A Superintendência de Operações Integradas da Secretaria de Segurança Pública do Piauí (SOI) divulgou, nesta quinta-feira (05), o balanço da segunda fase da Operação Macondo, realizada pelas Polícias Civil e Militar. A ação teve como foco desarticular uma organização criminosa formada por colombianos, investigada por conceder empréstimos ilegais com juros abusivos a pequenos comerciantes e trabalhadores informais, utilizando violência, ameaças e controle territorial em Teresina e em outras regiões do estado. De acordo com o superintendente da SOI, delegado Matheus Zanatta , os agiotas colombianos agiam como 'franquias' no território piauiense.

O delegado Matheus Zanatta explicou que o grupo atuava de forma sistemática na prática da agiotagem, impondo juros elevados e recorrendo à violência física e moral contra as vítimas e seus familiares quando os pagamentos não eram realizados. Segundo ele, a pressão exercida pelos criminosos chegou a provocar consequências graves, incluindo o suicídio de um comerciante que não conseguiu suportar as ameaças e cobranças constantes relacionadas às dívidas.

Foto: Lucas Dias/GP1
Delegado Matheus Zanatta

“A Operação Macondo tem como objetivo reprimir a prática da agiotagem com juros abusivos feitos por pessoas estrangeiras, normalmente colombianos. E além de fazer o empréstimo com juros abusivos, esses colombianos usam muita violência física, violência moral contra as pessoas que pegaram o empréstimo e também contra os seus familiares. Só para vocês terem uma ideia, em alguns casos um dos comerciantes veio a cometer suicídio porque não aguentou a pressão desses colombianos. Então, nós cumprimos 23 buscas e apreensões, 26 pessoas foram alvos, 23 prisões foram decretadas, nós conseguimos, cumprir 14 prisões, sendo que tem 9 pessoas foragidas. As prisões ocorreram tanto na região Norte do Piauí, como na região Sul, aqui na capital e também em Petrolina, no Pernambuco. Conseguimos apreender quase 6 mil reais, um monte de acessórios, de objetos que comprovam a veracidade da nossa investigação”, detalhou Matheus Zanatta.

Mandados cumpridos

Ainda de acordo com Zanatta, nesta fase da operação foram cumpridos 23 mandados de busca e apreensão, com 26 pessoas identificadas como alvos da investigação. A Justiça decretou 23 prisões, das quais 14 foram efetivamente cumpridas, enquanto nove investigados permanecem foragidos. As ações ocorreram em municípios do Norte e Sul do Piauí, além da capital, e também em Petrolina, no estado de Pernambuco, resultando na apreensão de cerca de R$ 6 mil em dinheiro e diversos objetos que comprovam o funcionamento do esquema.

“Acabamos de interrogar os investigados, muitos deles contribuíram para a investigação e nessa fase pode ter certeza que vai ter novos desdobramentos, novas pessoas serão alvos, não só em Teresina, mas também no interior do estado. Infelizmente esses estrangeiros têm feito um mal muito grande para o cidadão piauiense porque eles ficam usando essa prática de extorsão, de violência física, ameaça contra esses pequenos comerciantes que não conseguem o crédito formal na praça e tem que se valer desses estrangeiros. Esse pessoal, esses estrangeiros, que estão no Nordeste, estão no Brasil, todos mexendo com essa agiotagem, com os juros abusivos, funciona como uma espécie de franquia, cada estrangeiro tem uma área de atribuição, uma área que ele deve cuidar, por exemplo, um dos investigados hoje cuidava da zona sul, o outro da zona norte, e eles integram realmente uma verdadeira organização criminosa, com divisão de tarefas, tem a pessoa que dá o dinheiro, a outra que faz o empréstimo, a outra pessoa que faz a cobrança, o outro que vai controlando quem já pagou, quem não pagou, e o dinheiro arrecadado é enviado para um líder que está acima deles”, acrescentou Zanatta.

Foto: Lucas Dias/GP1
Delegado Matheus Zanatta detalha investigações

Aprofundamento das investigações

O delegado Roni Silveira afirmou que a atual etapa da operação é um aprofundamento das investigações iniciadas na primeira fase, a partir de informações colhidas em interrogatórios e análises técnicas. Ele relatou que um dos investigados descreveu o funcionamento da organização desde a Colômbia, onde os integrantes são aliciados, passando por São Paulo, até a atuação no Piauí, com estrangeiros sendo deslocados entre cidades e estados para exercer funções específicas, principalmente na cobrança direta das dívidas.

Sem anúncio no momento

“A operação de hoje é um desdobramento da segunda, a gente teve também um caso isolado de uma prisão e da mulher do acusado, que morreu pouco antes, entre a primeira e essa. Mas essa é uma segunda fase formal, já também aprofundando sobre o que foi colhido na primeira. O modo de operação é muito semelhante, o delegado Zanatta comentou, que nós interrogamos, um deles falou de maneira bem específica, ele veio da Colômbia, veio para São Paulo, trabalhou com tecidos, depois de uma pandemia, recebeu essa proposta para trabalhar com dinheiro já em São Paulo, pessoas da Colômbia vendem bens para conseguir o dinheiro, que é o capital inicial, e aí transferem para cá, e aí ele passou um tempo em São Paulo, veio para cá, voltou para São Paulo, depois voltou para cá em janeiro, e ele estava em uma casa que era de dois alvos nossos, que estão foragidos, que estamos indo atrás, então ele não foi preso, mas ele prestou essas informações, ou seja, funciona como uma franquia mesmo, eles têm as casas e vão colocando as pessoas, existe a rotatividade, essa pessoa tem chegado no final de janeiro, faz nem 15 dias que ele estava lá, e aí ele já estava nessa função de cobrador, trabalhando ali na cobrança, na rota diária, fazendo aquele corpo a corpo com os clientes, os devedores, e admitiu que praticava juros diários de 5 a 20%. Na verdade, a gente tem um cenário de cooptação no país de origem, os colombianos já vêm para cá, esses que trabalham nessa atividade criminosa, eles já vêm para cá designados para isso, eles são cooptados no país de origem, então há todo um trabalho de análise financeira, de análise de comunicação, de análise telemática, para a gente entender se há um fluxo comum final, um destinatário final do dinheiro”, pontuou Roni Silveira.

Foto: Lucas Dias/GP1
Delegado Roni Silveira

Segundo Roni Silveira, a estrutura criminosa apresentava divisão territorial e de tarefas, com setores definidos e responsáveis por áreas específicas em Teresina e no interior do estado. Os investigados admitiram a cobrança de juros diários que variavam entre 5% e 20%. A polícia segue analisando movimentações financeiras, comunicações e dados telemáticos para identificar se há um destinatário final comum dos valores arrecadados e possíveis líderes que comandam a atividade criminosa fora do país.

“Então tudo isso, nós já estamos agora na terceira etapa, certamente virão outras, e tudo isso está no contexto de uma gama enorme de informações que estão sendo analisadas, justamente para a gente entender se há um destinatário final comum a todos eles. O que nós temos aqui é que há setores, há uma divisão de setores, então alguns indivíduos aqui que são os principais personagens na região do Piauí, seja no interior, seja a divisão geográfica em Teresina, nós já percebemos que alguns indivíduos lideram os setores aqui. Então agora o trabalho da polícia é chegar a quem está acima desses que já tem o território dividido no Piauí. Na verdade a gente fala em Piauí só que a gente fala de uma questão que é endêmica. Esse comportamento criminoso desses estrangeiros de nacionalidade colombiana se tornou algo endêmico. Acredito que em 90% do país hoje a gente já tenha a atuação desses indivíduos. Então o que reforça a nossa crença de que eles vêm de lá, se não houver um líder comum em país estrangeiro, há poucos líderes comuns. Então a gente acredita em um grupo pequeno que tem o domínio fora do país dessa atividade criminosa”, detalhou o delegado.