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Saúde

Terapia eletroconvulsiva é boa opção de tratamento para a depressão

Nova análise descobriu que método é tão seguro quanto o uso de drogas antidepressivas.
Por Estadão Conteúdo

Um amplo novo estudo conclui que a terapia eletroconvulsiva, ou ECT, pode ser eficaz no tratamento de depressão grave e é tão segura quanto o uso de antidepressivos combinados com a psicoterapia. O procedimento, já chamado de terapia de eletrochoque, tem um histórico controverso e muito desfavorável. Isso ocorreu por causa de retratos imprecisos em livros populares e filmes como Um Estranho no Ninho e também como resultado de problemas reais com as primeiras versões do procedimento, que usava fortes correntes elétricas sem anestesia.

Hoje, a ECT é realizada sob anestesia geral, e o médico, trabalhando com um anestesista e uma enfermeira, aplica uma corrente elétrica fraca no cérebro (geralmente cerca de 0.8 amperes a 120 volts) de um a seis segundos. Isso causa uma convulsão dentro do cérebro, mas por causa da anestesia, o paciente não tem contrações musculares. A convulsão causa mudanças no cérebro que aliviam os sintomas da depressão e outras doenças mentais específicas. Geralmente, os médicos administram uma série de tratamentos de ECT por um período de dias ou semanas.

A única parte dolorosa do procedimento é a inserção de uma linha intravenosa antes da anestesia. Efeitos colaterais podem ocorrer depois, incluindo a perda temporária de memória, confusão ou dores de cabeça e dores musculares transitórias. Os médicos estão discutindo se a ECT pode causar problemas de memória a longo prazo diferentes dos problemas de memória causados pela própria depressão.

Para este novo estudo, publicado na Lancet Psychiatry, pesquisadores canadenses usaram registros de 10.016 adultos cuja depressão era severa o suficiente para que passassem três dias ou mais no hospital. Metade deles submeteu-se à ECT enquanto a outra metade foi tratada com drogas e psicoterapia. Sua média de idade era de 57 anos e cerca de dois terços eram mulheres. Os pesquisadores rastrearam como cada grupo reagiu nos 30 dias após receberem alta do hospital.

O estudo combinou cuidadosamente os pacientes com os controles, fazendo ajustes para mais de 75 fatores, incluindo características sócio-demográficas, uso de medicação, outras doenças médicas, estado comportamental e cognitivo e a utilização de serviços de psiquiatria e outros serviços de saúde. Essa metodologia completa ajudou a superar algumas das limitações de estudos anteriores.

A ECT não pareceu aumentar o risco de problemas médicos graves, incluindo circulatórios, respiratórios ou geniturinários que necessitam de internação hospitalar, ou mortes que não eram resultado de suicídio. Nos 30 dias após a alta, 105 dos pacientes submetidos à ECT tiveram problemas médicos graves, comparados a 135 do grupo controle, uma diferença estatística insignificante. Os pesquisadores não rastrearam problemas médicos menores tratados em ambulatórios. Suicídios foram raros nos dois grupos, mas significativamente menores naqueles submetidos à ECT.

“É um estudo interessante e bem conduzido”, disse o Dr. Martin Balslev Jorgensen, professor de Psiquiatria da Universidade de Copenhagen que publicou amplamente sobre a ECT, mas não esteve envolvido nesse estudo. “Como a ECT é cercada por muitas opiniões negativas, precisamos de toda a ajuda que pudermos de pesquisas baseadas na vida real”.

O Dr. Jacob P. Feigal, diretor médico do programa de ECT na Universidade Duke, que também não tem participação no trabalho, disse que o estudo pode ajudar a conversar com as pessoas para as quais o melhor tratamento é a ECT, mas que temem complicações. “Como clínico,” ele disse, “me ajuda a elaborar o argumento. Contribui com um elemento importante para a discussão sobre o risco de fazer a ECT comparado ao risco de não fazê-la em pessoas com depressão grave.”

Jorgensen disse que o estudo mostra que os pacientes não precisam se preocupar com complicações médicas e podem se concentrar nos problemas reais da ECT: você precisa ser anestesiado e, após vários tratamentos, pode ter alguma perda de memória no período anterior e durante a ECT.

Dr. Irving M. Reti, professor de Psiquiatria e diretor do programa de estimulação cerebral na Universidade Johns Hopkins, que não esteve envolvido no relatório, disse que é “um estudo importante e substancial” que contribui para a literatura médica mostrando que a ECT é segura. “Isso coloca em um contexto médico - milhares de pacientes sem complicações médicas significativas.”

O autor principal do estudo, Dr. Tyler S. Kaster, pesquisador de estimulação cerebral na Universidade de Toronto, concordou que a ECT traz riscos, mas, ele disse, a depressão grave também traz, e pode levar a problemas sérios - entre eles, doenças cardiovasculares, demência, uso de substâncias e suicídio. A decisão de se submeter à ECT é “séria e complexa”, ele disse. “A esperança nesse estudo é que ele forneça informações importantes que permitam aos pacientes, seus entes queridos e seus médicos compreenderem os riscos e tomarem a decisão mais adequada.”

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