O líder do Governo Lula no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi traído durante a votação que rejeitou a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias , para o Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo o senador, houve uma articulação de parlamentares para barrar o nome indicado pelo Palácio do Planalto. A declaração foi dada após a derrota de Messias no Senado, no começo deste mês. O indicado de Lula recebeu 42 votos contrários e uma abstenção, mesmo após ter sido aprovado na sabatina da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Foi a primeira vez, em 135 anos, que o Senado rejeitou uma indicação presidencial ao STF.
“Óbvio que houve traição. Ganharam o quê? Nada. [...] Muita gente mentiu. Eu não estou procurando quem traiu porque posso fazer uma tremenda injustiça. Quem sabe essa conta é quem armou o time contrário”, disse Jaques Wagner em entrevista à Folha de S. Paulo publicada nesta sexta-feira (22). A escolha de Jorge Messias aconteceu após a aposentadoria antecipada do ministro Luís Roberto Barroso. A indicação contrariou o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que defendia o nome do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) para a vaga na Corte. Após o episódio, a relação entre Alcolumbre e o governo federal se deteriorou. Segundo aliados do Planalto, o presidente do Senado passou a pautar projetos considerados desfavoráveis ao governo, além de vetos e matérias vistas como “pautas-bomba”.
O desgaste político também provocou um distanciamento pessoal entre Lula e Alcolumbre. O senador Jaques Wagner chegou a se referir ao presidente do Senado como “menino zangado”. “Muita gente [armou contra o governo]. Quando eu subi na tribuna, o Davi não falou ‘Vocês vão perder por 8’? A gente perdeu por 7”, relembrou o parlamentar. Jaques Wagner confirmou ainda que Lula pretende indicar novamente Jorge Messias ao STF futuramente, mesmo que precise aguardar a próxima legislatura, conforme determina o regimento interno do Senado. Para o líder governista, o presidente ficou incomodado com a derrota da indicação.
“Teve o trauma do Rodrigo, que na minha opinião não foi bem conduzido. A prerrogativa de indicar é do presidente. Uma coisa é você negociar, outra coisa é impor”, ressaltou. Lula também deseja que Rodrigo Pacheco dispute o governo de Minas Gerais nas próximas eleições. O nome do senador já foi defendido pelo presidente em eventos oficiais, embora Pacheco ainda avalie a possibilidade.
Apesar do clima de tensão entre Lula e Alcolumbre, Jaques Wagner acredita que ainda há espaço para uma reaproximação entre os dois.
“Não houve uma declaração de guerra entre os dois, mas há um mal-estar. O Lula é tarimbado o suficiente, eu creio que o Davi também, para saber que os presidentes da República e do Senado não podem estar não se falando. Lula não é de guardar rancor”, afirmou.
A retomada da relação entre o governo federal e o presidente do Senado é considerada importante para o avanço de pautas prioritárias do Palácio do Planalto antes das eleições de outubro. Entre elas está a proposta que prevê o fim da escala de trabalho 6x1, considerada uma das principais bandeiras da campanha de reeleição de Lula. A expectativa do governo é de que a proposta seja votada na Câmara dos Deputados na próxima semana e, em seguida, siga para análise do Senado.
O Planalto também aguarda que Davi Alcolumbre avance com a tramitação da PEC da Segurança Pública, aprovada pela Câmara há mais de um mês e meio, mas ainda parada no Senado. A proposta é vista pelo governo como estratégica diante da preocupação da população com o aumento da criminalidade no país.