O equilíbrio das contas públicas brasileiras deve ficar fora do centro das decisões políticas até o fim do atual ciclo eleitoral, empurrando para o próximo governo o custo de um ajuste fiscal considerado inevitável por integrantes da própria equipe econômica. A avaliação ganhou força após declarações da ministra do Planejamento, Simone Tebet, que reconheceu publicamente a dificuldade de manter as regras fiscais atuais sem pressionar inflação, dívida pública e crescimento econômico a partir de 2027.
Desde o início do atual governo, a estratégia para conter o desequilíbrio tem se apoiado sobretudo no aumento da arrecadação. Medidas como a reformulação do IOF, a tributação de fundos exclusivos, apostas online e importações de pequeno valor ampliaram as receitas federais, mas não foram suficientes para reverter a tendência de deterioração fiscal. Mesmo com recorde de arrecadação, os gastos continuam crescendo em ritmo superior, comprometendo a eficácia do arcabouço fiscal recém-implantado.
Dados do Tesouro Nacional indicam que o déficit segue elevado. Apenas em novembro, o resultado negativo das contas públicas alcançou cerca de R$ 20 bilhões, enquanto o acumulado do ano ultrapassou R$ 80 bilhões. No mesmo período, as despesas federais avançaram acima do crescimento das receitas, ampliando a dívida pública e reforçando a percepção de que o modelo atual não consegue estabilizar a trajetória fiscal no médio prazo.
Para analistas, o adiamento de decisões mais duras reflete um ambiente político dominado por cálculos eleitorais. Executivo e Legislativo evitam medidas impopulares, enquanto pressões por aumento de gastos persistem em diferentes frentes, inclusive no Judiciário. Nesse cenário, o Banco Central segue como principal agente de contenção dos efeitos econômicos, mantendo juros elevados para controlar a inflação. O consenso entre especialistas é que o custo desse adiamento será cobrado após as eleições, com ajustes mais bruscos e menor margem de manobra para quem assumir o comando do país.
Caroline Vitorino
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