Uma investigação sobre fraudes financeiras identificou que certificados de ações do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (BESC) tiveram papel central em operações irregulares atribuídas ao Banco Master. Os documentos físicos, conhecidos como cártulas, estavam vinculados a ações do antigo banco, incorporado pelo Banco do Brasil em 2008, e foram adquiridos por fundos administrados pela gestora Reag Trust. Segundo a apuração, esses papéis de baixa liquidez eram usados para inflar artificialmente o valor dos fundos de investimento.
De acordo com a investigação, os gestores compravam as cártulas por valores muito superiores aos praticados no mercado, apesar do reduzido valor real dos ativos. A prática permitia registrar nos fundos patrimônios elevados, criando margem para transferências de recursos entre veículos financeiros da própria gestora. As suspeitas indicam que o mecanismo beneficiava pessoas interpostas ligadas a Daniel Vorcaro, apontado como proprietário do Banco Master, permitindo que ativos sem lastro econômico fossem contabilizados como milionários.
A assessoria da Reag informou ao jornal Folha de S. Paulo que a gestora foi vendida para a Arandu Investimentos em outubro de 2025, orientando que esclarecimentos sobre operações realizadas entre 2023 e 2024 fossem solicitados aos novos controladores. A Arandu não respondeu aos pedidos de informação, enquanto o Banco Master optou por não se manifestar. O Banco Central apontou indícios de fraude, acionou o Ministério Público Federal e solicitou o bloqueio de recursos relacionados ao esquema.
Segundo os investigadores, as cártulas circulavam entre diferentes fundos no mesmo dia, por meio de operações financeiras simuladas. O Banco Central estimou que cerca de R$ 11,5 bilhões foram lavados por meio dessa estrutura, em transações realizadas entre julho de 2023 e julho de 2024. O período é anterior à venda de carteiras de créditos considerados de difícil recuperação, mencionada na denúncia inicial do órgão regulador que embasou a prisão de Vorcaro em novembro do ano passado. As apurações indicam que os empréstimos do Master para empresas ligadas ao esquema chegavam a R$ 500 milhões por operação.
A investigação aponta que o ciclo começava com empréstimos concedidos pelo Banco Master a empresas formalmente desvinculadas da instituição, mas que aplicavam os recursos em fundos da Reag. Os gestores utilizavam o dinheiro para adquirir ativos desvalorizados por preços elevados, completando o fluxo de lavagem. O colapso do esquema começou no último trimestre de 2024, quando o Master enfrentou dificuldades para captar recursos via CDBs e passou a negociar créditos consignados considerados fictícios com o BRB, banco controlado pelo Distrito Federal. Segundo o Banco Central, essas operações somaram R$ 12,2 bilhões.
Davi Fernandes
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