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Esperança Garcia: "falar é fácil, fazer é que é difícil!"


*Gonçalo Carvalho Filho

Lendo a fábula de Esopo “A Assembléia dos Ratos”, veja só do que fui me lembrar: de Esperança Garcia. Aparentemente o escrito do fabulista grego do século 6 a.C. nada tem a ver com a história de uma escrava da Capitania do Piauí em fins do século 18, entretanto, foi a moral da fábula que me levou a pensar em Esperança Garcia: “Falar é fácil, fazer é que é difícil”.

Esperança Garcia viveu na região de Oeiras na fazenda Algodões, a mais ou menos 300 km de Teresina, essa fazenda juntamente a outras dezenas de estâncias pertenciam à inspeção de Nazaré, onde é hoje o município de Nazaré do Piauí. Pois, bem, imaginemos o quanto esta mulher negra e escrava foi corajosa, na medida em que, através de uma carta escrita por ela e encaminhada ao governador do Piauí, Gonçalo Lourenço Botelho de Castro, ela denunciou os maus tratos de que era vítima, juntamente com seus filhos e companheiras. A carta foi descoberta pelo pesquisador e historiador Luiz Mott em 1979, e é datada de 06 de setembro de 1770. Há uma cópia do documento no Arquivo Público do Piauí, porém, o original acha-se em Portugal.

A relação com a moral da fábula está exatamente no fato de Esperança Garcia, mesmo sendo escrava, ter tido a coragem de escrever uma carta numa sociedade que, à época, era formada majoritariamente por analfabetos, e mais, os únicos a saber ler e escrever eram os funcionários da Coroa portuguesa, a exemplo do próprio governador da província. Na condição de escrava, sem dúvida, escrever uma carta denunciando uma pessoa de prestígio, um administrador de uma fazenda, ao mais alto dignitário da província, foi um ato carajoso. Como deve ter sido difícil para Esperança Garcia escrever/fazer aquela carta!

Nesse 8 de Março façamos rendamos muitas homenagens a essa grande mulher piauiense, Esperança Garcia.

Segue abaixo o modelo original da carta e sua versão atualizada:

CARTA

"Eu sou hua escrava de V. Sa. administração de Capam. Antº Vieira de Couto, cazada. Desde que o Capam. lá foi adeministrar, q. me tirou da fazenda dos algodois, aonde vevia com meu marido, para ser cozinheira de sua caza, onde nella passo mto mal.

A primeira hé q. ha grandes trovoadas de pancadas em hum filho nem sendo uhã criança q. lhe fez estrair sangue pella boca, em mim não poço esplicar q. sou hu colcham de pancadas, tanto q. cahy huã vez do sobrado abaccho peiada, por mezericordia de Ds. esCapei.

A segunda estou eu e mais minhas parceiras por confeçar a tres annos. E huã criança minha e duas mais por batizar.

Pello q. Peço a V.S. pello amor de Ds. e do seu Valimto. ponha aos olhos em mim ordinando digo mandar a Procurador que mande p. a fazda. aonde elle me tirou pa eu viver com meu marido e batizar minha filha q.

De V.Sa. sua escrava Esperança Garcia”

"Eu sou uma escrava de V.S.a administração de Capitão Antonio Vieira de Couto, casada. Desde que o Capitão lá foi administrar, que me tirou da Fazenda dos Algodões , aonde vivia com meu marido, para ser cozinheira de sua casa, onde nela passo tão mal. A primeira é que há grandes trovoadas de pancadas em um filho nem, sendo uma criança que lhe fez extrair sangue pela boca; em mim não poço explicar que sou um colchão de pancadas, tanto que caí uma vez do sobrado abaixo, peada, por misericórdia de Deus escapei. A segunda estou eu e mais minhas parceiras por confessar a três anos. E uma criança minha e duas mais por batizar. Pelo que peço a V.S. pelo amor de Deus e do seu valimento, ponha aos olhos em mim, ordenando ao Procurador que mande para a fazenda aonde ele me tirou para eu viver com meu marido e batizar minha filha. De V.Sa. sua escrava, Esperança Garcia".

*Gonçalo Carvalho Filho é professor no Piauí

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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