A crise política na Bolívia ganhou novos contornos nesse sábado (16), após apoiadores do ex-presidente Evo Morales bloquearem o aeroporto de Chimoré, no departamento de Cochabamba, em uma tentativa de impedir uma eventual operação policial para prender o ex-mandatário.
Morales é alvo de processos judiciais e possui três ordens de detenção em aberto. Ele responde a acusações de abuso sexual e tráfico de pessoas, relacionadas a denúncias de supostos fatos ocorridos em 2015 envolvendo uma adolescente. O ex-presidente nega as acusações e sustenta que sofre perseguição política.
Segundo informações da imprensa boliviana, manifestantes espalharam pedras, galhos e outros obstáculos na pista do aeroporto para impedir pousos e decolagens, dificultando uma eventual chegada das forças de segurança. Um dos líderes dos protestos, Teófilo Sánchez, afirmou que os apoiadores estão dispostos a defender Morales “mesmo que custe vidas”.
Cochabamba é considerado o principal reduto político e sindical de Morales e já foi palco de ocupações semelhantes desde a crise de 2019, quando o ex-presidente deixou o país após perder apoio das Forças Armadas em meio a denúncias de fraude eleitoral.
Nos últimos dias, os chamados “evistas” passaram a integrar uma onda de manifestações iniciada por sindicatos, movimentos sociais e setores camponeses que exigem a renúncia do presidente Rodrigo Paz, eleito no ano passado.
Os protestos se intensificaram com o bloqueio de rodovias estratégicas em várias regiões do país, afetando o abastecimento de alimentos, combustíveis, medicamentos e oxigênio hospitalar, especialmente em La Paz e na vizinha El Alto.
Diante do agravamento da situação, o governo boliviano lançou neste sábado a operação “Corredor Humanitário”, mobilizando cerca de 2.500 policiais e 1.000 militares do Exército para liberar estradas e garantir a circulação de suprimentos essenciais.
A ação terminou em confrontos em diferentes pontos do país. Manifestantes lançaram pedras, explosivos improvisados e dinamites contra agentes de segurança e jornalistas, enquanto policiais reagiram com gás lacrimogêneo para dispersar os bloqueios.
De acordo com a Defensoria do Povo da Bolívia, ao menos 57 pessoas foram presas durante a operação. Após horas de tensão, forças de segurança recuaram parcialmente de uma das principais rodovias para evitar confronto direto com uma marcha de centenas de apoiadores de Morales que seguia em direção à capital.
Autoridades bolivianas também informaram que pelo menos três mulheres morreram após não conseguirem atendimento médico a tempo por causa das estradas bloqueadas.
A escalada da crise provocou reação internacional. Em declaração conjunta, governos da Argentina, Chile, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, Panamá, Paraguai e Peru manifestaram preocupação com a situação humanitária e condenaram ações que possam desestabilizar a ordem democrática no país.
O comunicado reafirma apoio ao governo constitucional boliviano e defende o diálogo institucional como saída para o impasse.
O governo acusa Morales de liderar um plano para provocar ruptura institucional, supostamente financiado pelo narcotráfico e articulado a partir de Cochabamba. O porta-voz presidencial, José Luis Gálvez, afirmou que as autoridades investigam a origem dos recursos usados para sustentar os protestos.
Na semana passada, Morales declarou que uma suposta operação conjunta entre o Exército boliviano e a agência antidrogas dos Estados Unidos (DEA) estaria sendo preparada para prendê-lo — afirmação que ainda não foi confirmada oficialmente.
Wanessa Gommes
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