O ministro do Governo Lula e ex-governador do Piauí, Wellington Dias (PT), denunciou um perfil no Instagram após a página publicar, em 1º de abril deste ano, a informação falsa de que ele teria sido preso e renunciado ao comando do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. O caso passou a ser investigado pelo Departamento de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC), que concluiu o inquérito no dia 18 de novembro de 2025 e o encaminhou ao Judiciário.
O responsável pelo perfil “@corrupcaopiauiense”, Lucas Silva Santos, foi indiciado por difamação, acusado de utilizar a página para divulgar conteúdos falsos e ofensivos contra o ministro.
Segundo os autos, Wellington Dias procurou a DRCC em 4 de abril de 2025 para registrar boletim de ocorrência, relatando que o perfil havia publicado postagens que lhe atribuíam, de forma falsa, condutas ilícitas e supostos atos de corrupção.
"Atingir sua honra e abalá-lo politicamente"
As postagens, consideradas difamatórias pelo ministro, teriam, segundo ele, o objetivo de atingir sua honra e provocar desgaste político.
Após a denúncia, a Polícia Civil abriu uma linha de investigação que incluiu a oitiva de Wellington, de testemunhas e do suspeito, além da requisição de dados ao Instagram/Meta para identificar o titular do perfil e rastrear os IPs utilizados. Também foram realizadas análises técnicas em dispositivos e registros digitais para confirmar a autoria das publicações.
Confira o depoimento do ministro Wellington Dias
O ministro Wellington Dias declarou, em depoimento, que tomou conhecimento do conteúdo em questão, após receber inúmeras mensagens encaminhadas por diversas pessoas, todas demonstrando surpresa e indignação diante da forma que considerou criminosa de produção da matéria. Relatou que houve uso indevido de sua fotografia, chamada sensacionalista de urgência e completa irresponsabilidade jornalística ao afirmar, falsamente, que ele teria renunciado ao mandato.
Salientou exercer, simultaneamente, o cargo de Senador da República e o de Ministro do Desenvolvimento Social do Governo Federal, o que torna ainda mais grave a veiculação de que teria sido preso pela Polícia Federal. Recordou que a fotografia utilizada foi registrada durante visita oficial à nova sede da Polícia Federal no Piauí, estrutura cuja implementação contou com seu apoio, assim como em outras obras federais no Estado.
Esclareceu que precisou mobilizar esforços para informar a população e preservar sua imagem pública. Ressaltou ser defensor da democracia e da liberdade de imprensa, mas ciente da diferença entre atividade jornalística legítima e práticas criminosas. Informou que o conteúdo repercutiu amplamente, levando inúmeras pessoas a procurarem esclarecimentos.
O depoente destacou que seu número telefônico é amplamente divulgado e integra diversos grupos de comunicação no Brasil e no exterior, o que ampliou o alcance da desinformação. Afirmou que mensagens chegaram a ele, a seus familiares e a contatos distribuídos por vários estados. Enfatizou a velocidade com que informações falsas se propagam nas redes sociais, sobretudo quando apresentadas de maneira sensacionalista.
Declarou entender que a publicação teve o claro objetivo de atingir sua imagem e mencionou relatos de outras autoridades que também teriam sido vítimas do mesmo portal, como a ex-governadora e ex-senadora Regina Souza, que igualmente estaria adotando medidas judiciais. Destacou que não se trata de episódio isolado ou de suposto humor, mas de prática reiterada destinada a prejudicar figuras públicas, especialmente de seu campo político.
O depoente reforçou que sua imagem e sua história pessoal são seu maior patrimônio, construído ao longo de toda sua trajetória, e que a matéria causou dano significativo à sua reputação. Informou que familiares, amigos e cidadãos chegaram a acreditar na veracidade da notícia, pois confiam que os meios de comunicação atuem com ética, responsabilidade e respeito à lei.
Ao solicitar investigação, explicou buscar a identificação precisa dos responsáveis e verificar a existência de outros envolvidos, tendo em vista indícios de atuação dolosa voltada a atacar sua integridade. Citou o conceito de “pistoleiro digital”, expressão empregada pelo desembargador Erivan, para descrever agentes que utilizam meios digitais para destruir a reputação de terceiros por meio de publicações mentirosas e violentas.
Reafirmou que a fotografia exibida na matéria refere-se à inauguração da nova sede da Polícia Federal em Teresina, resultado de esforços conjuntos para melhorias estruturais no Estado. Declarou que a distorção do contexto da imagem, associada a informações sabidamente falsas, demonstra intenção inequívoca de difamação.
Enfatizou que não pode ser considerado natural ou justificável o cometimento de crimes sob pretexto humorístico ou vinculação a datas comemorativas. Ressaltou que crimes não podem ser acobertados sob a aparência de jornalismo ou humor, pois a legislação brasileira não ampara tais práticas.
Por fim, o depoente manifestou confiança na capacidade investigativa da Polícia Civil do Estado do Piauí e no Poder Judiciário, reiterando seu desejo de que a lei seja cumprida, com o devido respeito à sua história e à relação de confiança existente entre ele e a população que representa. Afirmou que situações como essa abalam gravemente essa relação e criam riscos à integridade das pessoas atingidas, motivo pelo qual busca justiça, a fim de evitar a repetição de crimes semelhantes contra qualquer cidadão brasileiro.
Busca e apreensão na residência do investigado
Com base nos elementos coletados, a Polícia Civil requereu mandado de busca e apreensão contra Lucas Silva Santos. O pedido, acompanhado de parecer favorável do Ministério Público, foi deferido pelo juiz Valdemir Ferreira Santos, da Central de Inquéritos de Teresina.
O cumprimento da ordem judicial foi executado em 01 de julho de 2025, no endereço do investigado, no bairro Promorar, zona sul de Teresina. Na ocasião, foram apreendidos dois aparelhos celulares, um notebook, além de um pendrive.
Os equipamentos, segundo apontou a investigação, foram utilizados na criação e condução do perfil “@corrupcaopiauiense”. Parte do material foi periciada e anexada ao processo.
O iPhone apreendido foi enviado à Diretoria de Inteligência da Polícia Civil (DINT), para extração dos dados e, posteriormente, o aparelho retornou à sede da DRCC, onde sua análise técnica ainda está em andamento.
Cooperação com plataformas e empresas de telefonia
A Polícia Civil também expediu ofícios para Meta Platforms, solicitando os dados de acesso e informações do perfil; às operadoras TIM e Claro, identificando linhas telefônicas vinculadas aos números usados; à Apple e Banco Santander, sobre eventual vinculação entre dispositivos e dados financeiros; bem como à empresa 99 Tecnologia Ltda., acerca de informações cadastrais do investigado, para apurar possíveis colaboradores.
Indiciamento
Segundo o relatório final, Lucas Silva Santos, ao divulgar os conteúdos, assumiu responsabilidade pelo material divulgado e descreveu o modo de operação das postagens. Com isso, o Departamento de Repressão aos Crimes Cibernéticos concluiu que o investigado divulgou fatos desonrosos e informações falsas contra Wellington Dias, tornou o conteúdo acessível a terceiros, ampliando o dano; atuou de maneira organizada, com nítida intenção de atacar a imagem do ministro, gerando, assim, potencial lesão significativa à reputação da vítima.
Em razão disso, a autoridade policial decidiu pelo indiciamento pelo crime de difamação (art. 139 do Código Penal), com aumento de pena por dois motivos pelo fato de Wellington Dias ser funcionário público e o crime ter sido praticado pela internet, meio que amplia o alcance ofensivo.
O que disse o investigado
Em depoimento, Lucas Silva Santos admitiu ser o administrador da página Corrupção Piauiense e confirmou ter sido o responsável pela publicação da charge que motivou a investigação. Ele afirmou que o perfil tem caráter humorístico e que a postagem se tratava de uma “piada de 1º de abril”, ressaltando que a legenda deixava claro se tratar de um meme sem intenção de causar dano. Disse ainda acreditar que Wellington Dias não sofreu qualquer prejuízo e lembrou que conteúdos semelhantes já haviam sido divulgados em anos anteriores, sem repercussões.
Lucas negou ter recebido pagamento para produzir ou impulsionar postagens e afirmou que a página, na verdade, tem lhe gerado mais problemas do que vantagens. Declarou não integrar grupos organizados, estruturas profissionais ou financiadas para atacar agentes públicos. Informou administrar outras contas ligadas ao seu trabalho de marketing digital, mas nenhuma de cunho político.
Segundo o depoimento, ele atua como designer gráfico, criador de conteúdo e editor de vídeos e imagens para empresas, sem uso de impulsionamento pago. Disse também prestar serviços como assessor parlamentar e que essa é uma de suas fontes de renda, exercida de forma autônoma, embora atualmente trabalhe na Câmara Municipal das 7h às 13h, sem vínculo formal em carteira.
Sobre o perfil investigado, afirmou ser o único administrador e reforçou nunca ter recebido valores para favorecer terceiros. Disse que recebe sugestões de seguidores eventualmente, mas sem qualquer remuneração.
A respeito do cumprimento do mandado de busca e apreensão, relatou ter fornecido a senha do celular, embora tenha se sentido pressionado. Confirmou ser proprietário do número telefônico, do e-mail vinculado à conta Apple e de todos os dispositivos apreendidos, como iPhone, notebook, HD externo e outros celulares.
Lucas contou ter criado o Corrupção Piauiense em 2018, após as eleições, como forma de protesto. Mesmo publicando com menor frequência, disse continuar administrando o perfil sozinho e interagindo com seguidores que enviam denúncias. Por fim, afirmou que jamais tentou ocultar sua identidade, não utilizou perfis falsos e que seus dados sempre estiveram acessíveis às autoridades. Manifestou interesse em reaver os equipamentos apreendidos, que utiliza para trabalhar.
O que disse o ministro Welligton Dias
Ao GP1, o ministro Wellington Dias afirmou que "o país tem leis e todos se submetem à lei. Não é possível um vale tudo. Eu confio no judiciário".
Outro lado
Procurado pelo GP1, Lucas Silva não repondeu às mensagens enviadas pelo WhatsApp e Instagram do Corrupção Piauiense.
Brunno Suênio
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