*Deusval Lacerda de Moraes
No dia 13 de dezembro, completam-se 100 anos do nascimento de Luiz Gonzaga. Sem dúvida, um dos maiores brasileiros de todos os tempos. Artista que cantou e encantou os brasileiros e especialmente os nordestinos independentemente de idade, crença, sexo ou geração. Não há quem nasça nesta região brasileira que não carregue durante toda a vida lembranças do que tocou e cantou o Rei do Baião. Ele foi, entre todas as regiões do País, o que mais decantou em prosa e verso a sua regionalidade. Foi trovador de todos os contrastes e vicissitudes do Nordeste do Brasil.
Luiz Gonzaga era um nordestino telúrico. Nascido no sertão pernambucano em 1912, mais precisamente no município de Exu/PE, viveu a sua infância e adolescência convivendo com os rigores, durezas e provações de um semiárido do limiar do século XX. Oriundo de família rurícola, que cultivava o roçado para sobreviver, nutria uma fé inabalável na religiosidade cristã e nos atributos artísticos do genitor Januário José dos Santos, que tanto enaltecia, e assim cultuou a arte musical do acordeão.
Nesse seu labor árido da juventude, conviveu com a inclemência da seca e das adversidades nordestinas. Viu de perto o quanto os seus irmãos sertanejos sofriam para sobreviverem na rusticidade do campo e na ausência do setor público como organização política indutor da satisfação das necessidades básicas de um povo. Levou para a música o sofrimento, a dor, as intempéries, as dificuldades, os lamentos, os dramas, as tristezas, as angústias, os sonhos, as esperanças, as alegrias e as diversões desses abandonados da sorte que vivia em situação de desamparo e penúria e também na arraigada convivência cabocla com o seu habitat natural (fauna, flora, modo de vida), e que, como intérprete das suas agruras e resignações, a sua voz irradiou em todos os recantos nacionais como um grito de alerta, denúncia, esperança e libertação dessa gente.
O próprio Luiz Gonzaga, devido à pobreza, falta de perspectiva e discriminação, deixou para trás aos 18 anos de idade aquele sistema rudimentar-patriarcal familiar, econômico, político, social e legal que tanto o impressionara e foi para a cidade grande ganhar a vida com o seu único trunfo que era o instrumento da sanfona e que inclusive em certa ocasião vendeu-a para aplacar as suas necessidades mais prementes de subsistência. Na sua luta pelo pedestal artístico, sofreu os reveses da vida ao dormir em bancos de praça e passar fome que, sem outra escolha, alistou-se em 1930 no 23º Batalhão de Caçadores do Exército para garantir abrigo, roupa e comida.
Dez anos depois, em 1939, aportou-se no Rio de Janeiro com o seu matulão e sanfona nas costas para apresentar a sua arte musical e conquistar a redenção que tanto almejava. Mas novamente enfrentou desilusões, pois os ritmos das canções da boemia carioca inicialmente não comportavam bem o instrumento da sanfona. Mas sem nunca desistir, porque o sertanejo é um forte, mesmo caindo aqui e levantando acolá, continuou tocando nos bares e cabarés da Cidade Maravilhosa, quando, de repente, deparou-se numa mesa de bar com estudantes cearenses, do Crato/CE, que, em vez do tango enfadonho que entoava, pediram para tocar um arrasta-pé nordestino, que mudou a sua carreira. Em 1941, foi aplaudido no programa radiofônico do Ary Barroso na lendária Rádio Nacional com Vira e Mexe, um tema regional de sua autoria que foi a principal música do seu primeiro disco e que logo se tornou no maior sanfoneiro nordestino.
Aí deslanchou de vez. Começou também a cantar e numa visita aos familiares em 1947 incorporou na sua estética ou indumentária artística as roupas do vaqueiro (gibão) e o chapéu de couro adornado de Lampião (Rei do Cangaço), que tanto admirava na juventude. Fez boas parcerias com Humberto Teixeira, Zé Dantas, José Marcolino, Patativa do Assaré (Triste Partida) etc., e a canção Asa Branca virou o Hino do Nordeste e, em seguida, foi aclamado o Rei do Baião. Morreu em 1989, deixando um acervo musical inestimável e perene em todo o Brasil e no Mundo, e suas canções continuam fazendo sucesso na região nordestina, as suas músicas são regravadas por cantores jovens e estradeiros e ainda hoje influenciam novos artistas na arte musical da sanfona como também na produção de novas toadas no diversificado cancioneiro nordestino. Neste ano do seu centenário, o Brasil rendeu sinceras homenagens durante o ano inteiro a Luiz Gonzaga do Nascimento. E o Piauí se destacou com a Cantata Gonzaguiana (Orquestra Sinfônica de Teresina e João Cláudio Moreno) sob a batuta do maestro Aurélio Melo. Assim, o Rei do Baião é verdadeiramente imortal!
*Deusval Lacerda de Moraes
Pós-Graduado em Direito
No dia 13 de dezembro, completam-se 100 anos do nascimento de Luiz Gonzaga. Sem dúvida, um dos maiores brasileiros de todos os tempos. Artista que cantou e encantou os brasileiros e especialmente os nordestinos independentemente de idade, crença, sexo ou geração. Não há quem nasça nesta região brasileira que não carregue durante toda a vida lembranças do que tocou e cantou o Rei do Baião. Ele foi, entre todas as regiões do País, o que mais decantou em prosa e verso a sua regionalidade. Foi trovador de todos os contrastes e vicissitudes do Nordeste do Brasil.
Luiz Gonzaga era um nordestino telúrico. Nascido no sertão pernambucano em 1912, mais precisamente no município de Exu/PE, viveu a sua infância e adolescência convivendo com os rigores, durezas e provações de um semiárido do limiar do século XX. Oriundo de família rurícola, que cultivava o roçado para sobreviver, nutria uma fé inabalável na religiosidade cristã e nos atributos artísticos do genitor Januário José dos Santos, que tanto enaltecia, e assim cultuou a arte musical do acordeão.
Nesse seu labor árido da juventude, conviveu com a inclemência da seca e das adversidades nordestinas. Viu de perto o quanto os seus irmãos sertanejos sofriam para sobreviverem na rusticidade do campo e na ausência do setor público como organização política indutor da satisfação das necessidades básicas de um povo. Levou para a música o sofrimento, a dor, as intempéries, as dificuldades, os lamentos, os dramas, as tristezas, as angústias, os sonhos, as esperanças, as alegrias e as diversões desses abandonados da sorte que vivia em situação de desamparo e penúria e também na arraigada convivência cabocla com o seu habitat natural (fauna, flora, modo de vida), e que, como intérprete das suas agruras e resignações, a sua voz irradiou em todos os recantos nacionais como um grito de alerta, denúncia, esperança e libertação dessa gente.
O próprio Luiz Gonzaga, devido à pobreza, falta de perspectiva e discriminação, deixou para trás aos 18 anos de idade aquele sistema rudimentar-patriarcal familiar, econômico, político, social e legal que tanto o impressionara e foi para a cidade grande ganhar a vida com o seu único trunfo que era o instrumento da sanfona e que inclusive em certa ocasião vendeu-a para aplacar as suas necessidades mais prementes de subsistência. Na sua luta pelo pedestal artístico, sofreu os reveses da vida ao dormir em bancos de praça e passar fome que, sem outra escolha, alistou-se em 1930 no 23º Batalhão de Caçadores do Exército para garantir abrigo, roupa e comida.
Dez anos depois, em 1939, aportou-se no Rio de Janeiro com o seu matulão e sanfona nas costas para apresentar a sua arte musical e conquistar a redenção que tanto almejava. Mas novamente enfrentou desilusões, pois os ritmos das canções da boemia carioca inicialmente não comportavam bem o instrumento da sanfona. Mas sem nunca desistir, porque o sertanejo é um forte, mesmo caindo aqui e levantando acolá, continuou tocando nos bares e cabarés da Cidade Maravilhosa, quando, de repente, deparou-se numa mesa de bar com estudantes cearenses, do Crato/CE, que, em vez do tango enfadonho que entoava, pediram para tocar um arrasta-pé nordestino, que mudou a sua carreira. Em 1941, foi aplaudido no programa radiofônico do Ary Barroso na lendária Rádio Nacional com Vira e Mexe, um tema regional de sua autoria que foi a principal música do seu primeiro disco e que logo se tornou no maior sanfoneiro nordestino.
Aí deslanchou de vez. Começou também a cantar e numa visita aos familiares em 1947 incorporou na sua estética ou indumentária artística as roupas do vaqueiro (gibão) e o chapéu de couro adornado de Lampião (Rei do Cangaço), que tanto admirava na juventude. Fez boas parcerias com Humberto Teixeira, Zé Dantas, José Marcolino, Patativa do Assaré (Triste Partida) etc., e a canção Asa Branca virou o Hino do Nordeste e, em seguida, foi aclamado o Rei do Baião. Morreu em 1989, deixando um acervo musical inestimável e perene em todo o Brasil e no Mundo, e suas canções continuam fazendo sucesso na região nordestina, as suas músicas são regravadas por cantores jovens e estradeiros e ainda hoje influenciam novos artistas na arte musical da sanfona como também na produção de novas toadas no diversificado cancioneiro nordestino. Neste ano do seu centenário, o Brasil rendeu sinceras homenagens durante o ano inteiro a Luiz Gonzaga do Nascimento. E o Piauí se destacou com a Cantata Gonzaguiana (Orquestra Sinfônica de Teresina e João Cláudio Moreno) sob a batuta do maestro Aurélio Melo. Assim, o Rei do Baião é verdadeiramente imortal!
*Deusval Lacerda de Moraes
Pós-Graduado em Direito
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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