Economia e Negócios

Bolsonaro sanciona lei que dá 12 meses para reembolso de passagem aérea

Possibilidade de saque do FGTS para aeronautas e aeroviários foi vetada; nova regra acaba com o adicional de US$ 18 na tarifa de embarque internacional.

Por  Estadão Conteúdo

O presidente Jair Bolsonaro sancionou na noite de terça-feira, 5, com três vetos, a conversão em lei da medida provisória de socorro ao setor aéreo. Apesar de ter vetado a possibilidade de saque do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para aeronautas e aeroviários, Bolsonaro manteve no texto a previsão de uso do Fundo Nacional de Aviação Civil (Fnac) para empréstimos ao setor e o fim do adicional de US$ 18 cobrados na tarifa de embarque internacional a partir do ano que vem. A lei foi publicada no Diário Oficial da União desta quinta-feira, 6.

Positivas para o setor e inseridas na MP pelo Congresso, as duas iniciativas não tinham destino certo durante as discussões sobre a sanção da medida, pois precisavam passar pelo crivo da equipe econômica. Como mostrou o Estadão no fim de julho, o Ministério da Economia ainda fazia contas sobre como viabilizar a extinção do adicional a partir de 2021, já que em anos regulares essa taxa gera arrecadação de R$ 700 milhões ao governo.

A pauta, no entanto, era defendida pelo Ministério da Infraestrutura há tempos, e chegou até mesmo a ser anunciada por Bolsonaro em suas redes sociais no ano passado. Na pasta comandada por Tarcísio de Freitas, a extinção da taxa tornou-se ainda mais prioritária com a chegada da pandemia, que afeta bruscamente o transporte aéreo, principalmente os voos internacionais.

Enxugar o custo do bilhete é visto como uma medida relevante para fomentar a retomada das viagens para o exterior, além de ter potencial de atrair as empresas aéreas low cost. Nos voos com destino a países da América Latina, esse adicional de US$ 18 pode representar até 20% do preço da passagem.

Os recursos do adicional alimentam o Fundo Nacional de Aviação Civil (Fnac), criado com a missão de fomentar o setor. Nota técnica do Ministério da Infraestrutura mostrou, no entanto, que atualmente mais de 60% dos recursos do Fnac vêm sendo alocados para ajudar o governo a fechar as contas. Atualmente, o fundo conta com R$ 20,8 bilhões.

Empréstimos

O uso de recursos do Fnac para ser objeto e garantia de empréstimo ao setor de aviação até o fim do ano, como previsto pelo Congresso na medida, também quase esbarrou na equipe econômica. A ideia de utilizar o fundo para essa finalidade nasceu no Ministério de Infraestrutura, mas, como mostrou o Estadão, técnicos apontaram que a estruturação das garantias dependeria de um aporte do Tesouro, já que se trata de um fundo contábil. Ao fim, a iniciativa não foi vetada.

A lei sancionada por Bolsonaro estabelece que poderão acessar esse crédito as empresas concessionárias de aeroportos, as aéreas e as prestadores de serviço auxiliar de transporte aéreo. Todas precisam comprovar terem sofrido prejuízo decorrente da pandemia. O texto também define parâmetros para os limites de taxa de juros, carência e prazo de pagamento, que precisarão ser regulamentados pelo governo.

Reembolso

A medida foi originalmente editada pelo governo em março para dispor regras sobre o reembolso e cancelamento de passagens na pandemia, além prorrogar o prazo para as concessionárias de aeroportos pagarem parcelas de outorga à União.

Com o texto, as companhias aéreas têm um prazo de até 12 meses para devolver aos consumidores o valor das passagens compradas entre 19 de março e 31 de dezembro de 2020 e canceladas em razão do agravamento da pandemia. Se o consumidor não quiser o reembolso, a lei prevê que o passageiro terá a opção de receber um crédito, ao invés do valor em dinheiro, a ser utilizado por 18 meses. Na proposta original do governo esse prazo era menor, de 12 meses.

FGTS

O presidente alegou que, apesar de ser “meritória”, a possibilidade de saque do FGTS para aeronautas e aeroviários colocaria em risco a sustentabilidade do fundo, o que prejudicaria investimentos novos e em andamento nos setores de habitação popular, saneamento e infraestrutura urbana.

Em despacho, o Planalto também alegou ser impossível atender ao pleito que beneficia um setor específico “em detrimento dos demais, impactados em maior ou menor grau pela pandemia”.

Como revelou o Estadão, a Caixa, que gere o FGTS, alertou durante a tramitação da MP que a previsão de saques teria um impacto de R$ 1,4 bilhão no fundo. Após essa manifestação, o relator da MP na Câmara, deputado Arthur Maia (DEM-BA), manteve a iniciativa no texto, mas reduziu os limites do que poderia ser sacado. Mesmo com a mudança, a liberação acabou sendo vetada por Bolsonaro.

Segundo o texto barrado, os trabalhadores do setor que tivessem os contratos suspensos em razão da pandemia poderiam fazer até seis saques mensais de no máximo três salários mínimos (R$ 3.135,00). Nos casos de redução de salários, os seis saques seriam limitados a um salário mínimo (R$ 1.045,00) por mês.

A previsão dos saques era comemorada na aviação, fortemente afetada pela crise do novo coronavírus. Uma das três grandes companhias que operam nacionalmente, a Latam vai demitir 2,7 mil pilotos, copilotos e comandantes nos próximos dias.

Bolsonaro ainda vetou dois outros dispositivos relacionados ao cronograma de outorgas pagas pelas concessionárias de aeroportos ao governo federal para explorar o serviço. O texto oferece melhores condições para a reprogramação do pagamento dessas parcelas, e permitia a substituição da outorga fixa pela outorga variável. Essa troca, no entanto, foi barrada do texto. Na justificativa, o Planalto afirmou que haveria dificuldades operacionais para viabilizar a medida, com "elevados custos regulatórios".

No mesmo tema, o presidente vetou trecho segundo o qual, em 2020, os efeitos orçamentários e financeiros da reprogramação das outorgas seriam compensados pela devolução total ou parcial de recursos transferidos para a Infraero.

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