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Brexit e pandemia provocam crise de abastecimento no Reino Unido

Frutas e verduras estão apodrecendo nos campos por falta de trabalhadores para a colheita.
Por Estadão Conteúdo

O Reino Unido atravessa a pior crise de oferta em mais de meio século. Unidades do McDonald’s pararam de servir milk-shake. Franquias da Nando’s e do KFC tiveram de fechar por falta de frango. A BP fechou postos de combustível por falta de gasolina e diesel. Frutas e verduras estão apodrecendo nos campos por falta de trabalhadores para a colheita.

Tudo isso vem ocorrendo por duas razões: Brexit e covid-19. Desde o início da pandemia, um milhão de trabalhadores deixaram o Reino Unido, e muitos não voltaram – o pior declínio demográfico desde a 2.ª Guerra. Quem puxa a fila são os caminhoneiros do leste europeu.

Segundo a Road Haulage Association (RHA), há 100 mil motoristas a menos do que os 600 mil que havia antes da pandemia. O resultado é um nó de logística.

“Cerca de 95% de tudo o que recebemos no Reino Unido chega no contêiner de um caminhão”, disse Rod McKenzie, diretor da RHA. “Então, se não houver caminhões circulando em número suficiente, haverá menos coisas sendo entregues.”

A combinação de pandemia e novas regras de imigração – após o Brexit – deixou setores-chave sofrendo de intensa escassez de mão de obra. A queda em ritmo recorde da oferta de emprego aumentou os salários médios, mas criou um problema incomum: as empresas não conseguem preencher as vagas deixadas pelos imigrantes.

A crise afetou o agronegócio. Frutas foram deixadas apodrecendo nas fazendas, matadouros têm dificuldade para processar a carne de porcos e galinhas e as entregas de leite estão atrasadas. Segundo associações do setor, os problemas não decorrem da falta de produtos, mas sim de trabalhadores para colher, processar e transportar os alimentos.

A União Nacional dos Fazendeiros e a Federação de Alimentos e Bebidas estimam que há mais de 400 mil vagas não preenchidas no setor, de fazendas, fábricas de processamento de carne e cozinhas de restaurantes. Em julho, a Barfoots, uma das maiores produtoras de alimentos do Reino Unido, jogou fora 500 toneladas de abobrinha porque não conseguiu encontrar trabalhadores para a colheita. “Estamos com a água no pescoço”, disse Julian Marks, diretor da empresa.

Falta de mão de obra preocupa

O problema, no entanto, não fica restrito à colheita. De acordo com Marks, não há mão de obra para conduzir tratores, operar maquinário ou controlar a qualidade do produto. “Estamos operando com 10% a 15% a menos de mão de obra a maioria dos dias.”

Na semana passada, o McDonald’s anunciou que estava sem milk-shakes e várias bebidas engarrafadas. A Nando’s fechou 50 de seus 450 restaurantes por falta de frango. Pelo mesmo motivo, a KFC retirou alguns itens do menu.

Os gargalos também atingiram suprimentos médicos. Com a falta de tubos para coleta, o Sistema Nacional de Saúde (NHS) restringiu em 25% o número de exames de sangue. “É urgente que a demanda seja reduzida ao máximo para que o NHS possa lidar com seu estoque cada vez mais limitado de frascos”, disse a direção, em carta enviada a médicos e hospitais.

Em agosto, a British Petroleum (BP) fechou temporariamente alguns postos de combustível por falta de gasolina e diesel. A empresa assegurou que o problema era localizado e restrito a poucas unidades, mas o pânico em muitas partes do país provocou uma corrida para encher o tanque.

Outro exemplo de como Brexit e pandemia trabalharam juntos para a escassez foi a interrupção das importações de papel e fibra da União Europeia, que provocaram o fechamento de fábricas e causaram falta de copinhos de café e de refrigerante. Ao mesmo tempo, o aumento da demanda global por caixas de papelão, por causa do da explosão do consumo online, este uma consequência da covid, também afetou o equilíbrio do mercado.

Natal sob ameaça

Advertências também foram feitas para problemas de logística que podem atrapalhar a chegada de brinquedos no Natal, minando um pouco do otimismo da recuperação da economia após sucessivos lockdowns para tentar conter a circulação do vírus.

A rede de supermercados Iceland, que conta com mais de 900 unidades no Reino Unido, recomendou que os varejistas aumentassem seus estoques imediatamente. O diretor administrativo da empresa, Richard Walker, disse à BBC que vem registrando de 30 a 40 cancelamentos de entregas por dia. “Isso está afetando diariamente a cadeia de oferta”, afirmou.

O governo do primeiro-ministro, Boris Johnson, que fez campanha pelo Brexit, até agora rejeitou todas as sugestões de que a crise tenha relação com a saída da UE. Apesar da pressão de empresários e agricultores, Johnson se recusa a mudar a política de concessão de vistos para permitir a entrada de mais imigrantes – um tema central do Brexit.

A ironia é que a situação, embora agravada pela covid-19, é exatamente o que ambos os lados disseram que aconteceria durante o referendo de 2016. Os ativistas pela saída da UE prometiam que os salários ficariam mais altos, enquanto os que defendiam a permanência alertavam sobre a escassez de alimentos e gargalos na logística de abastecimento.

Até agora, entre as poucas medidas concretas que o governo britânico tomou para diminuir a escassez de mão de obra estão o aumento do número de horas que os motoristas podem trabalhar por dia e iniciativas para recrutar novos motoristas – ambas são consideradas insuficientes pelo setor de transporte e logística, que pedem a criação de 10 mil vistos sazonais para caminhoneiros – semelhante ao programa para trabalhadores agrícolas.

A Câmara de Comércio Britânica afirma que a falta de pessoal prejudicará o crescimento da economia nos próximos meses. A Confederação de Recrutamento e Emprego (REC), que representa empresas e agências de emprego, alertou esta semana que o problema pode durar até dois anos, e dados recentes apontam para um agravamento da situação.

Os empregadores adicionaram 200 mil anúncios de empregos só na última semana de agosto, e o REC estima que o total de vagas seja de quase 1,7 milhão. “A demanda por trabalhadores permanece alta”, disse o diretor da REC, Neil Carberry. “Com os setores de alimentação, logística e hotelaria enfrentando dificuldades, apesar da proximidade do Natal, os próximos meses serão ainda mais difíceis.”

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