Teresina - PI

Minha filha morreu com fome, diz mãe de criança morta por PM's em Teresina

"Eu disse: ‘moço, pelo amor de Deus, aqui só é família, minha filha, pare de atirar’. Ele [PM] disse: vagabunda, por que tu não parou esse carro, vagabunda?’”, descreveu.

BRUNNO SUÊNIO E NAYRANA MEIRELES

- atualizado

A mãe da pequena Emilly Caetano da Costa, de 9 anos, morta a tiros em uma abordagem da PM, relatou momentos de terror que viveu com o esposo, o cantor Evandro Costa, e as três filhas na noite de natal, na zona leste de Teresina. Ao GP1, Dayanne Caetano afirmou que pediu a Deus para que os policiais parassem de atirar, enquanto Emilly estava desfalecida dentro do carro, ao lado da outra irmã de 8 anos.

“A gente vinha da casa de um colega dele [Evandro] e estava indo no sentido do Dirceu, por que a minha filha, que faleceu, queria um açaí, por causa desse açaí a gente estava andando. O Evandro fez um percurso no balão (do São Cristóvão) e quando foi virar o carro, ele subiu no meio-fio. Tinha uma viatura parada, que começou a seguir a gente, aí o Evandro percebeu e ficou nervoso, pois a gente ‘tava’ andando com a neném e não tinha o bebê conforto. O Evandro disse assim: ‘eu vou acelerar, pois senão a gente vai pegar multa’. Quando ia chegando pertinho, ela [PM] soltou a sirene e o Evandro já tinha dado sinal de alerta e parado. O policial começou a disparar mais de 10 tiros no nosso carro, com a gente dentro, parado. Um rapaz que ‘tava’ na hora e viu tudo ainda falou para [a polícia] não atirar. Quando eu saí do carro eu já ‘tava’ baleada e minha filha já estava ensanguentada. Eu disse: ‘moço, pelo amor de Deus, aqui só é família, minha filha, pare de atirar. Ele [PM] disse: vagabunda, por que tu não parou esse carro, vagabunda?’”, descreveu.

  • Foto: Facebook/Dayanne EvandroEmílie (no centro) morreu no Hospital de Urgência de TeresinaEmílie (no centro) morreu no Hospital de Urgência de Teresina

Muito abalada, Dayanne disse ainda que estava com a bebê de 8 meses no colo, quando pediu para polícia parar de atirar.

Investigações

Já na manhã desta terça-feira (26), Dayanne foi ouvida pelo delegado Barêtta, que iniciou as investigações sobre o caso.

"Eu já determinei a abertura do inquérito, já requisitei exame de corpo e delito na mulher [mãe], que foi ferida, o exame cadavérico e também exame no local do fato criminoso. O carro já está na dependência do instituto de criminalística, já foram recolhidos alguns estojos de munição .40 que foi utilizado lá e a gente vai apurar para verificar as circunstâncias que ocorreram o fato. Se houve excesso por parte dos policiais militares na abordagem ou se eles realmente agiram conforme manda a lei. O fato é que nós temos que apurar. Já mandei buscar algumas testemunhas e pegar câmeras que têm no local", afirmou.

  • Foto: Nayrana Meireles/GP1Delegado BarêttaDelegado Barêtta

‘Minha filha morreu com fome'

Durante o depoimento ao delegado Barêtta, Dayanne relatou que a filha morreu porque estava com fome. “Ela disse que vinha da casa de um amigo que tá doente, tinha ido visitá-lo. Aí disse que a menina que morreu falou: 'eu tô com fome'. Aí ela [Dayanne] disse mais o marido: ‘pois vamos comer um açaí lá no Dirceu’. Ela [Dayanne] tava chorando aqui, dizendo: 'minha filha morreu com fome”, contou.

Barêtta garante investigação criteriosa

"Tudo vai ser apurado durante o inquérito policial, vamos solicitar todas as informações ao Comando Geral da Polícia Militar, bem como a Corregedoria da Polícia Militar. Eu soube que eles foram autuados em flagrante pela Corregedoria da Polícia Militar, não é nenhum tipo de crítica, mas eu acho que eles deveriam ter sido levados para a Central de Flagrantes, porque lá tem um delegado de polícia para isso, mas isso é uma questão interna deles lá, mas nós não vamos deixar de cumprir o nosso dever constitucional", concluiu.

O que disseram os policiais envolvidos na ação

Em entrevista ao GP1, o comandante de Policiamento da Capital, coronel Wagner Torres contou, com detalhes, sobre o depoimento do cabo F. Alves, motorista da viatura, de como ocorreu tudo: “Ele [F. Alves] disse que por volta das 23h30, estava fazendo rondas na zona leste, precisamente, na Avenida Nossa Senhora de Fátima, quando foi abordado por um cidadão, dizendo que elementos em um carro tentaram roubar ele. De imediato ele [F.Alves] saiu e, em diligência, encontrou um veículo com as características semelhantes a desse transeunte. Iniciou-se uma perseguição e, de repente, esse veículo saiu em destino da BR 343. Próximo da concessionária Alemanha, esse veículo parou e os dois policiais desceram. O soldado Dornel disparou alguns tiros em direção a esse veículo. Segundo o cabo F. Alves, o policial Dornel efetuou cinco tiros e ele deu dois tiros para cima”, contou o coronel Wagner Torres.

  • Foto: Nayrana Meireles/GP1Coronel Wagner TorresCoronel Wagner Torres

Ainda segundo o coronel, os policiais foram conduzidos para Corregedoria da PM, autuados em flagrante, e vão responder por essa abordagem desastrosa. “Com certeza não foram esses ensinamentos que eles tiveram em suas formações. O procedimento correto era para terem continuado a perseguição, terem solicitado o apoio de outras viaturas, e quando chegassem ‘lá’ era para pararem na retaguarda, pedido para o condutor sair do veículo. Era para ser dessa forma e não chegarem atirando”, finalizou.

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