Existe um livro chamado O Mito do Eleitor Racional que ajuda a entender por que ideias ruins continuam vencendo eleições e por que promessas fáceis quase sempre ganham mais espaço do que soluções que realmente funcionam. A explicação é simples e incômoda ao mesmo tempo. Na política, muita gente escolhe pelo que soa bem, não pelo que dá resultado.
O voto individual quase nunca decide uma eleição. Isso faz com que o custo de estar errado seja praticamente zero. Na prática, o eleitor pode apoiar uma ideia ruim sem sentir o prejuízo direto depois. O conforto emocional pesa mais do que a consequência econômica. E isso cria um ambiente perfeito para discursos bonitos e políticas ineficientes.
Na política, quem promete enfrentar vilões, distribuir benefícios ou oferecer soluções rápidas costuma ser aplaudido. Já quem fala em produtividade, responsabilidade e limites ao Estado geralmente perde espaço. Não porque esteja errado, mas porque exige mais reflexão e menos emoção.
Um exemplo claro disso está em programas de transferência de renda como o Bolsa Família. A proposta nasce com um objetivo legítimo: proteger quem está em situação de vulnerabilidade. O problema surge quando a política deixa de ser ponte e passa a ser destino. Quando não há incentivo real para qualificação, trabalho e saída do programa, cria-se dependência política e econômica. Isso agrada eleitoralmente, porque distribui benefício imediato, mas não resolve o problema estrutural da renda e da produtividade.
O livro também mostra que esse comportamento segue padrões. Existe uma desconfiança constante do mercado e do lucro, como se empreender fosse algo errado. Há a tendência de culpar fatores externos por problemas internos. E existe a ideia de que criar empregos, por si só, resolve tudo, mesmo que esses empregos não gerem riqueza real. Tudo isso se mistura com uma sensação permanente de crise, que alimenta discursos salvadores.
Para quem observa a política com atenção, isso explica muita coisa. Políticos não governam contra o eleitor. Governam para agradar o eleitor. Se uma ideia errada é popular, ela vira política pública. Não porque funciona, mas porque rende voto. A política deixa de ser sobre resultado e passa a ser sobre narrativa.
A diferença entre política e mercado é simples. No mercado, quem erra paga a conta. Na política, o prejuízo é dividido entre todos e quase nunca é associado à escolha individual. Por isso políticas que falham continuam sendo defendidas, repetidas e ampliadas.
No fim das contas, a política não é só uma disputa entre partidos. É uma disputa entre emoção e realidade. Enquanto vencer quem promete conforto imediato, o país continuará pagando caro por escolhas que parecem boas no discurso, mas são ruins na prática.
José Trabulo Júnior é consultor de marketing político, jornalista, cientista político, publicitário.
E-mail: [email protected]
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1
Ver todos os comentários | 0 |