O anúncio da saída do delegado Charles Pessoa da coordenação do DRACO coincidiu, no calendário político, com a notícia de que seu nome pode figurar entre os futuros candidatos a deputado federal pelo Republicanos. O encontro dessas duas agendas não passou despercebido no meio político, sobretudo porque a trajetória de Charles, desde o início no comando do Departamento de Repressão às Ações Criminosas Organizadas, sempre foi marcada pela presença midiática.
As operações, quase sempre gravadas, ganharam mais do que espaço jornalístico: consolidaram uma imagem de enfrentamento direto ao crime organizado e projetaram o delegado além dos limites técnicos da função. A visibilidade, como lembrou o secretário Chico Lucas, trouxe também novos compromissos: palestras, visitas a escolas, encontros em comunidades. De alguma forma, essas agendas foram somando, até que a rotina administrativa do DRACO se tornou incompatível.
O gesto de se afastar da chefia do departamento, portanto, pode ser lido de duas maneiras. Oficialmente, é o reconhecimento de que a função exigia dedicação integral, que já não era possível conciliar. Politicamente, abre espaço para outro tipo de dedicação, mais próxima das urnas que das ocorrências policiais. No Piauí, onde o calendário eleitoral nunca dorme, a pergunta que se coloca é se Charles ajustou o despertador para 2026.
A conversa com o Republicanos do deputado Jadyel Alencar é um sinal nesse sentido. O partido, que busca estruturar sua chapa proporcional para disputar duas vagas na Câmara, vê em Charles um nome de apelo popular e capacidade de atrair voto difuso, sobretudo em setores da sociedade mais sensíveis ao discurso da segurança pública. Na projeção de Jadyel, a presença do delegado somaria força à própria candidatura e à possível volta do ex-deputado Fábio Abreu.
Mas o cenário não é simples. O veto do presidente Lula ao aumento de cadeiras reduziu o espaço que se acreditava existir para novas lideranças. No caso do Piauí, a bancada pode encolher, e a disputa interna do PT já dá sinais de saturação. Cada vaga a menos representa um grupo sem representação, e cada exclusão gera ruídos. Nesse ambiente, os nomes de fora da base governista, ou com trajetória independente, como é o caso de Charles, podem ter a vantagem de não carregar dívidas partidárias.
A aposta em figuras midiáticas, contudo, não é novidade. No passado recente, outros delegados e agentes da segurança tentaram converter a notoriedade do combate ao crime em mandatos parlamentares. Nem sempre a tradução foi automática. A popularidade que nasce nas operações policiais precisa se transformar em votos, e isso depende de estrutura partidária, base territorial e alianças. É nesse ponto que o Republicanos joga seu peso, oferecendo a Charles uma moldura que não teria sozinho.
Se a decisão de entrar na disputa já está tomada, Charles não disse. Mas a política tem seu próprio relógio, e quem não configura o despertador no tempo certo corre o risco de acordar tarde demais.
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1
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