O diretor de Inteligência da Polícia Civil do Piauí, delegado Yan Brayner, reconstruiu, com riqueza de detalhes, a atuação de Joabe da Silva Aguiar, 40 anos, apontado como uma das mais violentas lideranças do Comando Vermelho no extremo sul do Estado. Foragido desde 2016 da Penitenciária de Bom Jesus, Joabe é investigado por dezenas de homicídios relacionados à disputa de facções em municípios como Avelino Lopes, Palmeira do Piauí, Bom Jesus, Canto do Buriti e Corrente.
Em entrevista exclusiva, o diretor de inteligência, delegado Yan Brayner, explicou como a dissidência do PCC ascendeu ao comando regional e como ordenava execuções na tentativa de ocupar um vácuo de poder deixado por outras lideranças.
Ruptura interna e disputa pelo controle do tráfico
Segundo Yan Brayner, Joabe é oriundo de dissidência do PCC que atuava inicialmente na região do Médio e Alto Parnaíba. Ele rompeu com irmãos conhecidos como Fleques e Pantera, considerados chefes históricos da criminalidade em Avelino Lopes e envolvidos em grandes roubos a instituições financeiras nos municípios de Confresa-MT, Guarapuava-PR e Presidente Prudente-SP. “Essa disputa se acirra no ano passado com a morte do Fleques Pereira Lacerda, que vivia com identidade falsa em Osasco, e com a prisão do Delvane Pereira Lacerda, o Pantera, pela Polícia Federal este ano. Com isso, surge um vácuo de poder na região, e o Joabe se arvora a ocupar esse espaço, ordenando diversos homicídios”, detalhou o delegado Yan Brayner.
Execuções marcadas por extrema violência
Com a queda dos irmãos Lacerda, Joabe passou a comandar diretamente execuções, desencadeando uma sequência de assassinatos que aterrorizaram a região Sul do Piauí.
Brayner cita como exemplo o fuzilamento de um carro com mais de 150 tiros em Palmeira do Piauí no ano passado, o homicídio do criminoso conhecido como Hollywood, encontrado carbonizado às margens de uma rodovia próximo a Bom Jesus, ao lado de um Jeep Compass incendiado, além de uma série de mortes ligadas à cobrança de dívidas, disputa territorial e retaliações entre grupos rivais. “Foram inúmeros homicídios ligados diretamente às ordens dele. Hoje, temos o Pantera preso, o Fleques morto em confronto e o Joabe novamente custodiado”, afirmou Brayner.
Joabe da Silva Aguiar possui uma condenação a 49 anos de prisão por um duplo homicído e, atualmente, responde a um processo por integrar organização criminosa armada, ordenando a prática de diversos crimes, mesmo não estando morando no estado do Piauí.
Vida de luxo, identidade falsa e fuga desde 2016
O delegado explicou que, depois de fugir do sistema prisional do Piauí, Joabe passou a viver em vários estados e, por último, vivia sob identidade falsa em um apartamento de padrão médio-alto, com veículo novo e vida confortável. Ele vivia com uma mulher e uma criança recém-nascida, registrada com nome falso, o mesmo utilizado por ele.
“Ele já tinha uma condenação de 49 anos de prisão. Fugiu do sistema prisional em 2016, após ser preso em 2015. É um indivíduo de extrema periculosidade”, reforça Brayner.
O histórico de violência inclui crimes praticados contra um casal de pequenos traficantes que acumulou dívida de drogas. Joabe teria sequestrado, fraturado braços e pernas e até arrancado os globos oculares das vítimas.
Como a polícia chegou ao líder criminoso
A investigação, que durou mais de um ano, foi marcada por grande dificuldade devido ao modo de atuação de Joabe, que não utilizava redes sociais; mudava de número de telefone frequentemente; utilizava contas bancárias de terceiros e evitava rotinas fixas.
O paradeiro do criminoso foi descoberto no Estado do Pará, onde ele se escondia. A Diretoria de Inteligência acionou a Polícia Civil do Pará, que passou a monitorá-lo 24 horas por dia, inclusive, durante a realização da COP30, que mobilizou grande parte dos efetivos em Belém.
“Apesar do evento internacional, recebemos total apoio das unidades do Pará. O monitoramento foi permanente até o momento da prisão. Foi uma resposta direta à sociedade do sul do Estado”, afirmou Yan Brayner.
Rapidinhas
Denúncias pelo B.O Fácil podem elucidar novos crimes de Joabe da Silva Aguiar
Para a Secretaria de Segurança Pública do Piauí, a divulgação da imagem de Joabe pela Polícia Civil visa estimular o reconhecimento de sua participação em outros delitos ainda não esclarecidos.
“A imagem aproxima o cidadão da polícia. Quando a população vê o rosto, pode lembrar de um fato ou crime presenciado. A denúncia anônima é fundamental e pode ser feita pelo Disque Denúncia: 0800 086 0190”, destacou o diretor de inteligência da Polícia Civil do Piauí, Yan Brayner.
As denúncias recebidas pela plataforma B.O Fácil são tratadas pela inteligência e distribuídas às unidades operacionais para apoio às investigações.
O fim de uma era do Comando Vermelho no extremo sul do Piauí
Com a morte de Fleques, a prisão de Pantera e a recaptura de Joabe, a Polícia Civil acredita que encerra um dos períodos mais violentos dos conflitos entre facções no sul do Piauí, marcado por execuções, torturas e disputas por rotas de tráfico.
Ministério da Justiça cria Sistema Nacional de Inteligência para Enfrentamento ao Crime Organizado
O Ministério da Justiça e Segurança Pública instituiu, nessa segunda-feira (8), o Sistema Nacional de Inteligência para Enfrentamento ao Crime Organizado, por meio da Portaria nº 847/2025. A medida cria uma estrutura integrada de informações com foco no combate a facções e organizações criminosas em todo o país.
Segundo o texto, o sistema reunirá dados estratégicos de inteligência produzidos por órgãos federais, estaduais e distritais, permitindo que investigações e operações sejam realizadas com maior precisão, rapidez e coordenação.
Objetivos do novo sistema é melhorar a qualidade e confiabilidade das bases de dados de segurança pública, integrar ações estratégicas, operacionais e de inteligência no combate às facções, garantir interoperabilidade entre sistemas e bancos de dados de diferentes instituições, além de unificar informações e critérios de identificação de integrantes de organizações criminosas e estimular ações permanentes de enfrentamento ao crime organizado.
Com isso, o Ministério da Justiça pretende reduzir a fragmentação de informações e fortalecer a troca de dados entre forças policiais, uma das principais dificuldades apontadas por especialistas na área.
Quem terá acesso ao Sistema Nacional de Inteligência para Enfrentamento ao Crime Organizado
Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP);
Polícia Federal;
Polícia Rodoviária Federal;
Secretaria Nacional de Políticas Penais;
Secretarias Estaduais de Segurança Pública;
Polícias Civis, Militares e Penais;
Sistemas Penitenciários estaduais e do Distrito Federal.
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1
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