Li 'O ego é seu inimigo', de Ryan Holiday, como quem lê um prontuário clínico de uma doença silenciosa que afeta a política contemporânea.
Uma doença que quase ninguém quer diagnosticar. O livro não oferece autoajuda. Ele oferece autocrítica. E, para quem acompanha o funcionamento do poder por dentro ou nos bastidores eleitorais, o alerta não poderia ser mais atual: o ego é uma ameaça estrutural à liderança pública.
Holiday aborda o ego não como sinônimo de autoestima ou ambição legítima, mas como aquilo que distorce a percepção, paralisa a escuta, impede o aprendizado e transforma qualquer liderança em uma caricatura de si mesma. E o faz em três momentos centrais da trajetória humana e política: a aspiração, o sucesso e o fracasso.
Todo político começa com um discurso nobre. Mudar o estado. Representar os esquecidos. Corrigir injustiças. Mas há uma linha tênue e quase invisível entre propósito e projeção. Como alerta Holiday, o ego adora vestir fantasias de idealismo. Ele transforma causas públicas em vitrines privadas.
Quando o valor de uma ideia passa a ser medido pela repercussão que ela gera nas redes, e não pelo impacto que ela tem na vida real, o ego já venceu a batalha da consciência. E isso acontece, com frequência, antes mesmo de o político conquistar o primeiro mandato.
O sucesso não revela o caráter. Ele o testa. E poucos estão preparados para o que o sucesso faz com o ego. A visibilidade, o prestígio e os elogios em sequência criam uma ilusão de excepcionalidade. Holiday cita o exemplo de Howard Hughes, um ícone que, ao se isolar no topo, perdeu a conexão com a realidade. Na política, os exemplos se multiplicam.
É no sucesso que o ego se torna mais perigoso. Ele ensina o líder a confundir autoridade com infalibilidade, influência com superioridade, aplauso com razão. É quando o político deixa de ouvir e começa a acreditar que já sabe tudo. A escuta é sacrificada em nome da performance. E o personagem suprime a pessoa.
Mais do que vencer, é preciso saber perder. Mas o ego não aceita o fracasso. Ele racionaliza, terceiriza a culpa, inventa complôs. E, ao fazer isso, bloqueia a única coisa que poderia transformar a derrota em evolução: a humildade.
Ryan Holiday mostra como o estoicismo oferece ferramentas para lidar com a adversidade. Foco no que se pode controlar, aceitação do que é inevitável, aprendizado a partir do erro. Mas isso exige uma prática que o ego rejeita: silêncio, reflexão e autocrítica. Elementos raros na política atual, onde a resposta padrão ao fracasso é o ressentimento.
Como cientista político, defendo que o poder precisa ser compreendido para além das estruturas formais. Ele é também uma experiência subjetiva. E, por isso mesmo, profundamente perigosa. A política transforma para o bem ou para o mal. E o ego, quando não domado, funciona como um vírus institucional. Ele corrompe a relação com a verdade, com os aliados e com os limites.
O ego não é apenas uma patologia individual. Ele é alimentado por sistemas que recompensam a vaidade e punem a vulnerabilidade. Em um ambiente onde a aparência vale mais do que a consistência, a transparência é vista como fraqueza. E o erro, como ameaça à imagem, não como oportunidade de crescimento.
O livro de Holiday não propõe a extinção do ego, o que seria impraticável. Mas propõe algo mais realista e mais difícil: o seu gerenciamento. Domar o ego é reconhecer sua presença e limitar seu poder. É saber que o verdadeiro líder não é o que mais aparece, mas o que mais aprende. Não é o que mais fala, mas o que mais ouve.
Num tempo em que a política virou espetáculo, o verdadeiro diferencial talvez não seja o carisma, o marketing ou a verborragia. Mas a capacidade de manter o pé no chão. De preservar a sanidade em meio ao ruído. E, acima de tudo, de lembrar que o poder, quando guiado pelo ego, não transforma a realidade. Apenas a deforma.
José Trabulo Júnior é consultor de marketing político, jornalista, cientista político, publicitário, escritor e palestrante.
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1
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