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Ator Ary França protagoniza peça inédita de Arthur Miller

Apesar do ineditismo, quem lá estiver terá a impressão de que o argumento do afamado dramaturgo norte-americano carrega algo de vagamente familiar.

"A Descida do Monte Morgan" é uma peça de Arthur Miller que nunca havia sido montada no Brasil. Tem sua estreia marcada em São Paulo, no Teatro Nair Bello. Apesar do ineditismo, quem lá estiver terá a impressão de que o argumento do afamado dramaturgo norte-americano carrega algo de vagamente familiar.

Basta puxar pela memória. No romance de Jorge Amado, Dona Flor hesita em ceder às investidas de Vadinho, o marido morto, que resolve reaparecer. A viúva, àquela altura, já estava casada com outro, um farmacêutico de bom coração. Mas Vadinho, no fim das contas, era só um espírito. Que mal poderia haver? Ela consegue, assim, conciliar o amor avassalador e febril de um com o afeto seguro e pacífico que o outro lhe oferece.

Em "A Descida do Monte Morgan", o protagonista Lyman é capaz exatamente da mesma proeza. Constrói uma vida que não abre mão nem do equilíbrio nem da paixão. A diferença é que nenhuma de suas mulheres é um espírito. As duas estão vivas. E, para seu terrível infortúnio, acabaram de se conhecer.

Imagem: Leandro Ferreira/AAN O protagonista Ary França brinca com o elenco do espetáculo durante entrevista(Imagem:Leandro Ferreira/AAN) O protagonista Ary França brinca com o elenco do espetáculo durante entrevista

O marido bígamo, vivido na atual montagem por Ary França, sofreu um acidente. Espalhada a notícia, Leah e Theodora correrem ao hospital para vê-lo. Mas, ainda na sala de espera, ambas descobrem que estão casadas com o mesmo marido.

É precisamente nesse ponto que Miller começa a dar indícios das particularidades de sua obra. Aqui, não há o realismo fantástico de Amado para apaziguar os dramas de consciência. Existe humor, mas cada riso tem um travo amargo. O imbróglio conjugal abre caminho para questionamentos existenciais. Perguntas que o dramaturgo norte-americano faz questão de não responder: como seguir o próprio desejo sem nublar o desejo de quem está ao redor?

"Não há coerência. Não há resposta definitiva. Ele te dá pistas. Mas não sabemos nem no que ele, como autor , acredita", observa o diretor Luiz Villaça - cineasta responsável por filmes como "O Contador de Histórias" (2009) e "Cristina Quer Casar" (2003) e que faz agora sua segunda incursão pelo teatro. "Quando resolvi montar a peça, fiz algumas leituras do texto com atores. E não houve uma única ocasião dessas que não tenha acabado com uma grande discussão. Todo mundo sem saber até que ponto ele estava certo ou errado."

Arthur Miller construiu um protagonista sedutor, ambíguo. Quanto mais conhecemos de suas motivações, suas dúvidas e seus afetos, mais difícil se torna tomar partido. "Como em todo bom texto, não existe um posicionamento moral desse personagem. Apenas ele se colocando diante da plateia, se perguntando se está fazendo a coisa certa ou não", diz Ary França. "O seu fascínio, aliás, está justamente aí. É alguém que se culpa, às vezes. Mas, faria tudo de novo se fosse preciso."

Menos conhecido que outros títulos, como "A Morte do Caixeiro Viajante" e "Panorama Visto da Ponte", "A Descida do Monte Morgan" foi escrito tardiamente, em 1991. "Acaba sendo uma reavaliação da vida. Tenho certeza de que muito do que está ali tem a ver com o Miller", considera Villaça. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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