamento da escola original, considerada em condições precárias para reforma.

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Deputado Distrital Hermeto é alvo de busca em operação contra desvio na Educação

Segundo o MPDFT, parcela significativa dos recursos utilizados para custear a locação do novo imóvel teria origem em emendas parlamentares destinadas por Hermeto. A região administrativa da Candangolândia, onde ficam os imóveis envolvidos, é a base eleitoral do deputado e já foi administrada por ele.

O tempo também teria contribuído para revelar o suposto esquema. Passados mais de cinco anos, o mesmo prédio público que motivou a mudança está novamente no centro de um contrato de reforma firmado em 2025, estimado em cerca de R$ 12 milhões. De acordo com os investigadores, mais de R$ 19 milhões foram gastos em aluguéis de um imóvel que poderia ter sido reformado por valor menor, enquanto o edifício original permanece de pé e ainda estaria em obras.

Conforme o Gaeco, o imóvel alugado pela Secretaria de Educação pertencia à empresa Saída Sul Hospedagens Ltda., responsável também pela operação do A2 Motel. O sócio-administrador da empresa, Carlos Eduardo Coelho Ferreira, residente em São Paulo, aparece nas investigações como suposto beneficiário direto do esquema.

Ainda de acordo com os investigadores, Hermeto teria desempenhado papel central na articulação das irregularidades. A suspeita é de que o deputado tenha intermediado o contato com o então secretário de Educação, João Pedro Ferraz dos Passos, para garantir a assinatura do contrato considerado fraudulento, além de exercer influência para que o processo administrativo avançasse apesar das supostas irregularidades.

Sem anúncio no momento

Para viabilizar a mudança da escola, segundo o MPDFT, a então coordenadora regional de ensino do Núcleo Bandeirante, Ana Maria Alves da Silva, teria iniciado o processo administrativo alegando que o prédio público estava em estado crítico e condenado à demolição. A investigação aponta que não havia laudo técnico que comprovasse tal condição e que outros servidores da Secretaria de Educação teriam endossado a narrativa, permitindo a continuidade do procedimento.

Outro ponto investigado envolve o direcionamento de emendas parlamentares por meio do Programa de Descentralização Administrativa e Financeira para a Associação de Apoio à DRE do Núcleo Bandeirante, entidade ligada à investigada Ana Maria Alves. Segundo o MPDFT, mais de R$ 27 milhões em recursos públicos destinados à melhoria de escolas da rede teriam sido repassados à associação.

A investigação apura a possível prática de diversos crimes, entre eles corrupção ativa e passiva, fraude em licitação, peculato, tráfico de influência, lavagem de dinheiro e organização criminosa. As medidas cautelares foram autorizadas pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, devido à prerrogativa de foro de um dos investigados. Ao todo, foram cumpridos 31 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e nos estados de São Paulo, Goiás e Tocantins. Durante as diligências, agentes da Polícia Civil do Distrito Federal saíram da sede da Secretaria de Educação com bolsas contendo materiais apreendidos. As prestações de contas analisadas indicariam irregularidades como notas fiscais suspeitas, orçamentos de empresas sem atividade compatível e indícios de superfaturamento.

A operação contou ainda com apoio dos Gaecos dos Ministério Público do Estado de Goiás, Ministério Público do Estado do Tocantins e Ministério Público do Estado de São Paulo. O nome da ação, Blackboard, que em inglês significa “quadro-negro”, faz referência ao foco da investigação: o suposto desvio de recursos públicos destinados à educação.

O portal Metrópoles tentou contato com o deputado Hermeto, mas não houve retorno até a última atualização desta reportagem. O espaço permanece aberto para manifestação.

Nota da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal

“A Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal informa que o processo em referência tramita sob regime de sigilo, em observância às normas legais aplicáveis e à necessidade de preservação da integridade das apurações em curso.

Não obstante a natureza sigilosa dos autos, a Pasta permanece integralmente à disposição das autoridades competentes, colocando-se pronta para fornecer todas as informações e esclarecimentos que se fizerem necessários, com o propósito de colaborar de forma plena e institucional com os órgãos policiais e judiciais responsáveis pela condução das investigações e pela adequada elucidação dos fatos.”