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Caminhada da Fraternidade: 16 anos plantando e colhendo através do Amor

O primeiro kit a ser vendido tinha apenas camisa e boné, incrementado em 2003, na caminhada "Este é o meu caminho" no dia 15 de junho daquele ano.

A Igreja católica celebra amanhã (12) a festa de pentecostes, para os católicos a visita do Espírito Santo aos discípulos representa a vontade de Jesus Cristo em ver a Igreja continuando com sua missão que é espalhar a misericórdia e o perdão; implantar a justiça e a paz e principalmente ensinas a todos os seres humanos a linguagem do amor. E é com esse amor e com a vontade de espalhar a misericórdia, a solidariedade, fraternidade que cerca de 70 mil pessoas deixarão suas residências amanhã para participar da 16ª edição da Caminhada da Fraternidade em Teresina.

Imagem: do GP1Nati e Loira não perdem uma edição da Caminhada da fraternidade(Imagem:do GP1)Nati e Loira não perdem uma edição da Caminhada da fraternidade

Gente como as donas de casas, Maria da Natividade Pereira, a dona Nati que tem 63 anos, e a Maria de Moura Luz (73), conhecida como Loira, irão participar de mais uma edição desse ato de solidariedade, que é a Caminhada da Fraternidade. As vizinhas e amigas fazem parte de um grupo de caminheiros, que em 1996 decidiram que não mais esperariam pelo poder público para ajudar pessoas portadoras do vírus HIV. “ Lembro do padre Tony Batista visitando algumas comunidades avisando que iria inovar e realizaria uma caminhada ajudar os aidéticos. Ele não precisou andar em todas as paróquias, porque a notícia foi se espalhando de comunidade em comunidade.” Lembra Dona Loira. “ No início nem todo mundo abraçou a causa, pelo contrário, poucas pessoas sabiam os sintomas da Aids e sua forma de contágio, existia o receio de manter contato com os portadores do vírus. Até que o padre foi passando confiança e credibilidade aos paroquianos e a gente foi abraçando essa causa. Eu pelo menos não participei da primeira edição da caminhada, a Loira foi, mas eu não. Só a partir da segunda mudei minha visão e decidir participar, tanto que hoje ajudo nas vendas dos kits aqui na minha comunidade , no bairro Itaperu”, relata Dona Nati.

Como tudo começou

Além de Nati e Loira, pouca gente sabe ou lembra de como tudo começou. Em 1995 por volta de meia noite ao retorna da Igreja, numa Quinta-Feira Santa, o mentor da Caminhada da Fraternidade, Padre Tony Batista, retornava para sua residência quando viu uma mulher em um ponto de ônibus e resolveu deixá-la em sua casa, no bairro Cabral. Quando retornava para sua casa, o padre flagrou uma briga de travesti na Avenida Frei Serafim, centro de Teresina. Ao parar para observar a confusão um deles reconheceu o pároco e disse que mesmo ferido não necessitava da sua ajuda. “O jovem disse que eu assistia a meu programa, “Sinal de Deus”, e me chamou de hipócrita. Porque naquele ano a Igreja lembrava os excluídos através da Campanha da Fraternidade da CNBB, com o tema “A Fraternidade e os Excluídos” e como lema: “Eras tu, Senhor?”, e de acordo com ele em nenhum momento eu falei deles, os homossexuais”, relembra.

A partir desse chamado de Deus, como o próprio padre chama aquela noite, ele resolveu abrir o Lar da Fraternidade para os portadores do vírus do HIV. “ Chamei a Irene Nogueira e a Emília Nunes para corremos atrás e ajudar esse grupo. Irene foi convidada para coordenar o Lar da Fraternidade, enquanto eu e Emilia buscávamos apoio financeira ou qualquer ajuda para manter aquela Casa. Depois de tudo pronto tivemos que deixar nossa sede, localizada no bairro Planalto Uruguai porque os vizinhos quebraram portas e as janelas quando souberam que o Lar da Fraternidade era um abrigo de soros-positivos”, afirmou Tony Batista.

Enfrentando as dificuldades

E não foi somente o preconceito da vizinhança que os idealizadores do Lar da Fraternidade tiveram que enfrentar. Em suas residências, parentes e familiares também eram contras o contato deles com os portadores do HIV. “ Todos acreditavam que a doença era transmitida por uma perto de mão, um abraço e eu questionava a Irene se ela deveria mesmo trabalhar naquele lugar. Até que ela me mostrou a realidade dos beneficiados com o Lar da Fraternidade e decidir que também iria fazer minha parte para ajudar. Hoje trabalho vendo os kits”, diz Valdir Nogueira, esposo de Irene Nogueira.

Imagem: do GP1Marido e Mulher trabalham juntos na Caminhada(Imagem:do GP1)Marido e Mulher trabalham juntos na Caminhada

Outra dificuldade enfrentada foi a manutenção do Lar e os gastos com a alimentação e medicação. Foi quando Pe. Tony Batista, Irene e Emilia pensaram na campanha “ Adote um paciente com Aids”, a idéia era sensibilizar os empresários teresinenses para custear um novo medicamento que havia surgido para os portadores. O coquetel como ficou conhecido a época era muito caro e de dez pessoas atendidas no Lar da Fraternidade apenas quatros foram adotadas. Foi quando o padre Tony Batista soube através do médico Carlos Henrique Nery Costa de uma caminhada realizada nos Estados Unidos, onde as pessoas pagavam pelos quilômetros andados por celebridades, e o dinheiro arrecadado era doado para instituições de caridade. Com algumas adaptações, foi idealizada a Caminhada da Fraternidade, com as pessoas caminhando pela solidariedade e ajudando a manter o Lar da Fraternidade com a aquisição de uma camisa.

Plantando as sementes


A primeira semente da solidariedade foi plantada em 23 de junho de 1996, com o tema “Inspirar amor e segurança sem pegar AIDS”, três mil pessoas saíram da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, na zona Leste e seguiram em direção à igreja São Benedito. A contribuição das pessoas acontecia da seguinte forma: “elas deveriam procurar seus patrocinadores ali mesmo, na rua, para serem pagas por cada quilometro que andassem, houve muito desvio de recurso.” Lembra Tony.

Imagem: do GP1Padre Tony Batista(Imagem:do GP1)Padre Tony Batista

No ano seguinte o Padre Tony Batista em conversa com a equipe decidiu iniciar com a celebração no Adro da Igreja São Benedito e encerrar na Igreja de Nossa Senhora de Fátima. Em um ano o número de participantes triplicou mostrando que “ Caminhar era preciso”, tema da segunda edição da Caminhada da Fraternidade em 1997, nesse mesmo ano surgiu a idéia de transforma o patrocínio em algo mais elaborado, sendo criados os kits( bonés, camisas) que trazem a logomarca de empresas e instituições públicas e privadas e são vendidos a população. Até o terceiro ano da macha, os recursos eram investidos apenas no Lar da Fraternidade e foi neste mesmo período que outras instituições passaram a receber doações das vendas dos kits. Era “ O despertar para a vida”, tema da terceira marcha.

Após 1998, a Ação Social Arquidiocesana (ASA) abraçou outras causas, projetos, bandeiras e outras pessoas também carentes da solidariedade humana foram lembradas. A ASA acreditou na força da fé e aceitou o desafio de ousar ainda mais multiplicando seus esforços de mobilização, através do engajamento de todos os seus programas, projetos e serviços, nessa construção de uma Cultura de Vida, orquestrada nas ruas pela batida dos corações das pessoas, movidas por uma atitude de pleno amor. Estamos na virada do século (2000) e a Caminhada da Fraternidade aborda “ um novo milênio sem exclusão” .

O primeiro kit a ser vendido tinha apenas camisa e boné, incrementado em 2003, na caminhada “Este é o meu caminho” no dia 15 de junho daquele ano, com uma sacolinha para os caminhantes guardarem sua garrafa de água e os pertences. Já no ano seguinte, “Cultivar o amor é preservar a vida”, em 20 de junho de 2004, o kit agora ganha um novo modelo de chapéu, para os que preferissem o modelo ao invés do boné.

Entre os anos de 2000 a 2010, os temas da Caminhada da Fraternidade estiveram ligados ao temas da Campanha da Fraternidade, a realidade de exclusão social em Teresina, a luta pelos direitos humanos e preservação do meio ambiente e a paixão nacional: o futebol. Segundo o padre Tony Batista, presidente da Ação Social Arquidiocesana (ASA), o tema deste ano foi escolhido para acompanhar a Campanha da Fraternidade da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), que vem este ano com o tema Fraternidade e a Vida no Planeta". Como explica o padre, o meio ambiente é um tema que está em alta, e deve ser acompanhado pela discussão em torno da vida como um todo. "A vida é dom de Deus e tem que vir em primeiro lugar, mas também temos que ter amor pelo planeta, que é a nossa casa", explica.
Em todas as suas edições, a Caminhada da Fraternidade simbolizou um desfile de cidadania, que além de recursos financeiros para a manutenção dos diversos serviços, programas e projetos da ASA, fortalecem o compromisso ético e a opção preferencial, intransferíveis, pela Vida, expresso do começo ao fim da Caminhada.

Colhendo os frutos

Nestes 16 anos de Caminhada da Fraternidade, a arrecadação aumento bastante de R$ 24,622,21conseguidos desde a primeira edição do evento, o dinheiro aumento para R$ 338,063,76 arrecadados somente no ano passado. Toda a verba arrecadada com a venda dos kits será repassado para diversas instituições de caridade da capital piauiense, como:

Lar da Fraternidade - uma casa de apoio aos portadores de HIV/AIDS (Lar da Fraternidade) que atende atualmente 280 pacientes (homens, mulheres, crianças), internos ou em acompanhamento. O Lar da Fraternidade tem o objetivo de amparar no amor de Deus, portadores de HIV/AIDS, independente de credo religioso, excluídos pela família e caracterizadamente carentes, oferecendo melhoria na qualidade de vida, através de moradia digna, alimentação equilibrada com acompanhamento dietoterápico, assistência médico-farmacêutica, assistência sócio-psicológica, enfermagem, atividade física, lazer, assistência espiritual cristã e o que é mais importante a reinserção familiar do portador);

Centro Maria Imaculada - Centro Maria Imaculada de Reabilitação de Hansenianos desenvolve um trabalho de fundamental importância no processo de reabilitação do portador desta enfermidade, buscando além da cura, o fim do preconceito,.
Lar de Misericórdia - Lar de Misericórdia, inaugurado em dezembro de 1996, surgiu com o propósito de abrigar pessoas carentes que vêm em busca de tratamento de saúde em Teresina. O Lar possui infraestrutura para acomodação dos doentes, bem como dos seus acompanhantes.);

Pastoral do Menor - O Projeto Periferia, mantido pela Ação Social Arquidiocesana, com 17 anos de atuação junto às regiões mais carentes de Teresina, desenvolvendo ações de promoção e garantia da proteção integral de crianças e de adolescentes em suas próprias comunidades.

Casa Frederico Ozanam
- é uma entidade de caráter beneficente e de assistência social, sem fim lucrativo. Seu objetivo principal é amparar pessoas idosas, proporcionando-lhes uma vida digna.

Legião de voluntários

Mas apara que tudo possa dar certo, um batalhão de voluntários é mobilizado antes do grande dia. Atualmente cerca de 500 pessoas trabalham sem receber nem o vale transporte para se locomover nos preparativos da Caminhada. São pessoas que fazem parte das equipes de som, água, transporte coletivo. Fora da equipe da organização outro batalhão de pessoas se movimenta nas comunidades para tornar cada ano da Caminhada um evento a parte e que possa ficar marcado na vida de cada teresinense que participa desse ato de amor e solidariedade ao próximo. De acordo com o padre Tony Batista, a paróquia Nossa Senhora de Fátima, na zona leste de Teresina é a que mais vende kits e a segunda campeã em solidariedade fica localizada na zona mais pobre de Teresina, paróquia São Joaquim, zona norte da capital. “ Para mi é o sinal de que pobre e ricos abraçaram a Caminhada, é a prova de que não existe distinção de classe, raça, ou cor para ajudar ao próximo”, diz o pároco.

Fato marcante durante na Caminhada

Todas as pessoas que participam da Caminhada são unânimes em dizer que sentem uma emoção indescritível ao participar da Caminhada, ver idosos, pessoas doentes, em cadeiras de rodas, paraplégicos, loucos, pais e mães com seus filhos recém-nascidos ou com carrinhos, é gratificante e muitas vezes impressiona. “Mas com certeza um dos momentos mais emocionantes com certeza foi quando uma mulher entrou em trabalho de parto durante o percurso e lá mesmo deu a luz. Para nós é um sinal de vida, sinal de Deus dizendo que estamos no caminho certo e precisamos continuar”, relembra Emilia Nunes.

“O dia da Caminhada é o evento que mais me emociona. De cima dos trios, dos prédios, das árvores e dos lugares mais alto que consigo fotografar a paisagem que enche a lente da minha Câmera já me fez chorar e rir. Antes a multidão cabia na lente da Câmera, hoje para fotografar o mar de gente eu faço mais de mil fotos, mas enquanto eu puder eu quero estar presente”, conta Renato Bezerra, fotografo oficial da Caminhada e um dos beneficiados com o projeto desenvolvido pela ASA, na pastoral do menor.

Elas não perdem uma

Lembra das Donas Nati e Loira que mencionamos no inicio da reportagem? Amanhã elas devem participar novamente da Caminhada, mas para Dona Loira, deste o ano passado um sentimento de triste lhe acompanha no trajeto. “ Infelizmente não posso mais fazer todo o trajeto, estou com um problema no joelho e não posso caminhar muito. Mas estaria na Igreja vou participa da missa e caminhar até o Hospital Getúlio Vargas de lá fico sentada vendo os caminhantes”, diz Loira bastante emocionada.

“ Sempre participamos juntas é muito triste deixá-la sentada e continuar caminhado, mas ele prefere assim, caminho por mim e por ela. Fico emocionada logo depois que descemos a ponte da Frei Serafim e olho para trás vendo aquele mar de gente, é muito lindo, fico arrepiada só de lembrar”, relata Dona Nati também emocionada.

Caminhada já faz parte da vida dos teresinenses

O prefeito de Teresina Elmano Férrer sancionou no ano passado a Lei que inclui a Caminhada da Fraternidade no calendário de eventos de Teresina. O projeto é de autoria do vereador Edvaldo Marques (PSB) e estabelece o segundo domingo de junho como o “Dia da Fraternidade”, data onde todo o ano acontecerá a caminhada que arrasta multidões pelas avenidas e ruas de Teresina. Além dessa lei para Padre Tony Batista uma dissertação de mestrado de Serviço Social onde o tema é a nossa Caminhada, é mais um motivo de comemoração. “Esta semana recebi uma dissertação de mestrado de Serviço Social, nela a Caminhada da Fraternidade é usada com base teórica para mudar uma realidade, e é a prova de que estamos definidos o papel histórico da Igreja no Estado”, finaliza orgulhoso Padre Tony Batista.

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